| DECEPÇÃO EM DOSE DUPLA
Radha Mitchell e Will Ferrell se esforçam mas não conseguem salvar Melinda e Melinda , o novo de Woody Allen
por
Rodrigo Nunes de Oliveira Cardoso ( ronoc@uol.com.br )
 hato, para dizer o mínimo, o novo filme de Woody Allen. Eu, que me considero fã de carteirinha do cineasta, bem que tentei, mas não fui capaz de disfarçar a decepção ao final de Melinda e Melinda . Arrastado, lento, com personagens pouco cativantes — à exceção talvez do Hobie, vivido por Will Ferrell —, o filme acrescenta muito pouco à cinematografia do diretor.
Anos e anos de apreciação de sua extensa obra — este é o 34º longa do diretor, escritor e ator Woody Allen — nos (mal) acostumaram a esperar de seus filmes aquele impagável humor autodepreciativo, verborrágico e neurótico. Para não falar das inesquecíveis aparições de Allen à frente das câmeras encarnando seu imortal loser , desajustado e paranóico até a medula. Melinda e Melinda , porém, não possui nada disso. Como dizem os locutores esportivos, o filme parece correr com o freio de mão puxado, indeciso sobre qual direção tomar.
Em volta da mesa de um restaurante, quatro amigos jogam conversa fora. Num determinado momento, um deles lança um desafio: a história que ele está para lhes contar (um episódio da vida de Melinda) seria material para uma comédia ou para um drama? Na mesa estão dois renomados escritores teatrais, cada um especializado em um destes gêneros. Começa então o duelo. Os narradores interpretam os dados apresentados a seu modo e vão explicando aos demais como comporiam sua versão da história.
A princípio, demonstra ser promissora a idéia de jogar com os pontos de vista antagônicos da comédia e da tragédia, desenvolvendo duas tramas que partem da mesma substância mas assumem rotas paralelas. A transposição da idéia para a tela, contudo, deixou bastante a desejar: a metade “dramática” simplesmente não funciona, envolta num artificialismo irritante; já a “cômica” quase decola, mas não tem o fôlego necessário — e sofre com os constantes cortes e intercalações.
Alguns elementos da grife Woody Allen recheiam o filme: uma Nova York sempre deslumbrante, cosmopolita em cada esquina, a sofisticação das conversas, dos ambientes e da música, relacionamentos corroídos pelo tédio do dia-a-dia, encontros e desencontros que desestabilizam a vida das personagens, além de, obviamente, muita autoanálise. Em Melinda , os personagens desfilam por bistrôs, consomem os mais requintados vinhos, discutem música erudita, vão ao jóquei apostar nas corridas de cavalos. Ainda que sofram, alguns, com o desemprego ou a inconstância dos “bicos”, habitam luxuosos lofts . Tudo isso para dizer que, uma vez mais, estamos em um ambiente caro a Allen — que, afinal de contas, nunca foi um cineasta dado a explorar contradições sociais; definitivamente, esta não é sua praia. Em seus filmes, o conflito sempre emana do relacionamento homem-mulher, e nunca (ou quase nunca) de uma sociedade fragmentada (que ele evita enquadrar), respingada de injustiça e exclusão. Se bem que ir por esse caminho talvez seja afastar-se do universo de Woody Allen (ao menos desse composto por suas mais recentes produções) e não fazer jus a seus objetivos enquanto contador de histórias.
Ponto central da(s) trama(s), Radha Mitchell faz bonito, compondo duas Melindas bastante distintas e convincentes, sem cair na caricatura fácil que a tarefa poderia sugerir. Os demais atores, no entanto, parecem padecer do mesmo mal que acomete o espectador do filme: sentem sono. Somando tudo, apesar de triste, deve-se dizer: as quase duas horas de Melinda e Melinda oferecem mais ou menos o mesmo que uma emocionante noite de um Supercine qualquer, ou seja, basicamente nada. Conselho meu: sobretudo se for fã de Woody Allen, não perca seu tempo. |