| LATINDO EM ABBEY ROAD
Pista Livre pode ser a afirmação definitiva do Cachorro Grande como um dos mais importantes grupos da cena alternativa brasileira
por
Luiz Rebinski Júnior ( jrrebinski@hotmail.com )
(Clique aqui para conferir a crítica de Pista Livre por Julio Ibelli)

lançamento do terceiro disco dos gaúchos do Cachorro Grande marca duplamente a trajetória da banda. Primeiro porque Pista Livre pode ser a afirmação definitiva da cachorrada no cenário rock'n'roll do país; segundo porque foi masterizado no mitológico Abbey Road, estúdio dos Beatles, um dos grupos reverenciados pelos músicos porto-alegrenses e, desta maneira, motivo de orgulho para os rapazes.
O álbum, segundo palavras do vocalista Beto Bruno, mostra um outro lado do incendiário quinteto, com influências de grupos de dance/rock, inéditas no som que faziam.
Com dois discos independentes e alguns hits no currículo, a rapaziada de terninho e visual retrô vai aos poucos conquistando espaço no território arenoso do rock brazuca. Depois de se firmar na pródiga cena porto-alegrense – que Beto Bruno faz questão de dizer que não é tão efervescente quanto se pensa –, o grupo tocou em diversos estados brasileiros e participou de inúmeros festivais de música independente, mostrando seus grudentos riffs a quem só conhecia os petardos “Sexperienced” e “Lunático”, faixas do primeiro álbum.
Após a estréia, a banda lançou o disco As Próximas Horas Serão Muito Boas , encartado na revista Outracoisa (criada pelo Lobão) e vendido em bancas de jornal. A parceria com Lobão rendeu bons frutos ao grupo, que teve a oportunidade mostrar o seu trabalho em âmbito nacional. Os gaúchos também participam, ainda este ano, do projeto Acústico Bandas Gaúchas , da MTV brasileira. Prova de fogo para uma banda que ficou conhecida pelas vigorosas performances ao vivo.
Reverenciados pelos amantes do estilo de tocar que consagrou os Stones – o rock'n'roll clássico –, o grupo, porém, não está isento de ácidas críticas. Ao optar por acordes que lembram e resgatam a sonoridade de bandas que a crítica se acostumou a chamar de sixties – The Who, Kinks, Small Faces –, o grupo se torna um prato cheio para críticos sedentos por “novidades”. O revival proposto pelo som do Cachorro Grande representa para muitos apenas a repetição do que já se fez no estilo, mera cópia. Argumento comum, diga-se de passagem, para descrever o trabalho de grupos que tentam, de alguma maneira, reformular os clássicos do rock. Em escala mundial, a norte-americana Black Crowes é o melhor exemplo de banda que apostou na sonoridade retrô e se saiu bem, lançando discos à altura do que de melhor se fez na década de 70. O grupo de Porto Alegre, por sua vez, parece não se importar com os conceitos que colocam em choque o retrô com as novas tendências – meros modismos para o vocalista. Fazendo o que gostam, reverenciando os cânones do rock, o Cachorro Grande segue na estrada do rock tentando grudar na cabeça dos fãs músicas com letras que falam de sacanagens, namoricos e brigas de bar, exatamente como seus ídolos do passado.
A seguir o vocalista Beto Bruno fala sobre o novo lançamento do grupo, os planos para o futuro e sobre o estigma de arruaceiros e encrenqueiros, imagem que, diga-se de passagem, a própria banda construiu ao longo da carreira, cheia de episódios que dão pana para manga.
– Vou começar como um show de vocês, metendo o pé na porta. Quando sai o disco novo, como se chama, e como é a história de gravar no Abbey Road?
Beto Bruno – O disco sai no começo de maio, o nome dele é Pista Livre . Foi masterizado em Abbey Road – algo sensacional para nós e até agora inacreditável.
– O segundo álbum de vocês é ainda mais "tosco" e cru do que o primeiro. O que as pessoas podem esperar neste terceiro lançamento? O colunista da Folha de S. Paulo Lúcio Ribeiro escreveu que o achou dançante. Está dançante?
Beto Bruno – Nós gostamos e ouvimos muito Dance/Rock de Manchester, e acabou rolando isso nesse disco de uma maneira interessante, porque mostra esse outro lado da banda.
 – Qual a diferença deste álbum para os anteriores?
Beto Bruno – A intenção é nunca ficar estacionado musicalmente, então é natural qualquer tipo de mudança a qualquer hora. Teve também uma grande diferença de produção, fomos mais cuidadosos e a qualidade sonora é infinitamente superior.
– A maioria das letras dos discos anteriores foi assinada pelo Marcelo Gross. Neste último há mais parcerias?
Beto Bruno – Esse disco está meio a meio, eu e o Gross. E tem uma parceria minha com o Gabriel.
- O disco As Próximas Horas Serão Muito Boas foi encartado e distribuído pela revista Outracoisa , criada pelo Lobão. Como rolou o contado com ele?
Beto Bruno – O Lobão assistiu alguns dos nossos shows e se interessou; é claro que nós também. Ter lançado o nosso disco pela revista dele foi muito importante para nós.
– Vocês têm bastante contato com bandas de Curitiba, como Relespública e Feichecleres. Há este tipo de interação com grupos de outros estados?
Beto Bruno – Isso rola muito, tem a Cascadura e a Pitty que são de Salvador, a MQN de Goiânia, os Astronautas que são de Recife, várias bandas de São Paulo e do Rio...
 – Ainda que a Cachorro Grande seja considerada uma banda nova no cenário rock do Brasil, vocês já têm bastante experiência, participaram de vários shows e festivais importantes. Dando uma olhada na agenda da banda, dá para ver que vocês já percorreram vários estados do país. Deste tempo de estrada, qual a sua opinião a respeito da atual cena rock'n'roll?
Beto Bruno – Acho que o problema é e sempre foi o de como divulgar e mostrar a cara para o grande público, que não pode escolher o que ouvir, pois já vem tudo enlatado para ser consumido goela abaixo. E a grande maioria já vem com data de validade.
– Fazer um som retrô, cheio de influências explícitas de bandas clássicas, ao mesmo tempo em que pode angariar vários fãs para o grupo, pode atiçar a ira de muitas pessoas (em geral os críticos de música), que vão dizer que o som não tem nada de novo e que é mera cópia e repetição do que já foi feito? Como vocês lidam com este tipo de crítica?
Beto Bruno – Só estamos nessa pra fazer um som que todos nós gostamos. E não vamos mudar a direção para novidades e modas passageiras para parecer contemporâneos. Afinal é apenas rock'n'roll e também somos contemporâneos.
– Além do rock sessentista, alguma banda mais contemporânea exerce influência sobre o Cachorro Grande?
Beto Bruno – Nós escutamos tudo, claro que temos nossas bandas preferidas e a maioria é sessentista. Curtimos muito Supergrass .
– No Curitiba Pop Festival rolou uma pancadaria quando um dos integrantes da banda jogou um instrumento na bateria, que era emprestada de outro músico. Este tipo de coisa acontece com freqüência ou é só parte do mito que envolve a banda?
Beto Bruno – Muito disso é mito, na maioria das vezes é acidental. É um estigma do qual queremos nos afastar e fazer com que mais pessoas prestem atenção na música.
– Em uma entrevista com uma banda do Rio Grande do Sul não tem como fugir da clássica pergunta sobre a quantas anda o fértil cenário rock de Porto Alegre. Há muitas bandas a serem descobertas?
Beto Bruno – Sempre tem, mas não tanto quanto costumam falar. Das bandas novas se destaca “Os Efervescentes”, que eu acho do caralho.
– Como é ser chamado de os "novos Cascavelletes"?
Beto Bruno – Eu sempre achei ridículo, não tenho nenhum disco deles, nunca fui num show deles e acho tudo uma merda. Pararam de dizer isso quando ouviram nossos discos.
 – Santo de casa não costuma fazer milagre. Como é a relação da banda com a rapaziada que consome música em Porto Alegre?
Beto Bruno – Conhecemos todo mundo e devemos nos mesmos bares. Apesar da diversidade musical todos se conhecem e trocam figurinhas. Só a turminha “indie” que é meio gay e fica de ladinho.
– Quais os planos do Cachorro Grande?
Beto Bruno – Pra esse ano é claro, lançar o disco e excursioná-lo, tem o Acústico MTV Bandas Gaúchas rolando meio que junto, então estamos confiantes que teremos bastante trabalho, alegria e rock'n'roll!
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