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25 junho a 9 de julho de 2005

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FEBRE DA SELVA
Cruzando incólume por todos os públicos, animações como Madagascar são a aposta mais certa dos estúdios em um novo Titanic
por Marcel Nadale ( mnadale@rabisco.com.br )

úblico e crítica parecem sempre enveredar pelo mesmo paradigma quando precisam comentar lançamentos como Madagascar : o de que desenhos já não são “coisas para criança”. É uma percepção que talvez jamais tenha sido correta mas que, como sempre, a mentalidade e o imaginário comum demoraram a assimilar. A Walt Disney, referência do gênero, já matava a mãe de Bambi há quarenta anos e pela primeira vez manteve no quadro outro trauma parricida em O Rei Leão , há onze. A noção só parece indistinta hoje porque os índices de maturidade que os filmes animados negociam não mais (ou não apenas) fazem parte de seu próprio universo diegético, mas do universo real de seus espectadores. Lêmures dançando numa rave em Madagascar são herdeiros crus do Gênio que imitava Jack Nicholson e Arnold Schwarzenegger em Alladin . Ao longo dos anos, a sensibilidade do público foi degradada a tal ponto que hoje é preciso que o filme invada a pontapés sua esfera de referências habituais para que ele perceba que, hum, histórias com animaizinhos podem, sim, ser uma metáfora para sua própria existência.

Atribuir qualidades humanas a animais sempre esteve na raiz do humor e da moralidade de fábulas e animações. Mas o elenco e a razão de ser de Madagascar não são meros animais antropomorfizados. Eles são específicos: como cativos do zoológico do Central Park, o leão Alex, a zebra Marty, a hipopótamo Gloria e a girafa Melman são nova-iorquinos típicos. São urbanos, cosmopolitas, consumistas, workaholics, paranóicos. Quando são despachados, por engano, para a ilha de Madagascar, um dos mais isolados (e portanto mais ricos e preservados) habitats naturais do planeta, os quatro são obrigados a lidar com as agruras (e prazeres) da vida selvagem. São, assim, Nicole Ritchie e Paris Hilton em The Simple Life , os competidores de Survivor , os acidentados de Lost . No reino do cinema, a referência mais imediata, Náufrago , chega a se insinuar tão evidente que até mesmo o roteiro dá o braço a torcer e cede uma sátira à bola Wilson.

Alex, dublado por Ben Stiller, vive pela fama. O rei dos animais é, no Central Park, também o rei da autopromoção. Marty, dublado pelo comediante negro Chris Rock, tem certos traços de uma esquizofrenia racial: ele é, afinal, branco ou negro? Melman, a girafa, feita por David Schwimmer, é hipocondríaca. E coube à hipopótamo Gloria, a personagem menos marcante, a única voz famosa na dublagem nacional: a carioquésima Heloísa Perrissé, que aparentemente algumas pessoas ainda acham engraçada. O roteiro nem sempre explora o melhor de cada personalidade e ao expô-los em excesso, muitas vezes torna-os enervantes e previsíveis. Quem rouba a cena, como de costume, são coadjuvantes que, além de aparecer (e falar) apenas o suficiente, sabem subverter a ordem, cada um à sua maneira. Crianças irão adorar o nonsense absoluto dos lêmures festeiros e seu rei abilolado, enquanto adultos reconhecerão nos pingüins fujões o ridículo dos grandes filmes militares e de escapadas.

Com Madagascar , a DreamWorks parece oferecer uma terceira via entre a genialidade de Shrek (uma fábula para os pequenos, uma antifábula para os marmanjos) e a neurose de citações pop de O Espanta Tubarões . Há, sobretudo, ao menos um indício de corajosa maturidade em Madagascar , ausente no antecessor: sem medo do que poderia sugerir às criancinhas mais impressionáveis, a trama ganha uma reviravolta quase mórbida quando Alex redescobre seus instintos e começa a ver seus antigos colegas como presas. É um conflito que remete sem muito esforço à selva de pedra de onde eles vieram, até mais do que à selva onde eles se encontram. Resta torcer para que pais não estejam ocupados demais acalmando os filhos para pescar a referência.

E aí volta à pauta a questão de quem é o público-alvo de um filme como esse. Apenas dizer que “desenho animado não é só coisa de criança” é uma apreensão parcial do fenômeno. A ascensão de Shrek 2 ao posto de comédia mais rentável da história do cinema, com US$ 918 milhões arrecadados no mundo todo, solidificaram a noção mercadológica de que não apenas o gênero não se restringe ao espectador infantil, mas é, atualmente, o único capaz de cruzar todos os nichos de audiência. Entre os dez filmes mais vistos de todos os tempos, o único além das animações Shrek 2 (sexta posição) e Procurando Nemo (décima) que não se dirigia exclusivamente ao adolescente do sexo masculino é o campeão absoluto Titanic . As animações, que não geram rejeição em adultos e mulheres do mesmo modo que blockbusters como O Senhor dos Anéis e Jurassic Park são, hoje, a mais sólida aposta dos estúdios para conseguir, um dia, um fenômeno como o épico de James Cameron.