| EXISTENCIALISMO JUVENIL
Baixo-astral , do chileno Alberto Fuguet, descreve o dilema existencial de um adolescente embalado a drogas, música pop e desilusão
por
Luiz Rebinski Junior
(
jrrebinski@hotmail.com )
 e Holden Caulfield, célebre personagem criado por J.D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio , deixou herdeiros desde que surgiu na cena literária, há mais de 50 anos, um deles é latino-americano. Chama-se Matias Vicuña e mora no Chile. Vicuña é o personagem central de Baixo-astral ( Mala Onda , no título original), livro do escritor chileno Alberto Fuguet. Assim como o adolescente estadunidense, Vicuña é um jovem sem muitas perspectivas e que vive o dilema existencial típico da puberdade.
Situado em 1980, no período negro da repressão chilena, entre o plebiscito convocado pelo general Augusto Pinochet, que iria definir o futuro do país, Baixo-astral vai contra a tradição latino-americana – dos países de língua espanhola, que fique claro – da literatura "fantástica", cujo maior expoente é o escritor colombiano Gabriel García Márquez, ao contar uma história fincada no meramente factual e nas coisas "tolas" da vida de um adolescente.
Deitado nas areias do célebre posto nove, em Ipanema, Matias Vicuña conjectura sobre seu próprio tédio e baixo-astral. O final da estadia no Rio de Janeiro, a propósito de uma excursão do colégio, é o ponto de partida para Fuguet contar a história do garoto chileno. Onze dias e muitos baseados depois, já em Santiago, Vicuña constata que sobreviveu à viagem. Jovem e sem experiência, sente-se deslocado após voltar de uma "grande viagem", retornando a um Chile completamente sem graça, com pessoas insossas, sem a alegria contagiante dos brasileiros.
Pequeno-burguês em um país de gente pobre, Matias tem como diversão festas em que o álcool e as drogas são os combustíveis ideais. As relações amorosas do rapaz também ganham destaque na narrativa descompromissada de Alberto Fuguet. No texto fluente do escritor, Matias vai costurando entre bares, apartamentos e corações chilenos. O espírito de Don Juan aflora com força no jovem personagem. Entre o amor deixado nas areias de Ipanema, uma antiga paixão chilena e as transas sazonais, Matias vê o sentimento como mais um elemento estranho a complicar o já confuso universo adolescente.
Mas Baixo-astral contém um elemento que o delimita. A música, que serve sempre como pano de fundo nas histórias de Matias, é uma referência bastante presente no romance. Os ídolos pop do garoto são citados a cada página, dando um toque cinematográfico à narrativa de Fuguet. Longe das novidades e lançamentos do rock, realidade comum aos rapazes latino-americanos na década de 80, o personagem procura matar sua sede musical com o amigo Alejandro Paz. Paz é um grande conhecedor da música "gringa" e acalenta o sonho de um dia morar nos Estados Unidos. Matias o reverencia.
Mais do que servir como elemento narrativo, as referências pop de Alberto Fuguet colocam sua escrita no balaio de gatos daquilo que muitos se acostumaram a chamar de “Literatura Pop”, gênero comumente vinculado à figura e ao trabalho do inglês Nick Hornby. Esta associação, porém, prima pela falta de critério e não pode ser tomada como parâmetro para analisar a obra. O que vem a ser a Literatura Pop? Quais são os critérios, observados pelos especialistas, que tornaram "Pé na Estrada" (Jack Kerouac) e "Pergunte ao Pó" (John Fante) – apenas para citar dois dos "clássicos pop" – livros essencialmente "pop"?
No caso de Hornby, a alcunha vem do gosto musical do escritor, que, exatamente como o colega chileno, utiliza a música como elemento narrativo a ilustrar suas tramas. Porém, dizer que referências à Coca-cola, aos calçados Adidas e a discos e artistas célebres do rock são suficientes para forjar um estilo ou subgênero literário, é banalizar a literatura e a capacidade criativa de seus autores. Portanto, a “Literatura Pop” não existe, é uma mentira contada aos fãs de música, só. Por que Dostoiévski e Tchecov seriam menos pop do que Hunter S. Thompson, por exemplo? Os autores russos acima citados são constantemente reverenciados pelas novas gerações, que encenam suas peças – no caso de Tchecov – e escrevem roteiros de cinema baseados em seus romances – Nina , longa-metragem de Heitor Dhália se escora na trama de Crime e Castigo , de Fiodor Dostoiévski. Sendo assim, a popularidade da obra não é o critério predominante para que um livro seja classificado como pop. Tão menos sua importância ou valor como obra de arte dentro do contexto histórico. Talvez Kerouac, Fante e Bukowski se enquadrem melhor no quadro de autores cult , outra bobagem que traz consigo mil definições que não definem nada. Mas esta discussão é papo para outro texto.
Alberto Fuguet, em seu Baixo-astral , bem como Salinger, outro ícone da tal "Literatura Pop", fala de um garoto desorientado, ou melhor, da desorientação típica da adolescência. A música, onipresente nas passagens mais empolgantes do livro, talvez tenha origem na formação cultural do próprio autor, visto por muitos como alter ego do garoto Vicuña – ou vice-versa.
Alberto Fuguet nasceu em Santiago, em 1964. Antes de completar seis meses, foi para Encino, Califórnia (costa oeste dos EUA), só regressando ao Chile em 1975. Jornalista, Fuguet escreveu durante anos sobre cultura – cinema e música, principalmente – no Mercúrio , um dos principais jornais do Chile. Apaixonado por discos, o autor usa a literatura para dar vazão à sua idolatria aos cânones do rock.
Além de suscitar o debate a respeito do tal do pop, Baixo-astral pode ser lido também como um exercício de autocrítica de um escritor que pertence a uma geração que não teve muitas saídas durante a adolescência. Que viveu em uma década onde a ressaca dos agitados anos 70 imperava. Retrato de uma juventude alienada e deslumbrada com a americanização que tomava conta das cabeças latino-americanas, o romance de Fuguet é uma ode à desilusão.
Em meio a este estado de letargia cerebral da juventude, Matias aproveita para descascar a esquerda de seu país, tão ou mais alienada que os jovens burgueses que fazem parte de seu círculo de amizades. Alias, política é um dos assuntos que passam longe da preferência do personagem – ainda que uma decisão política sirva como pano de fundo para o romance. Matias prefere os discos e a literatura. Mais especificamente um livro. O Apanhador no Campo de Centeio entra na vida de Matias e o leitor percebe que as referências, antes implícitas, ao livro de Salinger, começam a aparecer de repente, explicitamente, sem cerimônia.
O "encontro" de Matias com seu par norte-americano acontece quando o chileno pega emprestado de Alejandro Paz – o mesmo americanófilo e anti-pinochetista barman da boate que Matias freqüenta – o romance de Salinger. O escritor americano revoluciona a cabeça de Matias, que se vê retratado no romance. Encorajado por Caulfield, Matias vaga sem destino por uma Santiago confusa e cheia de barricadas. Fuguet constrói um desfecho inteligente ao fundir o destino de Caulfield à realidade de Matias.
Ainda que retratando o universo confuso de um adolescente, Baixo-astral consegue ser maduro ao calcar sua narrativa em sentimentos comuns a todos os mortais. A insegurança, o medo e as porra-louquices, como bem sabe Fuguet, acompanham o ser humano em todas as fases da vida. A adolescência é apenas uma delas. Paradoxalmente, o niilismo de Matias é um alento à desilusão de uma geração que não conseguia enxergar muitas saídas em um país sitiado. Baixo-astral capta este sentimento e vai muito além das citações. |