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24 de julho a 6 de agosto de 2005

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PASÁRGADA E ILHA DOS AMORES
As diferentes construção e representação do paraíso em Manuel Bandeira e Luís de Camões
por Hugo Maior ( hmaior79@hotmail.com )

érgio Buarque de Hollanda, no clássico Raízes do Brasil , na tentativa de explicar o porquê “de certas posições políticas daquele momento”, como disse bem Antônio Candido em seu prefácio para a 15ª edição da obra, recorreu a algumas imagens importantes, sobretudo quando se deseja remontar os “áureos” tempos do Brasil colônia, em que a terra recém-descoberta, apesar do descaso dos descobridores, se configurava em um perfeito arquétipo do paraíso celeste na terra, “onde se plantando, tudo dá”, conforme carta de Pero Vaz de Caminha.

Sérgio, entre outras coisas, diz que para aqueles que vivem em um Paraíso “o ideal será colher os frutos sem plantar a árvore”, vivendo em projetos ilimitados de tempos vastos e abundantes, ignorando barreiras. Não é por acaso que mesmo inconscientemente, a idéia do Paraíso perpassa todo o inventário literário desde Camões e causas seqüelas irreversíveis, sobretudo no tocante à literatura modernista de primeira geração no Brasil.

No episódio da Ilha dos Amores, canto X de Os Lusíadas , temos uma leitura interessante quando se considera a Ilha como o espaço do desejo, do proibido, do erotismo e finalmente, da utopia. “Esta natureza edênica preparada para servir de habitação para as deusas manifesta-se como constante projeto humano de encontrar a ‘terra prometida', réplica do paraíso perdido, único local passível de reconciliação do homem com o cosmo”, diz Maria Thereza Alves, em Topofilía e Topocrítica na Paisagem Ideal da Ilha dos Amores .

Compreendendo que a ilha, enquanto acidente geográfico, é uma pequena porção de terra cercada por água de todos os lados, dois elementos a principio tão distantes, logo por analogia entendemos também como a ilha dos amores em especial, passa a ser então o espaço da comunhão, do convívio de dois mundos, até então incomunicáveis. “Sendo assim, o já conhecido – Portugal – e o que, pela posse, será conhecido – ilha – são espaços louvados tendo como dominância sêmica o elemento ‘terra', oposto ao elemento ‘água', dominância sêmica do espaço hostil [mar]”, continua Maria Thereza.

A ilha torna-se também o espaço do refugio, do exílio, ainda que esse exílio tenha um sentido diferente do que conhecemos hoje. Talvez seja justamente isso que aproxime a Ilha dos Amores de Camões à Pasárgada do nosso querido Manuel Bandeira: “(...) e como farei ginástica, andarei de bicicleta, montarei em burro brabo, subirei no pau-de-sebo, tomarei banhos de mar”, no clássico “ Vou–me Embora pra Pasárgada”. Ainda que Pasárgada seja a metáfora de um exílio existencial em que o sujeito-enunciador deseja abandonar o convívio social, ninguém desconfia de que também não seja uma ilha, um lugar paradisíaco, com todos os atributos de um lugar perfeito.

É importante ressaltar que existe nessa comparação dois sentidos de paraíso distintos: no primeiro, temos um paraíso que se configura numa premiação, indo de encontro inclusive aos valores medievais, tornando a própria ilha um arquétipo do paraíso celeste: “encrespa a água serena / e despertava os lírios e jasmins”, descreve Camões. No segundo, temos um paraíso que é condizente com a estética modernista, quando propõe retomar os valores românticos para reler conceitos importantes como o de nacionalidade. Nesse momento, a palavra paraíso toma o sentido de “Fugare Urbem” , fuga do urbano, fuga da realidade, proporcionando ao sujeito-enunciador abandonar o convívio de seus entes e de instituições sociais como família, casamento e amigos. “Em Pasárgada (...) é outra civilização”, já diz Bandeira.

O curioso é que não só a concepção de paraíso de Pasárgada e da Ilha dos Amores é distinta, como também os elementos que, de uma forma ou de outra, configuram esses dois “Locus” são certamente diferentes. Nos Lusíadas a concepção do paraíso é intensificada a partir de elementos gastronômicos e apreendido a partir de um único sentido: o paladar. Pois é freqüente encontrar na descrição do paraíso da epopéia camoniana vocábulos que pertencem ao universo gastronômico: “mesas de altos manjares”, “iguarias suaves e divinas”, “os vinhos odoríferos” e outros tantos. Em Pasárgada, a concepção de paraíso é reforçada a partir de objetos que estão inseridos naquilo que o sujeito-enunciador entende como um lugar-ideal: “em Pasárgada tem de tudo, tem um processo seguro de impedir a concepção, tem telefone automático, tem alcalóide a vontade”. O que nos leva a crer que o paraíso bandeiriano também é depreendido a partir de um único sentido: o tato.

Ao entender tanto Pasárgada quanto Ilha dos Amores como metáfora do desejo também encontramos outra diferença crucial entre os dois textos. Em Lusíadas o erotismo é corroborado a partir da existência das ninfas, “deusas dos rios, do mar e das fontes graciosas e belas”, ao passo que no poema de Bandeira o universo erótico é constituído a partir da deflagração do sujeito-enunciador de que em Pasárgada, “tem prostitutas bonitas para gente namorar”, apresentando uma versão vulgarizada da temática do amor-paixão e da própria idealização da figura amada tão presente no Romantismo.

Na Ilha dos Amores, o Paraíso é um elemento vivenciado pelo herói da epopéia e por todos os seus companheiros, conforme nos evidencia os inúmeros versos no pretérito perfeito do indicativo em que há uma ação passada já concluída, como em “Os ventos que faltaram/ Os perigos do mar que sobejaram” e em algumas formas nominais tal como “o céu querendo”, “e docemente murmurando”. Nesse sentido, torna-se experiência, torna-se algo vivo que pode ser experimentado, experimentável.

Em Pasárgada, o Paraíso é uma projeção, um objeto de desejo do sujeito- enunciador, que se vale dos atributos paradisíacos por ainda não ser experienciado, vivenciado. Por ter vida, e sobretudo sentido, apenas no imaginário do sujeito-enunciador e por não ter sido ainda confrontada com a realidade é que podemos considerar Pasárgada um lugar perfeito, como nos mostra os tempos verbais no futuro em trechos como “na cama que escolherei”. Justamente por só ter representação dentro do universo onírico e ser constituída também a partir desses elementos é que não há a possibilidade de frustrar-se. A frustração só se configura no momento que esse objeto de desejo passa a existir também no plano real, ou seja, a partir do momento que o Paraíso pode ser experimentado.

Portanto, é importante deixar claro que o elemento que une os dois textos é justamente aquilo que o separa: a utopia a que Camões se refere em Os Lusíadas é àquela que diz respeito a “quimera, fantasia”, segundo o Houaiss , o que é reforçado inclusive pela presença das próprias ninfas. Já o sentido de utopia que Pasárgada representa no texto de Bandeira é aquele que diz respeito à “concepção imaginária de um governo ideal ” , o que é bastante compreensível a partir do momento que a própria estética modernista tem como proposta a discussão não só do que seja nacionalidade, mas de verificar quais elementos constroem essa nacionalidade. Sendo assim, temos dois importantes textos, pertencentes ao cânone de nossa literatura, produzidos em tempos e espaços distintos e que ao se afastarem, negarem-se, não só por serem opostos diacronicamente, mas por trazerem abordagens distintas a respeito de um mesmo tema, dialogam entre si. Parece mesmo a reconciliação entre o bardo português e o brasileiro do Recife, que tanto lutou a fim de livrar-se da influência lusitana.