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11 a 25 junho de 2005

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O QUADRINHO, NU E CRU, NA TELONA
Embora diferentes, Sin City e Oldboy unem-se para levar ao cinema, com qualidade indubitável, um outro universo das HQs
por Guillermo Matias Gumucio ( guillermogumucio@yahoo.com )

relação entre cinema e quadrinhos é antiga, mas somente agora alcança o status de "relacionamento". Dois filmes – um já em cartaz por aqui, o outro com estréia prevista para breve – nos remetem magistralmente ao caminho que vai das folhas de papel recheadas de balões para a tela. Essa trilha é manjada e vem enchendo os bolsos dos grandes estúdios de Hollywood neste início de século com uma superprodução atrás da outra baseada em personagens da Marvel e da DC Comics. É claro que depois de encontrada a fórmula (principalmente a visual, neste caso) surgem produtos de qualidade duvidosa ou erros pecaminosos em película (o maior deles, um certo brutamontes verde com shorts roxo).

É uma sorte nem todos se conformarem com isso, mas é uma sorte ainda maior o cineasta Robert Rodriguez estar entre eles. Seu novo filme, Sin City , é, sem dúvida nenhuma, a mais fiel adaptação de uma história em quadrinhos para o cinema. "Fiel", neste caso, significa ter sobre as costas o peso de traduzir em quadros por segundo algo realizado por um ícone vivo dos quadros por páginas, o escritor e artista Frank Miller (eternizado no hall da fama das HQs com obras-primas como O Cavaleiro das Trevas , Ronin e sua passagem pela revista Demolidor ). Não é simplesmente seguir o esquema de cores do original, quase que inteiramente em preto e branco, com exceção de alguns itens, como um vestido vermelho ou uma personagem amarela, ou transpor enquadramentos dos desenhos para as filmagens. Trata-se de entender uma obra, absorvê-la e dizer a mesma coisa, só que com uma câmera na mão (e uma rapaziada com café correndo pelas veias trabalhando nos efeitos especiais computadorizados). Trata-se de saber quem é ideal para esta ou aquela personagem e ter o criador de todo aquele mundo ao seu lado, porque, com certeza, ele será útil. Robert Rodriguez fez tudo isso. E se deu bem, muito bem. Na verdade, ele já era a galinha dos ovos de ouro dos estúdios: gastava uma miséria e rendia cifras milionárias para os engravatados. Era o próprio espírito do "faça-você-mesmo" encarnado, com o apoio de atores/amigos/fãs como Antonio Banderas, Salma Hayek e Johnny Depp.

Sin City leva a cabo, de uma vez só, três histórias que foram retratadas em separado nas revistas de Miller: a do título homônimo, “O Assassino Amarelo” e “A Grande Matança”. Compilar essas tramas foi uma atitude bem pensada e que faz com que o filme possa oferecer um panorama maior do cenário para os que desconhecem o trabalho dos quadrinhos. Nessa cidade, todos são pecadores, seja usando um distintivo ou vestindo couro. Temos Hartigan (Bruce Willis), um policial que cuja última tarefa antes da aposentadoria é acabar com a raça de um molestador de crianças; Marv (Mickey Rourke), com sede de sangue para vingar o assassinato de sua belíssima e amada Goldie (Jaime King); e Dwight (Clive Owen), na defesa de um bando de garotas de programa, as “Damas da Noite”, contra a máfia que quer tomar o controle sobre as atividades mais lucrativas da cidade. Todos os relatos transpiram ódio, assim como algum tipo de afeto, e é no vácuo entre essa dicotomia que os pecados acontecem.

O amadurecimento de Robert Rodriguez é nítido. Sin City entrou para a galeria desses raros momentos onde a tecnologia (e, conseqüentemente, as altas quantias em dinheiro) colabora, inova e enriquece surpreendentemente um filme adulto e deveras inteligente, da qual fazem parte Clube da Luta ou Inteligência Artificial , só para citar os mais óbvios. Algo também incrível a respeito de Sin City é ver como salvou a pele de alguns atores envolvidos, todos com atuações ótimas (mesmo que não tenham necessariamente interagido um com o outro em um set de filmagem): Elijah Wood talvez – só o tempo dirá – não precisará ser eternamente reconhecido como o hobbit daquele outro filme épico, bem diferente do que parece que acontecerá com Viggo Mortensen e Orlando Bloom; Bruce Willis finalmente enfiou a cara em algo realmente decente; e o ponto central Marv é interpretado de forma impressionante por Mickey Rourke, que vai poder parar de ver seus filmes indo diretamente para a locadora. Quanto à escalação de Clive Owen, Rodruiguez acertou na mosca. Afinal, após sua soberba interpretação em um dos filmes mais interessantes de 2000 (o também noir Croupiê – A Vida em Jogo , de Mike Hodges), teria de haver espaço na Cidade do Pecado para ele.

O cineasta tem motivos de sobra para estar feliz. Saber que, no fim das contas, admiradores tão chatos quanto um fã do Kiss aprovaram e gostaram de sua adaptação deve ser recompensador. Talvez seu maior desejo hoje em dia seja topar com George Lucas em algum happy-hour e, com uma risada marota e um tapinha no ombro, dizer "efeitos especiais todos nós temos, mas e a criatividade, Georgie boy?".

Já Chan Wook Park é o responsável por não somente nos dar um filme com o ritmo das HQs adultas, o alucinante Oldboy , mas também por trazer à contemporaneidade os temas mais antigos da cultura oriental, como o relacionamento pai-filho e a honra perante o inimigo. O gráfico é um todo significante neste filme coreano baseado no mangá japonês homônimo. Flashbacks, ilusões, pensamentos, congelamentos, composições. Está tudo lá, genialmente construído e arquitetado. Não se trata da apostila visual do curso de cinema colocada exarcebadamente em prática, como em Réquiem para um Sonho , mas algo que influi na dinâmica e mantém o espectador atento, correndo paralelamente ao desenvolvimento dos acontecimentos. A cena em que a personagem principal Oh Dae-su enfrenta com um martelo os envolvidos em sua prisão e seqüestro – em uma tomada sem cortes de uma única câmera, que se movimenta apenas lateralmente – remete quase que de imediato à tela de qualquer jogo de video-game calcado em Streets of Rage , Double Dragon , Final Fight ou outro dinossauro do gênero. Nada mais apropriado para quem se tornou praticamente um animal em busca de vingança. Outra cena, com Oh Dae-su se tornando parte de um enorme quadro representando uma onda gigantesca e devastadora, é pura poesia oriental, melancólica e internamente apocalíptica, incluída em um momento que não poderia ser mais perfeito. O enquadramento apenas da boca do inimigo dando sua malévola e vencedora risada deve estar em todos os mangás já feitos.

A violência em Oldboy é latente, mas não injustificada; não configuraria "ultraviolência", segundo Burgess, e é oposto da paródia sobre a violência (gratuita) de O Troco, de Brian Helgeland. Oh Dae-su não quer nada de volta, vai somente em busca do motivo pelo qual sofreu quinze anos de tortura solitária. É seu karma, pois, enfim, descobre que seria melhor não saber o que havia feito para gerar tamanha represália. (Se o leitor sentiu falta de uma descrição do filme, confira o texto bem cuidado de Paulo Gustavo Freire que o Rabisco já publicou).

Com o êxito nas bilheterias mundiais de Sin City e Oldboy , todo um outro universo perpetrado pelos quadrinhos chega ao grande público com cada vez mais facilidade. OK, é bacana ver um jovem com poderes aracnídeos se desdobrar entre responsabilidades e mudanças e ainda por cima salvar a mocinha, mas a sensação de sentir as cinzas do charuto do matador de aluguel observando a stripper que está no lugar errado pode também ser muito interessante e envolvente. Coincidência ou não, Wook Park seguiu sabiamente os ensinamentos de Frank Miller, que uma vez afirmou: "é muito fácil vender quadrinhos nos EUA. Tudo que você tem a fazer é incluir sexo e violência". Sim, Hollywood sabe disso, mas um dos fatores que tanto enobrece as produções de Quentin Tarantino (também envolvido em Sin City , como diretor de uma única cena) é o reduzido número de pessoas que sabem fazer isso com inteligência e justificativa.