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10 a 23 de julho de 2005

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HOSPEDARIA RESISTE AO TEMPO
Memorial do Imigrante em São Paulo preserva história da vinda de estrangeiros à cidade
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

s imigrantes detêm um papel importante na miscigenação do Brasil. São povos, gostos, línguas e costumes diversos mas que, dada a tolerância e hospitalidade tupiniquim, acabaram se sentindo em casa em meio à nossa cultura e colocaram um tempero a mais na mistura da raça brasileira, apesar das dificuldades enfrentadas para se viver aqui no final do século 19 e início do 20.

Para se ter uma idéia da presença estrangeira, em 1888, ano oficial da abolição oficial da escravatura, chegaram ao estado de São Paulo 91.826 imigrantes. Entre 1870 e 1939, vieram 2,5 milhões de pessoas, segundo o Boletim do Serviço de Imigração e Colonização de São Paulo e o acervo do Memorial do Imigrante. Levando-se em consideração todo o território nacional, foram quase 4 milhões de estrangeiros entre 1884 e 1933, de acordo com dados de 2000 do documento Brasil: 500 anos de Povoamento , do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para receber esse número crescente de pessoas, foi inaugurada a Hospedaria dos Imigrantes no bairro da Mooca – zona leste de São Paulo – em 1888, com capacidade para 3 mil pessoas, mas que chegava a receber, num mesmo período, de 8 até 10 mil. Ela substituiu a que existia no bairro do Bom Retiro (região central), por causa das doenças transmitidas e das péssimas condições do local, que ficava próximo a um rio.

Segundo o historiador do Memorial do Imigrante, Marco Antônio Xavier, 43, as hospedarias tiveram papel importante por reunir esses imigrantes e facilitar a “locação” deles pelos fazendeiros. Antes, os próprios fazendeiros tinham o trabalho de buscá-los, o que se tornou oneroso depois, fazendo com que o governo paulista entrasse em cena para organizar a imigração e lucrar com o sucesso das exportações geradas pelo maior acúmulo de trabalho nas fazendas.

"Os imigrantes camponeses (essa era a condição principal da vinda dessas pessoas ao país) vieram para cá, pois havia pouca mão de obra no estado e, para o plantio do café, eram necessários muitos trabalhadores", afirma.

As pessoas ficavam na hospedaria até, no máximo, uma semana e tinham todos os serviços necessários para trabalhar, além de poderem desfrutar de repouso, refeições, momentos de lazer com filmes, banhos de sol (para acostumá-los à temperatura e ativar a vitamina E no corpo) e as costumeiras conversas entre eles. "Era uma disciplina extremamente rígida por existir muitas pessoas num mesmo lugar. O refeitório, por exemplo, tinha capacidade para 500 pessoas, mas como havia no mínimo 3 mil na hospedaria, aconteciam sessões para cada refeição", conta Xavier.

Trabalho no campo

Os fazendeiros entravam em contato com a hospedaria e solicitavam os "braços", como eram chamados à época os imigrantes, que iam para a lavoura sem saber qual cultura iriam cultivar. As famílias eram mantidas unidas e enviadas dessa forma às fazendas, para que o imigrante trabalhasse mais e não se sentisse só.

Apesar dessa relativa liberdade, a relação de trabalho local era "calcada na escravatura", por conta do próprio costume dos capatazes das fazendas, que sempre lidaram com escravos. "Não era aquela coisa que passou na novela Terra Nostra , em que todos saíam de manhã cantando e voltavam à noite e dançavam. O trabalho era muito pesado", justifica.

Outro problema eram as condições de vida no campo. "O armazém da fazenda era sua única opção de compra, mas os donos anotavam coisas a mais na 'conta' do imigrante, que não sabia a Língua Portuguesa. Então, quando ele achava que poderia sair da fazenda, descobria que precisava passar mais tempo para cobrir suas dívidas", relata o historiador. Algo semelhante ocorre até os dias de hoje nas terras griladas da região amazônica.

Importância da hospedaria

A Hospedaria dos Imigrantes funcionou até 1978, quando o controle da imigração passou para a Polícia Federal e o número de imigrantes já não era tão alto quanto no início do século.

Para Xavier, a imigração em São Paulo teve como contribuição dois pontos importantes: no âmbito econômico, a mão de obra cobriu as necessidades da época; no social, estimulou a população dos centros urbanos a unir-se, mesmo sendo de etnias e nacionalidades opostas, trocando experiências e valores culturais. "É impensável ver isso em outros lugares, onde é mais comum as pessoas ficarem fechadas em guetos, em bairros específicos" considera.

Para manter toda essa história viva, o Memorial procura preservar parte da memória e patrimônio de 60 nacionalidades, num local repleto de artigos da época, como camas, talheres, livros e muitas fotos. Há também um serviço de identificação, em que uma área administrativa preserva os arquivos de todos os imigrantes que entraram na hospedaria, para os visitantes saberem se algum parente chegou ao país por ali. "É importante as pessoas saberem de onde vieram para entenderem o que são, além de mostrar a todas as comunidades as razões de São Paulo ser o que é hoje", finaliza o historiador.

Serviço
Memorial do Imigrante
Endereço : Rua Visconde de Parnaíba, 1316 – Mooca, próximo a estação do Metrô Bresser.
Telefone
: (11) 6692-1866
Horário : De terça a domingo, das 10h às 17h (inclusive feriados). Passeio de bonde e maria-fumaça, das 10h às 17h aos domingos e feriados.
Preço : R$ 4,00 (para idosos e crianças, entrada grátis)
Site : http://www.memorialdoimigrante.sp.gov.br