| VIVER SEM SENTIR DOR
Hora de Voltar aposta na inocência e honestidade para conquistar o público
por
Fábio Freire
(
fabio_fcosta@hotmail.com )

ndrew Largeman não sofre com dor, tristeza ou ansiedade. Mas, em compensação, também não sente alegria, felicidade e amor. Ele está preso a uma vida sem sentimentos, entorpecido por remédios desde a infância. O motivo: seu pai-psiquiatra acredita que essa é a única maneira de controlar sua “raiva”. Agora, aos 26, Andrew é um ator de séries de televisão insatisfeito e frustrado por não conseguir se expressar e estar sempre com o mesmo ar blasé . Sua vida passou batida diante de seus olhos e só agora ele se dá conta disso. O momento ideal para enfrentar seus demônios e libertar-se do domínio dos medicamentos chega quando Andrew tem que voltar para casa, depois de nove anos, em virtude do funeral de sua mãe. Ele não consegue nem mesmo chorar, mas vê na oportunidade uma maneira de se encontrar com o passado, através dos antigos amigos e da doce Sam.
Com uma história boba, até meio batida, Zach Braff (mais conhecido pelo enlatado americano Scrubs ) conseguiu o que muitos diretores sempre sonham: dirigir, roteirizar e atuar como protagonista em um filme muito mais que autoral. E o melhor, logo na sua estréia. Pois Braff não apenas conseguiu o feito, como é responsável por uma das produções mais elogiadas de 2004. Hora de Voltar é quase um libelo em favor de uma geração perdida e atolada na pressão de uma sociedade onde ser alguém significa ser bem sucedido. A melhor saída para não se afundar nesse mar de competição é recorrer a Valiums, Prozacs e se entorpecer para não sentir dor, para não sentir nada. E é no encontro de Andrew com uma garota que é pura energia (Natalie Portman em uma atuação apaixonada e apaixonante) que está sua redenção e um motivo para voltar a sentir.
Apesar da inexperiência, Zach Braff dirige Hora de Voltar com competência de veterano. O roteiro de sua autoria é o grande destaque e todos os elementos estão dispostos em favor da história. O filme é cheio de tiradas nonsense e a direção de Braff sabe aproveitá-las dando um toque surreal ao longa, que se divide, assim como seu protagonista, entre um tom mais cômico e outro mais melancólico e foge de um sentimentalismo mais catártico. Todas as personagens são um pouco “fora de si” e funcionam como um perfeito contraponto à seriedade de Andrew (que em uma sacada mais do que irônica do diretor é ator e decide interpretar outras pessoas, a única maneira que descobriu para fugir de si mesmo).
Outra característica peculiar ao filme é sua ingenuidade. É perceptível que nas mãos de um diretor ou roteirista mais experiente Hora de Voltar tomaria outros rumos e fosse uma produção mais sentimental e até menos otimista. O filme peca, por exemplo, ao depositar toda a atenção na relação entre Andrew e Sam e esquecer do embate entre ele e o pai (um Ian Holm que merecia mais espaço na tela), que para salvar o filho de um complexo de culpa que nem mesmo existe decide privá-lo de qualquer sentimento em um estado de torpor induzido por lítio. A redenção da personagem também é muito rápida e quase tola. Mas Braff atribui a Hora de Voltar uma aura de inocência e honestidade que fazem com que qualquer deslize seja relevado.
Nesse ponto, Hora de Voltar acaba lembrando Gênio Indomável , produção dirigida por Gus Van Sant e roteirizada pelos novatos Matt Damon e Ben Affleck, que trata de tema parecido, a impossibilidade de um jovem em expressar seus sentimentos. Gênio Indomável revelou ao mundo o talento de Matt Damon. Em Hora de Voltar é a vez de Zach Braff ficar sob os holofotes. E a julgar pela segurança demonstrada por Braff (que se destaca também em uma interpretação simpática de Andrew), ele ainda tem muito a oferecer. |