| MELODIA DE ARRABAL
Ninguém personificou tanto o tango quanto Carlos Gardel
por
Marcelo Xavier (
marcelo@rabisco.com.br )
 m homem sobe ao palco do Teatro Empire, Buenos Aires, no dia 17 de outubro de 1917. Alça a fronte, dá o sinal ao maestro e começa a interpretar um tema de Pascual Contursi, “Mi Noche Triste”. Naquele momento histórico, aquele jovem imigrante quebraria o limite de classes e apresentava para o high life portenho aquela que era conhecida como música de cabaré, o tango. Com o tempo, essa mesma música se tornaria conhecida em todo o mundo, chegaria às telas de Hollywood e, de quebra, se transfiguraria numa pátria para todos os párias e marginais, que ganhariam uma identidade nova. O nome daquele jovem cantor: Carlos Gardel, desaparecido há exatos setenta anos, em Medellín, no fatídico 24 de junho de 1935. O avião onde estava o cantor, que deixava a capital colombiana rumo a Cali, se chocou com outro aparelho que, mal orientado pela torre do aeroporto de Techo, pousava na mesma pista em que o aeroplano Gardel decolava. Ao todo, apenas cinco sobreviveram. Porém, muitos dizem que ele ainda viveu por muitos anos; escondido em algum canto de Medelín. Relatos diziam que seu rosto estava deformado, mas conservava ainda a velha pátina de sua “voz de prata”.
O Mito das Américas
Carlito. Gardelito, Francesito, El Zorzal Criollo , El Morocho , El Troesma, Zorzal , Patrón de Buenos Aires , El Bronce que Son r íe , Morocho del Abasto . Muitos são os seus cognomes para tentar definir o mito que se criou naquele que se tornou o “Cantor das Américas”. Como observou o poeta e jornalista José Lino Grünewald, nunca houve caso igual a Carlos Gardel. Richard Tauber, Bing Crosby, Maurice Chevalier, Orlando Silva, Francisco Alves, José Mojica. O mito de Carlitos é capaz de uma devoção quase mística. Há quem diga que já viu imagens de Gardel com auréola de santo. Aliás, não há lugar em Buenos Aires que não apresenta uma imagem dele. Quando seus incontáveis fãs dizem que ele canta cada vez melhor, o chiste vai pelo que existe de mais transcendente. A voz de Gardel é maior e mais expressiva do que os parcos recursos da época puderam reproduzir nos velhos e puídos 78 rotações. Mesmo com toda a tecnologia digital de hoje, ninguém poderia cantar cada vez melhor que Gardelito em “Melodia de Arrabal” ou “Mano a Mano”.
Lenda. Além do Gardel cantor e ator, é o homem entronizado na eterna imagem de smoking sempre sorrindo, ou vestido de gaucho , o homem que personificou tantos anônimos, que foi ele e foi todos: o cáften , o imigrante, o descamisado, o gambeteador, o quatrero , o pária, o descornado, edipiano, o homem que chora, o homem que ri, o nostálgico de sua cidade natal, o farrista da “barra querida”, todos se enquadram em seu protótipo romântico e trágico.
A noite do 14 de outubro foi o começo do seu ministério laico. O tango viraria tango-canção adentrando o Empire de fraque e cartola. Sobre aquela noite de consagração, Carlito diria, anos mais tarde: “Vi a letra de ‘Mi Noche Triste', achei que ia bem com uma música lenta e triste de tango. Havia tanta emoção naqueles versos! Um rapaz da orquestra fez a música (originalmente, a música era “Lita”, de Samuel Castriota, que pôs os versos de Contursi na melodia original). E assim começou a embriaguez do tango...”.
Do Abasto para a glória
O começo foi difícil. Cantava em cabarés e em haras de caudilhos da época. Circulava em bolichos, cafés, e reuniões de payadores , trabalhou de guarda-costas. Sua fama se alastrou na zona, mesmo. Era um cantor de bas-fond , criado na barra pesada do Mercado do Abasto (daí o apelido). Naquele tempo, Buenos Aires contava cerca de mais de um milhão de habitantes. Em 1911, Gardel conheceu José Razzano. No ano seguinte, ele fechava contrato exclusivo com a Columbia por cinco anos. O melhor de sua carreira no disco, porém, seria pela antiga Odeon. A dupla com Razzano resistiu até 1927, quando o Morocho seguiu carreira solo. Como o jazz, o tango de Gardel nasceu com o cinema. Foi através da tecnologia da sétima arte que o cantor conquistaria o mundo, e receberia convites para tocar na Europa, em primeiro lugar, e depois a América do Norte. José Grünewald, em Gardel, Lunfardo e Tango , defendia que a chegada do autor de “El Dia en que Me Quieras” à França correspondeu à coroação definitiva de seu prestígio internacional. “O prestígio não era apenas da música, mas também do cantor”, disse o ensaísta.
Sua fama se espalhava pelo mundo à medida em que ele ganhava as telas. Primeiro, foi Luzes de Buenos Aires , pela Paramount. Foi nesse momento que Zorzal conheceu aquele que seria o seu grande parceiro musical: o paulistano Alfredo Le Pera. Também roteirista, Le Pera passou a trabalhar em dupla com o cantor a partir de Melodia de Arrabal . Em 1934, recebeu convite para cantar na nova-iorquina NBC. Aqui começa a derradeira fase da carreira de Gardel, com o contrato para gravar pela RCA Victor e as mega-produções Amores de Estudiante e Cuesta Abajo . Pela NBC, o público argentino pôde então, sequioso por novidades, acompanhar a voz do Morocho del Abasto “viajando pelo éter” (como se dizia na época), que trocava o bas-fond portenho pelo Aldorf Astoria. Na transmissão, ele cantou sucessos dos seus filmes.
Passados cinqüenta anos, a música e a voz de Gardel ecoam em todos os lugares: teatros, rádio, cafés, tevê, cinema. De acordo com seus biógrafos, existem, ao todo, 861 gravações do cantor, de 1912 até 1935. Além do tango, ele fez registros de outros ritmos, que faziam sucesso na época, inclusive música “gaucha” (sem acento), milongas, a toada e a vidalita . Mas ele era um cantor de tango. Talvez a sua contribuição para este gênero tenha sido mais do que seminal. Além de entronizar o tango, ele ultrapassou as restrições do estilo, dando mais emoção — tentando tirar o máximo de expressividade da letra, como também fazia Sinatra, assim como amalgamando o canto simples com recitativo (o exemplo mais conhecido é “Chorra”, clássico de Enrique Santos Discépolo, onde ele leva esse modelo às últimas conseqüências). “Primordialmente está a letra, que deve ser interpretada de acordo com o espírito do autor”, disse Carlitos, certa vez.
Cronista
Num magnífico ensaio, Júlio Cortázar deu a justa medida da influência da música de Gardel no aspecto popular, da forma como este inspirava o cantor e como ele retribuía esse mesmo sentimento no disco: ”Escuto ‘Mano a Mano' (...) talvez eu prefira este porque [demonstra] o que representa Gardel. [As] suas canções tocaram todos os registros do sentimentalismo popular, desde o ódio irremissível até a alegria pelo canto, desde a celebração de glórias turfísticas até a glória do evento policial (...)”. Nesse sentido, mais do que um intérprete, El Zorzal foi o cronista do cotidiano, o trovador dos desvalidos, e espírito que anda pelo rés-do-chão da vida do homem comum não apenas pela inclusão de temas correntes, como amor, desamor, saudade, regozijo, danação espiritual. Ele irradiou o falar portenho para o mundo. Como os “cafishos miongueros” ou o “los morlacos del otário” de “Mano a Mano” faziam parte do rico linguajar do bas-fond portenho, o Lunfardo. Isso sem falar dos eternos sucessos: “Amargura”, “Volvió Una Noche”, “Esta Noche Me Emborracho” “La Cumparsita”, “Tomo Y Obligo”, “Caminito”, “Yira...Yira”, “Adiós Muchachos”, “A Media Luz”, entre tantos outros.
O famoso mausoléu de Gardelito foi inaugurado em 1937, no não menos famoso cemitério de La Chacarita. Desde então, há seis décadas, centenas de pessoas fazem a sua santa peregrinação por lá. Uns fazem votos, outros deixam apenas preces. Alguns fazem pedidos, certo de que ele faz milagres. Consta que, de fato, faz. Com carinho, mulheres jogam cravos sobre a estátua do cantor. Algumas vão à Chacarita toda semana. Alguns observadores mais afoitos podem objetar que se trata de exagero: na verdade, a Argentina é um país enlutado em sua morbidez por seus defuntos. Mas, como disse o profeta, todo amor é eterno. E a paixão do povo por Carlito é eterna. É uma devoção quase amiga, quase mística. Lá, o seu espectro mais onipresente do que todos os santos. Sempre aparece um popular que acende um cigarro e pende-o na “boca” da herma de bronze. Mas comum mesmo é colocaram cigarros acesos na mão direita. Gardel não continua apenas cantando cada vez mais com sua voz de prata, engastada pelas gravações históricas que deixou mas, pelo visto, continua fumando bastante...
E a chama do fumo arderá entre os dedos sua estátua para sempre, assim como a sua música.  |