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25 junho a 9 de julho de 2005

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QUEM TEM MEDO DE FRITZ LANG?
Quem foi Fritz Lang, o diretor alemão que começou a carreira no expressionismo e terminou como um eterno imigrante no esplendor de Hollywood
por Fernando Américo ( feramerico@yahoo.com.br )

uem foi Fritz Lang? O cineasta que fugiu do nazismo? Ou o nazista que só observava a vida com um olho? Ao final de sua vida, Fritz Lang tinha a imagem de um pirata, com seu tapa-olho inconfundível – por incrível que possa parecer, uma imagem comum também a John Ford, o rei dos westerns. Sua condição física o tornava especialmente apto para o cinema. Lang enxergava a vida como uma câmera cinematográfica, com um só olho. Câmeras, máquinas de ilusão supra-real, são aparelhos curiosos: captam, congelam num instante algo impossível de ver a olho nu. E talvez por enxergar como uma câmera, o diretor tenha detectado sem querer um aspecto primordial da época em que vivia: o medo alemão do período entre-guerras. As obsessões de Lang são as obsessões de um alemão que sobreviveu. Ficaram as cicatrizes, mas ele conseguiu fugir ao destino último de seus personagens: a Morte.

Nem sempre Fritz Lang foi um exilado. Seus trabalhos do cinema mudo estão entre os filmes mais lembrados do período ( Metropolis e Mabuse, por exemplo). Na Alemanha, Lang disputava com Murnau o posto de principal cineasta do novo movimento chamado expressionismo. Ao contrário de Murnau, que sempre procurava a inocência, Lang tinha obsessão pelos culpados, pelos desvalidos, pelos perdidos no meio de uma multidão. Em seus trabalhos do cinema mudo, o cineasta antecipava os horrores do nazismo. Principalmente a tendência ao extermínio, ao julgamento sumário dos homens, ao linchamento. Para Fritz Lang, o homem da rua, aquele que integra as multidões, é manipulável, moldável como parte de uma engrenagem. Uma vez “programados”, podem ser controlados como um só corpo. A estética nazista, que nos filmes de Leni Riefenstahl ( Olympia e Triunfo da Vontade) chega ao ponto de transcender o tempo (a cultura do corpo do Ocidente, o estilo do jornalismo esportivo, tudo isso vem da cineasta oficial do nazismo), mostra suas arestas em Lang. Casado com uma simpatizante do nazismo (Thea von Harbou, que escreveu vários de seus sucessos do período mudo, inclusive Metropolis ) Lang exibiu o inconsciente coletivo de uma época: a República de Weimar. Um teórico que sustenta isto é Sigfried Krakauer. Em De Caligari a Hitler , ele equipara o cinema expressionista a um espelho que mostra a alma alemã pós-Primeira Guerra Mundial. Os crimes de Nosferatu e M, o Vampiro de Dusseldorf, seriam um prenúncio do horror que viria depois.

Mas a verdade (ou pelo menos a versão mais difundida) é que Lang foi convidado para ser o “cineasta do regime” e fugiu para Paris. De lá, para Hollywood, onde já estavam vários expatriados, desde os anos 30 (Marlene Dietrich, Billy Wilder, Otto Premminger, Erich Von Strohein, Greta Garbo e Ingrid Bergman entre eles). O maior exemplo de colaboração dos expatriados desta época é Casablanca. O fascínio do filme de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não teria se mantido sem os personagens inesquecíveis de Claude Rains, Conrad Veidt, Peter Lorre, entre outros. Enriquecem a trama e fazem de Casablanca o primeiro esforço de guerra que entrou para o inconsciente coletivo.

Fritz Lang nunca conseguiu mostrar a bela face do nazismo. Nunca tentou se transformar num símbolo como Marlene Dietrich, que se tornou a musa dos soldados americanos. O diretor ainda via o ser humano com a mesma falta de complacência que caracterizava seus trabalhos expressionistas. O que sobressai em todos os trabalhos de Lang é a vingança ( Os Corruptos ), o fatalismo ( A Morte Cansada) e o excesso de ordem ( em M, o Vampiro de Dusseldorf, até os mendigos têm uma associação onde batem ponto e tramam a vigilância do assassino de crianças vivido por Peter Lorre). A obra-prima da ordenação do mundo é Dr Mabuse. Como Caligari antes dele, ele quer dominar o mundo e usa a hipnose para induzir as pessoas a fazerem o que ele quer. Qualquer semelhança com Hitler não é mera coincidência.

Lang em Hollywood virou uma lenda viva; todos o respeitavam, mas seus ataques de estrela tinham afastado muitos grandes atores. Spencer Tracy, astro de seu primeiro filme americano, Fúria, não aceitava calado os chiliques de Lang. Ao saber um dia pela boca do diretor que o almoço seria servido mais tarde, para que terminassem a cena do linchamento, Tracy desfez a maquiagem e saiu do estúdio, gritando: “Almoço!”.

Os filmes de Fritz Lang nunca ganharam Oscars, e no entanto ele continuava trabalhando furiosamente, até os anos 60, quando se transformou num dos ídolos da Nouvelle Vague Francesa. Lang até participou de filmes como ator ( O Desprezo, de Godard). Mas na década de 40 e 50 Lang era como um fantasma de um tempo que todos queriam esquecer. Até seu rosto (a face de um sobrevivente) se tornou uma versão real para as “medusas” de sua obra. Rostos desfigurados e faces que lembram a morte são uma obsessão constante. O maior exemplo é Gloria Grahame em os Corruptos, desfigurada pela mais letal arma que um diretor de Hollywood poderia usar – Lee Marvin. Ele joga café quente em seu rosto, e a partir daí, ela vaga pelo filme como um fantasma, um espectro, um anjo da Morte. A personagem é a encarnação dramática de maior dilema da obra de Lang: a divisão matemática e febril do mundo, da mente, das histórias, da vida, do Homem. Para Fritz Lang, este ser maravilhoso capaz de feitos indescritíveis, é também um verme.

A divisão atinge a escala social em Lang. Metropolis é um exemplo de uma civilização dividida entre a tecnologia galopante e asséptica (a cidade com o visual que influenciou toda a ficção científica posterior) e o submundo, onde os operários trabalhavam sem ver a luz do sol. Estes mundos se chocam através de uma andróide que toma o lugar de uma mulher do povo (Brigitte Helm, outra das medusas de Fritz Lang). Em Espiões, Aranhas, no ciclo Mabuse, e também em M, o mundo se divide entre mercenários e inocentes, entre controladores e controlados. A rede de marginais de M , perseguida pelos aparatos policiais por causa do assassino de crianças, decide encontrar o assassino por conta própria, e chega a ele antes da Polícia. O julgamento e posterior linchamento é impedido porque todos são presos. Era a única maneira de terminar M, pelo menos na Alemanha, em 1930. Um dos primeiros filmes sonoros alemães não poderia mostrar o linchamento de um homem.

Mas o tema da multidão descontrolada continuou intrigando Fritz Lang. Em Fúria, Spencer Tracy é um homem atacado por uma multidão que é dado como morto. Só que ele está vivo e engendra sua vingança sobre os que queriam matá-lo. Para Lang e para o expressionismo alemão, a multidão é a morada do caos. Quando este caos pode ser ordenado, a multidão age como um corpo vivo. O linchamento é o movimento de massa segundo o nazismo. Fora da harmonia dos corpos nas paradas militares, nos balés, no esporte, a multidão é perigosa. Este medo do homem sem nome, que enche as ruas e pode se transformar numa arma, já aparecia em vários filmes alemães. Até mesmo A Caixa de Pandora, o poema de amor oferecido a Louise Brooks por W.G. Pabst, possui uma cena de multidão que arrasta a heroína contra a sua vontade. Esta espécie de “Síndrome do Pânico” coletiva se impõe na Alemanha como uma reação à experiência democrática da República de Weimar. Contra o caos da democracia, a Alemanha parecia preferir a segurança de uma mão forte. Um tema recorrente dos filmes mudos alemães é a do Homem que sai da segurança da Casa para o caos da Rua. Fora do lar, ele é vilipendiado, ofendido, humilhado e atacado. Mas ao final, volta para o lar e para o aconchego de sua vida familiar. A Casa é o útero onde o alemão se sente seguro. Hitler, segundo sua secretária ( Eu fui a Secretária de Hitler) era como um “pai” que chamou para si as responsabilidades sobre tudo o que estavam fazendo (as mortes, os campos de concentração, o extermínio). Os soldados, o povo alemão, todos entregaram suas vidas a alguém que simplesmente fez o que era preciso. Por todos os meios possíveis.

A engrenagem dramática que move os personagens de Lang é inexorável, assim como foi inexorável a ascensão do nazismo na Alemanha. Mais que temido, ele era desejado, um projeto social perfeitamente arquitetado para vigorar num determinado país, em uma determinada época. Os alemães, um povo órfão da Primeira Grande Guerra, encontram um pai que se propõe a cuidar deles e levá-los à Glória. Lang é o filho bastardo desta geração. Não recebeu a marca do nazismo, como Leni Riefehnstal, mas carregou consigo sua maldição, seu maior fardo: ser um exilado do mundo, um forasteiro que trouxe para a ensolarada Hollywood as sombras de sua terra natal.