| NAS ENTRELINHAS DA CANÇÃO
Com muito talento, casal utiliza-se da música para refletir sobre a realidade em que vive
por Paullo Phirmo ( pphirmo@hotmail.com )
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| Foto: Marcos Vilas Boas |
uem ouve o cantor e compositor paulista Marcelo Quintanilha, o Quinta, e a cantora baiana Vania Abreu exercerem o seu dom percebe facilmente todo o cuidado com a escolha do repertório, a acuidade com a qual falam de amor, a interpretação vigorosa e uma postura extremamente atraente no palco. Tudo isso, harmonicamente associado à companhia de músicos ecléticos e talentosos. O que talvez não se perceba de imediato é que, sob uma poesia estética, cuidadosamente estruturada, e uma instrumentação consistente, as letras das músicas também transmitem, de forma construtiva, idéias de cunho existencial. Há, de maneira implícita ou explicita, propostas de reflexão sobre questões que vão desde ações cotidianas até filosóficas. Dessa maneira, Marcelo e Vania apontam caminhos de mudança, e o fazem de forma natural, sem compromisso assumido e, por isso mesmo, de forma bonita e agradável.
A arte, de uma forma geral, pode exercer uma função social muito importante, cabendo ao artista direcioná-la de forma construtiva. Unidos pelo amor e pela música – eles se casaram e, algum tempo depois, abriram a Casada Canção Produções Artísticas, que gerencia suas carreiras e projetos – o casal parece saber muito bem a respeito do potencial comunicativo da música e desse modo a utilizam de forma bastante inteligente. Pela análise das letras, pela postura e declarações de ambos, nota-se que o compor/cantar músicas é espontaneamente retratar anseios, indignações, sentimentos, desejos e opiniões sobre o mundo que os envolve, afinal, a música é sua forma de estar no mundo, como diria o filósofo alemão Martin Heidegger.
Neste contexto, realizando um passeio pelos seus CDs, vemos que Quinta, em composições inéditas e em preciosas regravações, aborda o desrespeito para com o meio ambiente natural e tece considerações sobre o consumismo desenfreado da sociedade moderna na bem-humorada “O Último dos Jacarés”. Na reflexiva “Metamorfosicamente”, questiona sobre os que param no tempo, não se adaptam às mudanças da vida e assim não evoluem enquanto seres humanos. Fala, portanto, da sabedoria e da ignorância na lida com a vida, com a morte e com a crença – “ religare ” – que perece ter desaparecido nas grandes cidades, como narra em “A missa”. Já em “Tribos Urbanas”, Quinta apresenta uma crítica construtiva sobre a necessidade de auto-afirmação dos diversos guetos presentes nas grandes cidades. Fazendo uso das palavras de Gilberto Gil, aborda com maestria o ancestral (e atual) preconceito racial do brasileiro em “A mão da Limpeza” (todas do CD Metamorfosicamente , de 1995) e aborda discussão similar, quando fala do descaso e do preconceito para com o marginalizado social em “O Morto” ( Quinta , 1998). Neste trabalho, ainda divaga docemente e de maneira otimista sobre a vida em outros planetas na sonhadora “Anos-Luz”.
Na tranqüila “Sala de Estar” ( Sala de Estar , 2003), Quinta aponta para o momento de estar só, um descompromisso salutar ou, segundo o sociólogo italiano Domenico de Masi, o ócio criativo, algo tão necessário em meio a tantas pressões do mundo globalizado. Um mundo que, por tanto exigir, pouco tempo nos dá para realizar as coisas que desejamos. A busca por estas realizações é no que toca “Depois de Amanhã”, também de 2003.
Na mesma trilha, Vania, já em seu primeiro CD de estréia da carreira solo, Vania Abreu (1995) – ela começou a cantar profissionalmente como backing vocal e em seguida fez parte da Banda Biss – através da composição de Rogério Meanda e Paula Amora Toller em “Procure a Sua Estrela”, reflete profundamente a respeito da necessidade de procurarmos um caminho, de sonharmos e de realizarmos os nossos objetivos. Complementa essa idéia com “Meu Sonho”, de Rogério Meanda.
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| Foto: Cris Braga |
Temática semelhante aflora na enfática “Meu Pai, Minha Mãe”, do seu segundo CD solo ( Pra Mim , 1997), onde, por meio de Zeca Baleiro, Vania musicalmente arquiteta considerações em relação à necessidade de deixarmos de atender à realização dos sonhos dos pais, da família, da sociedade e perseguirmos os nossos próprios objetivos. Na mesma obra, ela empresta sua aflorada sensibilidade e ressalta que “Ser Igual É Legal” (Carlos Careqa e Adriano Sátiro), onde parece apontar, com a sabedoria da experiência, que não precisamos insistir na busca desmedida de sermos diferentes, de sobressairmos perante os demais.
Em Seio da Bahia (1999), com “A Manga Rosa” de Ednardo, Vania, maternalmente, relembra-nos da porta de criação do mundo, sob o instrumentário humano: o parto. E nos solicita o cuidado e a valorização deste tenaz e lindo ser: a mulher. Mulher que também é a própria Vania, ao “declamar” sua trajetória e a história de milhares de cidadãos do mundo que, aventurando-se pela vida, perseguindo seus sonhos, percebem-se “Na Volta que o Mundo Dá” (Vicente Barrêto e Paulo César Pinheiro). Já nas canções “Eu Sou a Multidão” e “De Volta ao Cais”, ambas compostas por Marcelo Quintanilha ( Eu sou a Multidão , 2004), Vania examina quem somos nós, cidadãos humanos, que olhamos e tratamos uns aos outros na correria devoradora das grandes cidades. Reflete sobre a solidão em meio à “vazia” multidão e, em outra canção (“A Minha Alma, a Paz que Eu Não Quero”), desmascara, com o verbo de O Rappa, a paz equivocada e efêmera que procuramos ao fechar os olhos para a realidade. No mesmo trabalho, sem preconceitos, fala-nos da fé e da determinação para vivermos em “Imaculada Oração”, de Péri, e em “Meu Querido Santo Antônio”, de Carlos Careqa.
Assim, se somos o que comemos, como afirmou o filósofo alemão Ludwig Feuerbach, com a sua licença, creio que também somos o que cantamos e compomos. Marcelo e Vania são cidadãos comprometidos com a realidade em que vivem. E esta postura naturalmente se mostra em seus trabalhos artísticos. Ambos seguem sem levantar qualquer bandeira, mas apenas vivendo e trabalhando equilibradamente, discutindo e propondo caminhos de mudança. Confira o trabalho deles. |