| A INGENUIDADE DE VERA DRAKE
Direção competente de Mike Leigh e atuação comovente de Imelda Staunton dão outra conotação ao aborto
por
Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )
 ifícil assistir a um filme hoje em dia que trate de um assunto polêmico e que não caia na armadilha de seguir a direção mais fácil, ou seja, se posicionar diante de um tema controverso. Não que isso seja errado, mas são poucos os diretores que têm talento para tomar partido e não parecer panfletários. Em O Segredo de Vera Drake , Mike Leigh optou justamente pelo outro caminho, abordar a temática do aborto sem fazer julgamentos. Como resultado da empreitada, vários prêmios na bagagem, incluindo indicações ao Oscar nas categorias de melhor direção, atriz e roteiro original.
Em O Segredo de Vera Drake , Mike Leigh leva o espectador para a Inglaterra pós-guerra, mais precisamente para dentro da família de Vera Drake, uma mulher de coração grande, amada pelo marido e pelos filhos, e que está sempre preocupada com o próximo. Essa preocupação a leva a ajudar jovens garotas a se livrar de um problema que era tabu na época: a gravidez indesejada. Vera não cobra nada pela “ajuda” e vê tudo com tanta naturalidade que nem se dá conta de informar aos parentes que, entre uma faxina e outra, ela é responsável por tirar um peso das costas dessas garotas.
Com seu habitual talento para a radiografia de situações do cotidiano, Mike Leigh utiliza a premissa polêmica para compor um verdadeiro painel da hipocrisia que domina a sociedade inglesa. Mais do que livrar essas garotas de prováveis retaliações da família, na mente ingênua de Vera Drake, ela as está salvando da própria discriminação da sociedade. O diretor deixa isso claro na medida em que retrata os ambientes mais afortunados repletos de luz, mas envoltos em relações frias, enquanto a família de Vera é mostrada sempre em ambientes escuros e úmidos, mas cheios de carinho. Apesar de não condenar Vera, o diretor não deixa de tratá-la como uma criminosa e o fato de a personagem não ter a tão sonhada redenção tipicamente hollywoodiana ao final do longa só torna o filme ainda mais verdadeiro.
Embora disponha de todos os elementos necessários para fazer um melodrama, Leigh faz as escolhas certas e deixa a própria história comover o espectador, sem que para isso tenha que recorrer a recursos “desleais”. A música está no lugar certo, a direção de arte e fotografia são precisas, mas não sobrepujam a trama. O diretor também opta por dar voz a todas as personagens, criando uma série de histórias paralelas que lembram a narrativa de uma telenovela. Isso acaba dando mais força à produção, já que o público passa a ver essas personagens como pessoas reais e não como meros acessórios para o desencadeamento das ações. Algumas dessas opções podem até desagradar uma parcela da audiência, afinal tornam o filme mais lento e adiam ao máximo a descoberta do “segredo” de Vera.
Outro grande trunfo é o elenco. O fato de grande parte dos atores serem desconhecidos do público deixa tudo mais crível e a produção ganha, assim, uma cara de documentário. O modo sem rodeios de narrar de Mike Leigh deixa essa impressão ainda mais forte. Mas, por mais óbvio que isso seja, O Segredo de Vera Drake merece grande parte de seu mérito em virtude da interpretação comovente de Imelda Staunton (indicada ao Oscar, Globo de Ouro e vários outros prêmios), que compõe uma Vera Drake doce, inocente e que só passa a ter noção de que está cometendo uma infração quando é presa. Ingenuidade que arruína sua vida e ajuda o aborto, um ato para muitos moralmente questionável, ganhar uma outra conotação. |