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30 de maio a 11 junho de 2005

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O ANJO PORNOGRÁFICO
Ruy Castro prova que não é preciso idolatrar o biografado para que seja feito um bom trabalho
por Giselle Marques ( giselle.marques@uol.com.br )

evorar as quase quinhentas páginas de O Anjo Pornográfico em busca de Nelson Rodrigues nu em uma banheira de orgia carnal é um equívoco. A imagem construída pela mídia perpetuou, para a massa de pessoas que usam 10% de sua inteligência animal, um homem que pensava apenas no coito proibido, mas Nelson era muito mais – ou muito menos – que isso. Foi um homem visivelmente assexuado, obsessivo, reacionário e, segundo o colega psiquiatra, escritor e militante político Hélio Pellegrino, também um “libertário equivocado”. Amigo dos militares nos anos da ditadura, o criador de Engraçadinha viu seu mundo ruir ano após ano em um abismo de contrariedades.

A biografia do escritor maldito não sustenta os holofotes apenas sobre ele, mas em torno de seu trabalho, sua família, seus amigos, a política e seus amores ensandecidos. Mário Filho, irmão de Nelson, foi um dos personagens mais importantes e necessários para o jornalismo brasileiro. Inventou a notícia esportiva e praticamente foi responsável pela existência do estádio do Maracanã, além da multidão presente nos Fla-Flus.

Mário Filho foi tão ou mais interessante que Nelson, embora ofuscado pelo cuidado excessivo de não expor seus contos e pensamentos além do trabalho jornalístico. Casado com uma mulher depressiva e suicida, pai de um único filho alcoólatra, Mário Filho teve seu caixão conduzido por amadores do Flamengo. Se não fosse pela insanidade alienada e ignorante de seu filho Mário Júlio, que mandou tacar fogo em cerca de quarenta livros espirais com contos eróticos, escritos excepcionalmente a tinta por Mário Filho, hoje poderíamos ter acesso a mais um mosaico literário dos Rodrigues.

A estrutura jornalística, financeira e familiar onde Nelson nasceu foi quebrada a partir de uma tragédia que ocorreu quando ele tinha 17 anos. Uma mulher ofendida por uma notícia caluniosa, uma arma carregada e o desejo de vingança foram elementos decisivos para que o mundo dos Rodrigues tomasse rumos inesperados, desses que ficam ótimos mesmo em biografias. Com o destino catapultado para desastres e perdas constantes, Nelson milagrosamente viveu até os 68 anos. Tuberculoso, sempre obsessivo, temido, evitado, ignorado e aclamado pelos críticos, ofensivo e ofendido, foi um verdadeiro insano que brigava consigo e com muitos usando como arma seus textos ácidos.

A cada peça escrita, a romaria de Nelson se repetia. Busca por apoio, brigas, censuras, proibições, estréias, vaias, aplausos e não raro a paralisia geral da platéia diante do palco. Gente como Dercy Gonçalves e Jece Valadão não faltaram na vida e na biografia do escritor de saúde frágil e mente criativa. “Um chafariz vermelho esguichava através do paletó do pijama”; descrições do sofrimento físico de Nelson comovem pela idéia existente e pré-estabelecida do homem de mente pecadora. Um coitado rotulado, assexuado sedutor.

Para quem não tem a mínima idéia de como foi a vida, as dores e a estréia de cada peça de Nelson Rodrigues, O Anjo Pornográfico diz a que veio e não deixa a desejar a não ser pela ausência de depoimentos de Roberto Marinho, personalidade com grande participação em sua vida, mas que alegou que usaria as informações na sua própria biografia. Na obra de Ruy Castro e na vida de Nelson há de tudo um naco: assassinatos, traições, doenças, sucesso, desgraça, dinheiro e pobreza entrelaçam vontades, desejos e repulsas. Uma história verdadeira e assombrosa.