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11 a 25 junho de 2005

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POODLE TOY
Cachorro Grande não assusta mais em novo CD e cede à mesma estratégia da Deckdisk que catapultou Pitty, Dead Fish e Ludov
por Julio Ibelli ( julio@rabisco.com.br )

Clique aqui para conferir a entrevista de Luis Rebisnki com o Cachorro Grande

o que acontece quando uma banda dispõe de tempo e uma gravadora investe dinheiro na gravação de um disco no Brasil. Se As Próximas Horas Serão Muito Boas (LC Editora, 2004, distribuído pela Outracoisa, a revista do Lobão) foi gravado de uma só vez em pouquíssimo tempo utilizando recursos analógicos, no recém-lançado Pista Livre , o selo carioca Deckdisck pasteuriza a temática sonora da banda gaúcha do momento, limpando as impurezas do Cachorro Grande e fazendo-os soar menos sujos, etílicos e farofeiros (características pertinentes em se tratando de rock ‘n' roll), ou seja, tirando um pouco da graça que o grupo tinha.

Talvez a única menção a álcool presente no novo CD esteja na música “Bom Brasileiro”, uma inesperada ode ao cidadão vinda de quem outrora disparava “metade do bar quer me bater / e a outra metade quer me dar”. Banda e gravadora (entenda-se Rafael Ramos, o já mega-produtor que age sob a tutela da Deck, ex-integrante do grupo Baba Cósmica) tiveram tanto tempo para pensar, produzir e decidir o que ia ficar de fora que Pista Livre pode parecer qualquer coisa, menos o bom e velho Cachorro Grande.

Um exemplo e uma dica. Após travar a batalha habitual contra aquele plástico que envolve a embalagem de um CD novo (os mais espertos que já tiverem seu abridor de CD podem pular essa parte), coloque o disco para tocar, avance logo na terceira faixa - de sugestivo nome “Desentoa” - e confira o Cachorro Grande soar como o Bloc Party, Kaiser Chiefs, Bravery ou qualquer outro Franz Ferdinand da vez na Inglaterra ou onde quer que seja. “Novo Super-Herói”, outra música do álbum, também vai nessa mesma viagem dançante.

Mas foi na água de outra banda do Reino Unido, na verdade a maior delas, em que o Cachorro Grande foi beber até cair. Faixas como “Interligado” (que, pasmem, traz Beto Bruno cantando – e não gritando - sobre um arranjo de cordas), “Sinceramente” (com pianinho à la Coldplay) e até “Eu Pensei”, são fruto da atmosfera beatlemaníaca em que o grupo esteve envolto durante a gravação de Pista Livre , como mostrou o making off que o programa Alto Falante (Rede Minas/TV Cultura) levou ao ar em maio, no mês de lançamento do CD.

Para completar, o disco foi masterizado em Londres no lendário estúdio Abbey Road pelo engenheiro de som Chris Blair, que além de Beatles tem no currículo o unânime Ok Computer do Radiohead, além de trabalhos com The Cure, Buzzcocks, Morrisey, Oasis e Supergrass. Se o Cachorro Grande surpreende ao soar não-convencional neste seu terceiro trabalho, a “culpa” é toda do quarteto de Liverpool, até mesmo em detalhes harmônicos de músicas típicas do grupo brasileiro.

O tempo de ter paciência com as mais inibidas, encher o saco delas e depois querer só as mulheres vividas também se foi, ficou na “Sexperienced” do primeiro CD, homônimo. O Cachorro Grande descobriu o amor e, pelo menos na vida profissional, parece ter deixado o machismo declarado e inconseqüente de lado, para alívio das feministas de plantão. Só para se ter uma idéia, em “Interligado” Beto canta: “eu sinto a mesma coisa que você / tudo que você vem dizendo eu já tinha sonhado / eu sinto que você é minha amiga / mesmo muito longe de ti pareço estar do seu lado”. Seria fofo se não estivéssemos tratando de Cachorro Grande. E não pára por aí. “Sinceramente” é de dar dor no queixo de tão doce, apesar da bonita harmonia. A imagem de românticos selvagens da banda que o Acústico MTV quis vender já se perdeu no tempo.

Apesar de tudo, não há razão para que os fãs mais antigos e adeptos do Cachorro Grande pré- Pista Livre fiquem maldizendo a banda, saiam queimando CDs em praça pública e acampem em protestos na frente de lojas de discos. O single “Você Não Sabe O Que Perdeu” é a prova disso. É também sinal dos tempos, porque agora o Cachorro Grande tem uma música de trabalho! Como é bem sabido por quem acompanha a cena independente, as bandas do underground que se prezem tem a necessidade de divulgar as músicas do seu disco como nenhuma major sabe fazer. Mas isso é passado para o Cachorro Grande pós-contrato assinado.

“Agora Eu Tô Bem Loco” tem Lobão perguntando “e agora?”, em mais um daqueles petardos dignos da fama de farristas que o Cachorro Grande conquistou (vide a frase proferida por Beto ao final da exibição do Acústico MTV Bandas Gaúchas : “Agora vamos todo mundo beber!”). Ainda que com suas particularidades, “Longa-metragem”, “Super Amigo”, “Situação Dramática” e “Velha Amiga” seguem a mesma cartilha.

Não é o melhor trabalho da banda. Fato. Melhor dizendo, traz gás novo a uma fórmula que poderia estar desgastada ao chegar no terceiro CD. Vai ficar a cargo dos desavisados que toparem com o Cachorro Grande na mídia a partir de agora conhecer a essência da banda em shows e nos trabalhos anteriores. Costurando as estradas em cima de suas motocas envenenadas, assim como estão na capa de Pista Livre , vai ser difícil para qualquer um parar o Cachorro Grande, que detêm até o ano que vem o título de Melhor Banda de Rock do Brasil, segundo o Prêmio Claro/Dynamite de Música Independente.