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10 a 23 de julho de 2005

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HERÓIS DA APARÊNCIA
Mais do que discutir uma família heróica, Quarteto Fantástico aborda um grupo de celebridades heróicas
por Marcel Nadale ( mdanale@rabisco.com.br )

uarteto Fantástico já foi tema da minha coluna quinzenal, a RecenteMente , quando do lançamento de Os Incríveis . Expressava minha preocupação com a sombra que a animação da Pixar iria jogar sobre esta adaptação de quadrinhos que eu já acreditava, a princípio, irrealizável. Ambos os filmes compartilhavam a mesma temática – uma família de super-heróis que imiscuía o prosaísmo da vida cotidiana no absurdo da ficção científica larger than life . Não ajudava em nada o fato de que os Incríveis espelhavam fielmente os poderes dos quatro Fantásticos: Sr. Incrível/O Coisa; Violet/Mulher Invisível; Mulher-Elástico/Sr. Fantástico; Jack Jack/Tocha Humana.

Tendo finalmente visto Quarteto Fantástico , preciso admitir que estava enganado. Ou parcialmente enganado. A nova adaptação da Marvel, mais comprometida com o que se espera de um filme de ação, realmente não conta com o mesmo escopo de Os Incríveis . Mas consegue se sustentar com autonomia porque trabalha também outro elemento inerente à essência dos personagens que eu havia esquecido, e que o coloca na direção inversa à de seu rival. Os Incríveis eram uma família que passava da atuação pública ao ostracismo e ao anonimato. Os Fantásticos, mais que super-heróis, se descobrem figuras públicas. Celebridades. Aparências.

É uma outra chave para se compreender a genialidade de Stan Lee, o criador dos mitos fundadores da Marvel Comics. Em se tratando dos supergrupos, Lee não focou apenas núcleos sociais distintos (uma família com o Quarteto, um clube com os Vingadores; uma escola com os X-Men), mas também diferentes níveis de notoriedade e aceitação, que vão da total exposição, com Sr. Fantástico e sua turma; passam pela anuência pública mas com identidades reservadas, com os Vingadores; até a total clandestinidade, com Xavier e seus pupilos. O Quarteto, surgido em 1961, muito antes de todos os eles, antecipava uma questão hoje premente numa sociedade de aparências: quem são nossos verdadeiros heróis e qual o valor de sua representação? Depois de servir como combustível para quarenta anos de sucesso nas revistas do Homem-Aranha, não quero crer que seja acaso ela atualmente ter se tornado um ponto pivotal de quase todos os títulos da Marvel. Nos últimos cinco anos, mascarados clássicos como Capitão América, Homem-de-Ferro e Demolidor vieram a público com suas identidades secretas. Quando o autor Grant Morrison assumiu a revista dos X-Men, também logo tratou de fazer com que Xavier admitisse na TV a duplicidade de sua escola para jovens superdotados. Após 11 de setembro, a Marvel lançou uma minissérie com outros heróis: os bombeiros, policiais e paramédicos de Emergência: A Serviço da Vida .

Seria de se imaginar que, em uma ficção científica sobre pessoas alteradas geneticamente por uma temepestade cósmica, caberia à figura do cientista Reed Richards, interpretado por Ioan Gruffudd, o peso de impor credibilidade à trama. Mas isso seria apenas responder como eles se tornaram heróis; não como foram aclamados como tal. O mérito do roteiro é, portanto, repartir esse ônus com Johnny Storm, impecavelmente marcado por Chris Evans (melhor que isso, só se ele fosse mesmo loiro). O acidente espacial torna Reed, Johnny, sua irmã Susan e seu amigo Ben Grimm apenas aberrações. São as decisões do esquentado Tocha Humana, um notório ególatra nos quadrinhos, que virtualmente os tornam ícones públicos, justificando seus uniformes, seus “codinomes” e todo aquele absurdo ridículo que o papel dos gibis aceita com mais facilidade que a película (e, para aqueles preocupados com a credibilidade de outro absurdo ridículo, o dos poderes do grupo, é suficiente dizer que os efeitos, mesmo com uma ou outra ressalva, dão conta do recado).

Todos os outros personagens parecem comentar metaforicamente a mesma questão, com uma urgência quase óbvia. Há, afinal, uma mulher cuja principal habilidade é meramente se tornar invisível. E, para quem acompanha quadrinhos, é difícil dizer se isso lhe é mais útil quando precisa enfrentar o vilão no clímax do filme ou quando ela precisa despir-se e literalmente “desaparecer” quando sua celebridade arregimenta multidões de fãs nas ruas. Há outro, taxado sem exagero pelo produtor da Marvel Studios, Avi Arad, como “o coração do filme”, que está permanentemente coberto por uma pele rochosa e que, não importa quão bem intencionado, é rejeitado pela esposa e só encontra amor com uma cega. É o único que lida com alguma dualidade entre sua aparência real e sua aparência “heróica”. E, por fim, há ainda o maior nêmesis do grupo (e um dos maiores do universo Marvel), o Dr. Destino, cuja aparência também lhe é um tema nuclear. Destino vive coberto por uma máscara porque sua face, outrora perfeita o suficiente para seduzir Susan Storm, é desfigurado pelo acidente. Sua origem, no filme, é a que mais difere da mitologia das HQs, substituindo acertadamente o misto de cientista e tirano dos gibis por um misto de cientista e celebridade, descrito em dado momento como “o rosto público das empresas Doom” (e o rosto pertence ao ator Julian McMahon, de uma série sobre cirurgia plástica, veja só). Não é a fama, hoje, a verdadeira política? Schwarzenegger, um ator que virou governador (e que, aliás, por força de seus personagens, virou também um “herói” entre uma coisa e outra), é só o exemplo mais preguiçoso. As personas hoje estão todas misturadas.

Ainda que não explore todo o potencial dessa confusão, abrindo brechas para boas cenas de ação, Quarteto Fantástico vai dando um nó aqui e ali, colocando o Coisa frente a frente com seu próprio action figure ; tornando Johnny Storm outro tipo de ídolo mais popular entre os jovens, um campeão num esporte radical; e levantando questões pra lá de pós-modernas, se pensarmos que, hoje, certamente já estão sendo vendidos brinquedos do Coisa nas lojas do lado de cá das telas, e que um comercial com os membros do Quarteto jogando basquete com astros reais do esporte foi veiculado recentemente numa partida da NBA para promover o filme. Quarteto Fantástico , além de fazer uma transposição no mínimo mais correta que Elektra e Justiceiro para as telas, também marca uma seara distinta de seu outro rival, Os Incríveis . Agora, o âmbito especulativo não é apenas o da família heróica, mas o da celebridade heróica.