| MAIS UMA VEZ MORCEGO
Batman Begins e seu protagonista têm um objetivo em comum: descobrir o que constitui um verdadeiro herói
por
Marcel Nadale ( mnadale@rabisco.com.br )
(Talvez seja recomendável que, quem não viu o filme, não leia a crítica)
 omecemos pelo final: para um personagem que se apóia essencialmente em representações simbólicas, não há cena mais significativa em Batman Begins do que a destruição da Mansão Wayne e a proposta, do mordomo Alfred, de reconstruí-la com “alicerces mais reforçados” onde se localiza a famigerada bat-caverna. É uma síntese do que propõe o quinto episódio da cinessérie do homem-morcego – na verdade, como o surgimento do título apenas após a última cena sugere, trata-se de não mais que um prólogo de uma nova franquia, depois que a anterior foi sepultada com Batman & Robin em 1997. Batman, assim, (re)começa esmagado menos pela pressão das novas expectativas de um mercado que se reabriu para a febre dos quadrinhos do que pela necessidade de ignorar o grande elefante branco que Joel Schumacher (e Tim Burton, ora) enfiou na sala de estar de Bruce Wayne.
A salvação do filme é que nenhuma mídia se presta tanto à própria reformulação quanto as histórias em quadrinhos – porque seu público é quase tão restrito quanto seu panteão de ídolos, mas nem um nem outro é poupado pelo tempo. Assim, o diretor Christopher Nolan oferece mais uma das muitas máscaras que o personagem já vestiu desde sua criação por Bob Kane na década de 40. É um pouco sua, um pouco dele, um pouco de Frank Miller, um pouco de Jeph Loeb e, no fundo, nenhuma delas. O próprio roteiro admite esta chave: “Não é quem eu sou por dentro, mas o que eu faço, que me define”, diz Batman a seu novo interesse amoroso, a promotora Rachel Dawes.
Tanto faz, portanto, quem veste o uniforme (desta vez, o britânico Christian Bale). Para Batman Begins , quase tanto quanto a seu protagonista, o importante é investigar o que de fato constitui um herói. Traumatizado com a morte violenta de seus pais, Bruce Wayne parte pelo mundo em busca de uma solução para seu luto e sua sede de justiça. Encontra a resposta, progressivamente, no treinamento ministrado pelo líder oriental Ra's Al Ghul, no amor parental do mordomo Alfred, na parceria policial com o Sargento Gordon e nos brinquedinhos militares oferecidos pelo inventor Lucius Fox. O filme parece querer beneficiar-se da mesma solução, passo a passo: Nolan acredita, enfim, que a essência de um herói como Batman é seu universo – suas relações pessoais, suas relações com a cidade de Gotham e, sobretudo, as relações sociais de Gotham consigo mesma. E, no desejo de preservar ou justificar as idiossincrasias desse universo, Batman Begins acaba por arrastar-se em sua interminável primeira hora – um compilado bruscamente editado de informações, quando muito, já presentes no Batman dirigido por Tim Burton em 1989, ou quase sempre irrelevantes para quem, acertadamente, não leva a sério um blockbuster fantasioso de verão.
O gosto de café requentado se dissipa quando finalmente o Homem-Morcego estréia nas noites de Gotham. Os filmes anteriores, contudo, continuam a fazer sombra sobre a trama: esgotadas as opções mais carismáticas de vilões, Batman Begins apela para os desconhecidos Ra's Al Ghul e Espantalho. O primeiro apenas redireciona a origem de Batman a um desnecessário viés místico e ninja, sem muito empolgar, enquanto o segundo, numa roupagem simples e genial, rouba-lhe a cena. Espantalho, porém, tem um papel muito menor. Mesmo com a presença do mafioso Falcone, extraído da excelente minissérie O Longo Dia das Bruxas , falta a Batman um vilão à altura. Com sua interessante teoria da “escalada da violência”, o Sargento Gordon dá a entender que toda a aventura prometida pela primeira hora do filme só deve pintar com o Coringa em outro longa-metragem, e o espectador pode sentir-se, mais uma vez, na mão.
A falta de um antagonista consistente esvazia as cenas de ação, mas, se o que vale ao mito do herói são mesmo suas relações, Batman Begins consegue se equilibrar nos instantes dramáticos. Este crédito talvez pertença ao roteiro de David S. Goyer, que, dada a delicada situação da franquia, opera milagres ao alinhavar todos os personagens, detalhes, tempos e espaços de uma trama simultaneamente introdutória e cheia de antecedentes, no cinema, nas HQs e até na TV; ou ainda ao soberbo elenco de apoio, com gente como Liam Neeson, Morgan Freeman, Michael Caine e Gary Oldman, que confere ao filme pedigree nunca antes visto em qualquer adaptação de quadrinhos. O fato é que, inacreditavelmente, Batman Begins pode se gabar de não contar com sequer um único diálogo equivocado, deslocado ou forçado; Nolan achou o tom correto mesmo para o clichê heróico, nos discursos de Batman, e para o humor, nas sacadas de Alfred, Fox e até Bruce Wayne. É muito mais do que Schumacher jamais conseguiu e, por enquanto, é o que nos resta e nos conforta.
Por enquanto. As escolhas de Nolan são um investimento a longo prazo. É difícil acreditar que Batman Begins possa ter tanto impacto no espectador, na bilheteria, na crítica e no mercado quanto Homem-Aranha e X-Men , como a Warner Bros. gostaria. No entanto, não seria surpreendente se, no futuro, o Morcegão passasse a dar uma canseira nos rivais – dentro e fora das telas. Há bons fundamentos na Mansão que Alfred, Bruce Wayne e Christopher Nolan querem reerguer e, sobretudo, até agora, o diretor parece ter escolhido todos os inquilinos corretos.
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