| POESIA CACOFÔNICA
O insólito e a apatia permeiam O Pântano , de Lucrecia Martel
por
Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )
adeiras sendo arrastadas, uma tempestade que se aproxima, copos que se quebram, latidos de cachorros, pessoas deitadas em torno de uma piscina suja imersos em um estado de total embriaguez e apatia. Tudo isso e mais um pouco fazem parte do primeiro filme da diretora argentina Lucrecia Martel, O Pântano (La Ciénaga,2001) , uma poética de imagens cruéis e irônicas que incomodam e causam estranheza.
Duas famílias se encontram em uma pequena província Argentina, em meio a um turbilhão de interesses, contradições e desejos. O filme começa com a proprietária do sítio que, bêbada, tropeça em uma cadeira e machuca-se toda. Lentamente somos apresentados a estas duas famílias: a que está passando as férias no sítio e a outra que vai lá visitá-los. São pessoas que cada vez mais se afundam em uma vida enfadonha e cotidiana, como se o pântano do título, representado pela piscina fétida e suja que nunca é usada, estivesse sempre ali esperando por cada um deles.
Entre histórias insólitas, como a de um garoto que possui uma má formação dental e é perseguido por latidos, a de outro com o rosto deformado e a de uma relação incestuoso que nunca se concretiza, Lucrecia Martel nunca é simplista. Visto por toda a crítica como uma metáfora da própria situação do povo argentino há alguns poucos anos, pegos de surpresa em uma situação inesperada, o filme vai muito além disso. O Pântano fala da letargia humana, do caos que controla a vida, parada, letárgica, precisando de socorro. Todos estão tão imersos em tal estado de desânimo que não mais conseguem responder aos estímulos que os cercam.
A desesperança toma conta do sítio. A mata em torno da casa parece que vai invadi-la a qualquer momento. O clima fica cada vez mais abafado. As relações tornam-se insuportáveis. E com isso Lucrecia Martel constrói uma obra ímpar, onde os sons que se ouve na tela parecem que vão explodir ao nosso redor, o caos e o calor tornam-se palpáveis em um ambiente de claustrofobia aguda e visceral.  |