| A GUITARRA REENCARNADA
Jack White, do White Stripes, é o Curt Kirkwood dos anos 2000 - e é muito fácil provar
por
Guillermo Gumucio
(
guillermogumucio@yahoo.com )
 White Stripes embarcou pela segunda vez no Brasil, tocou no último lugar que você poderia imaginar, casou um integrante no Rio de Janeiro, deu algumas cópias do novo disco Get Behind Me Satan para o público paulista antes do lançamento mundial nas lojas e ainda por cima aproveitou essas experiências e as passadas em outros lugares no mínimo atípicos da América Latina para juntar material para o próximo DVD. Com isso, alcançou um status mais do que privilegiado no círculo do que se convencionou chamar “novo rock”, com atitudes que acompanham a (r)evolução causada pela dupla.
Bom, tudo isso foi noticiado na mídia em geral, portanto, cobrirei de razão o leitor que estiver zangado comigo por ler um primeiro parágrafo sem novidade alguma, totalmente em vão. Entretanto, devo declarar de que a passagem do casal das listras brancas por aqui solucionou de uma vez por todas um dilema que pairava há algum tempo sobre minha cabeça, de maneira que posso agora afirmar: Jack White é o Curt Kirkwood dos anos 2000.
Se você nunca ouviu falar do homem de Curt ou se acha que “Meat Puppets” é a mais nova atração do canal Cartoon Network, eu lhe imploro, leia isto até o final.
Meat Puppets foi uma banda que fez história na cena do rock underground a partir de sua concepção em 1980 pelos irmãos Curt e Cris Kirkwood (guitarra/voz e baixo/backing vocals) e seu amigo de longa data Derrick Bostrom (bateria). Tentar definir o som feito pelo trio em mais de dez anos levaria alguns blocos de páginas e um sem número de adjetivos e sensações, mas tudo se resume a uma visão positiva do mundo, quando, na verdade, as coisas naquela época não estavam indo tão bem assim, em uma sonoridade punk e rockeira estranha e ao mesmo tempo incrivelmente bonita; e esses eram apenas dois dos aspectos, porque o conjunto era uma jóia rara. Foi com Meat Puppets II (1984) que houve a rápida consagração no meio e com Mirage (1987) que eles provaram que nenhuma opinião os faria mudar o processo criativo. Curt gostava de definir o som dos Puppets como “rock n' roll abstrato”, e talvez não exista expressão mais apropriada mesmo. Agora, para localizar de vez, posso afirmar que uma das tarefas mais árduas de que tenho notícia é tentar achar um texto sobre o Meat Puppets que não mencione as palavras “Nirvana” e “ unplugged ”. Enfim, a maioria se lembrará dos irmãos Kirkwood daquela ocasião, quando o fã Kurt Cobain fez questão de interpretar três canções – “ Plateau” , “ Lake of Fire ” e “ Oh Me” , todas do segundo disco de estúdio dos caipiras de Phoenix – da sua banda predileta com seus próprios ídolos.
O que a maioria das pessoas que gostam e comentam a respeito do gênero novo rock não enxergam é a gigantesca semelhança entre a imagem de Jack White e aquela de Curt Kirkwood em meados dos anos oitenta. São ícones que representam, cada um em sua época, exatamente a mesma coisa, tanto para os críticos quanto para os meros admiradores do rock de vanguarda feito atualmente.
Kirkwood, com toda certeza, deu menos sorte que o Sr. White em matéria de discos vendidos e reconhecimento ao redor do mundo, mas possuía um ar de defesa do trabalho autoral e uma longa distância em relação ao que se devia fazer ou ao que a mídia e gravadoras achavam que ele devia fazer que era de fazer inveja. Reparem que apesar de Kirkwood ainda estar vivo e tocar sua guitarra, utilizo os verbos a ele relacionados no passado. Não se trata de qualquer tipo de crítica ou cinismo, mas acontece que o observado aqui é seu trabalho com o Meat Puppets, independentemente do que ele esteja fazendo hoje – discos de folk-rock praticamente sozinho e apresentações de guitarra em cidades dos Estados Unidos.
O visual, bem se mencione, é o outro aspecto desses dois guitarristas que causa diferenciação entre eles. Jack White, com suas vestimentas todas baseadas em apenas três cores – vermelho, branco e preto – e um nítido cuidado em relação à moda, realmente parece que está em sintonia com a música que pratica, que é inovadora e atípica, mas ao mesmo tempo consegue ficar tão em voga. Já não se pode dizer o mesmo dos três Puppets; com aqueles cabelos, camisas e jaquetas, é mais fácil que você ache que eles são os novos integrantes do Crazy Horse de Neil Young do que rapazes que tocam músicas folk-punk-rock psicodélicas sobre o amor, paisagens (“ Confusion Fog” , “ The Wind and The Rain ” e “ Leaves”, todas de Mirage , o que diz muito sobre o conceito do disco), a chuva (“ Look at the Rain” , “ Dry Rain” ) ou o número zero (se delicie e divirta com “ The Mighty Zero” e “ The Void ”).
As principais diferenças são essas, as visuais e de caráter puramente mercadológico. E pára por aí. Quando se tem um panorama da importância atribuída ao White Stripes e aquela da dos Puppets de antigamente, é possível vislumbrar a impressionante semelhança entre ambos.
Comecemos por ela, o instrumento do capeta, a rainha de todas as microfonias, a incendiária mensageira do rock, ela, sempre ela: a guitarra. Curt Kirkwood, desde seu surgimento, sempre foi tido como o deus da guitarra underground, e Jack White é considerado atualmente o maior canal de expressividade no instrumento encontrado em muito tempo. Tome como exemplo a jam e comentários de Jeff Beck com o White Stripes e a lista dos 100 melhores guitarristas de todos os tempos publicada pela Rolling Stone em 2003 (onde Jack ficou em 17 o , à frente de gente como Buddy Guy, Robert Fripp e Tony Iommi, só para citar alguns), de um lado, e as inúmeras referências a Kirkwood e Meat Puppets pelos principais guitarristas do movimento grunge que estampou a década passada, como Jerry Cantrell (Alice In Chains) e Stone Gossard (Pearl Jam), do outro. Como é possível observar, eles já marcaram seu lugar no panteão do rock e, acredito, da mesmíssima maneira, isto é, sendo únicos, originais e ditando um novo jeito de fazer rock, não importando se meia dúzia ou milhares de pessoas vão realmente ligar para isso. São os cabeças de um conjunto, que de guitarra em punho demarcaram seu espaço, sem se importar de maneira crítica com um retorno de sucesso mundial. Acredito que o White Stripes continuaria a gravar discos mesmo se seus singles não tivessem virado febre, por causa da postura de Jack White em relação ao modo como vê a música, que é crua, visceral e de causar estranheza. Este último fator é manipulado pelas vozes, e nesse ponto os dois guitar heroes se encontram novamente. Quando as canções do os Meat Puppets se tornaram algo muito mais fácil para seu público acostumado digerir, as composições ganharam um ar psicodélico tremendo, mais viagens sobre o número zero e vocais desafinados. Sim, desafinados. E lhes confesso uma coisa: são maravilhosos.
Jack White já é chamado de “virtuose da nova guitarra”, mas não sei até que ponto essa alcunha é apropriada. De qualquer maneira, o virtuosismo pouco importa aqui. Claro que Kirkwood ganhava algum destaque pelas notas que tocava nos lugares que tocava, mas devo recordá-los que enquanto isso Eddie Van Halen e seus cordeirinhos deslizavam, além dos cabelos, milhares de notas a mais na velocidade da luz na MTV.
Para evidenciar ainda mais a comparação que aqui proponho, pegue Get Behind Me Satan , recém-lançado, e descubra como ele é praticamente um Mirage na carreira da dupla de Detroit. Repleto de novidades, experimentalismos e com mixagem diferenciada, é um álbum que vem dividindo opiniões, mas que obteve uma recepção excelente por parte da crítica e público. Satan abre portas para que milhares venham atrás e tentem fazer o mesmo, o que nem sempre é algo ruim, mas é necessário recordar-se desse feito no futuro. Assim como Mirage , o disco continua a mostrar quem é o tal na guitarra, mas desenvolve um outro lado do compositor e músico e mostra incrementações de teclas e vocais.
As reedições dos discos gravados pelo Meat Puppets quando ainda estavam na SST foram lançadas aqui no Brasil em 2001 pela Trama. São um presente e, ao mesmo tempo, uma aula de história do rock sulista norte-americano. Os discos foram remasterizados em CD e trazem faixas-bônus com coisas que vão de medleys e demos até Kirkwood improvisando idéias com sua guitarra apenas com o auxílio de uma bateria eletrônica e versões piradíssimas de clássicos como “ Good Golly Miss Molly” e “Burn The Honky Tonk Down ”. Além disso, há faixas interativas com vídeos de faixas ao vivo em diferentes apresentações e livretos com um artigo escrito por jornalistas que viveram a época do disco e relataram-na naquele mesmo instante ou redigiram textos discorrendo a respeito do impacto dos discos exclusivamente para o relançamento, e sempre com notas de gravação do baterista Derrick Bostrom, que também cuidou de toda produção dessas edições vitaminadas, algumas com mais do que o dobro do tempo total de execução do original. Não hesite, vasculhe nas lojas de discos atrás das caixinhas verdes ( jewel cases ) da Ryko e, se der sorte, ainda é capaz de levar essas preciosidades obrigatórias por menos de 10 reais. Se não for do Meat Puppets, provavelmente será um dos 500 (força de expressão, rapaziada, calma lá...) álbuns de Frank Zappa também relançados pela Trama, e aí também pode levar que eu garanto.
Curt Kirkwood e Jack White são o mesmo símbolo de rebeldia musical interna que se faz presente em um movimento que batalha para não se repetir. E isso é exatamente o que eu vejo em Jack White hoje em dia: alguém que consegue se destacar, debulhar esse instrumento eternamente juvenil que é a guitarra elétrica e viver e ser admirado ao mesmo tempo pela sua linguagem única. Se Jack tem consciência disto tudo? Não faço a mínima. Seria uma boa idéia perguntar àquele robô de blusinha que senta na bateria da banda dele.
Se você, mesmo após haver chegado até aqui, me achar um doido varrido devido à analogia aqui apresentada, uma última tentativa em forma de curiosidade/coincidência: tanto Jack quanto Kirkwood tiveram um sério problema com ossos em momentos muito importantes de suas carreiras. O primeiro sofreu um acidente de automóvel e teve até mesmo que ser submetido a uma cirurgia para arrumar o dedo que havia sido quebrado em três partes diferentes, em meio à turnê do badalado Elephant , tendo de cancelar apresentações em megafestivais como o Reading e Central Park Summer Festival; e Out My Way foi um EP originalmente lançado para que Curt Kirkwood se recuperasse de um dedo quebrado que o impedia de fazer qualquer daqueles fraseados mágicos.
O Meat Puppets acabou em 1996, após uma última fase de alguma difusão e o episódio MTV Unplugged , mas, para nossa sorte, enfim se consolida a figura que agora vem a tomar posse do cajado da sabedoria e pressionar a sutil evolução do rock n' roll, que fará questão de acontecer, ainda que muitos a julguem como morta há muitos anos. Pois é, Jack White, Darwin nunca esteve tão certo.
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