| CONTAGEM PROGRESSIVA ATÉ OITO
Oitavo álbum do Dream Theater traz o novo, o antigo e mesmo assim não arrisca
por
Guillermo Gumucio
(
guillermogumucio@yahoo.com )
 Dream Theater está novamente em destaque nas prateleiras e “oito” é a ordem do dia: Octavarium é o oitavo disco de estúdio e contém oito faixas.
Após um controverso e pesadíssimo álbum, Train of Thought , onde foi esquecida considerável parte das regras de composição da banda (a saber: evolução crescente, solos solidamente construídos e alternância de ambientes), o Teatro dos Sonhos retorna à sua regular arquitetura e solta mais de sete dezenas de minutos inéditos de música para deleite de sua legião de fãs e quem mais quiser se submeter à experiência.
Para aqueles, e não são poucos, que simplesmente não engoliram a mistura de new metal com uma infinidade de notas de Train of Thought , este lançamento é um reconforto sem tamanho. Não que Octavarium seja algo à altura de Images and Words ou Awake , que chamaram a atenção para a técnica, inovação e peso da banda ao redor do mundo, ou Scenes from a Memory , que consagrou-a como referência do metal progressivo nos anos 90 e gerou inúmeras bandas inferiores em diversas partes, inclusive no Brasil, mas é um indicador de que as novas tendências na caracterização do som não eram algo definitivo. O tecladista Jordan Rudess já havia antecipado no ano passado que o próximo disco seria mais “colorido”, certamente para dar esperanças a quem não estava gostando muito da fase pedreira do conjunto na época.
Contudo, Octavarium em muito se parece em um aspecto com o Falling Into Infinity , “ovelha negra” anterior a Train of Thought : a diversidade das faixas entre si. É possível ouvir traços de influências tão diferentes quanto Journey , U2 e a combinação de trash/new metal praticada por bandas contemporâneas e recentes como In Flames e Soilwork. Em meio a esse liqüidificador de timbres, é possível reconhecer que Jordan Rudess nunca foi tão evidenciado e utilizado como desta vez. A todo momento as teclas de um Korg ou Kurlzweil podem ser sentidas, levando a música a algum lugar e tratando de injetar beleza em meio à explosão da cozinha de Portnoy e John Myung. Inclusive, detesto desapontar, mas não espere qualquer inovação ou surpresa em quesitos baterísticos. Infelizmente, é a verdade e também uma lástima, pois alguma criação nesse sentido contribuiria, e muito, para o panorama da qualidade do disco. Diferentemente de Falling Into Infinity , este disco de 2005 não compromete, não arrisca em nenhuma das tantas direções que podem ser tomadas bebendo de tantas fontes. É necessário observar que isso não é tão comum em se tratando de Dream Theater, visto que os álbuns costumam ser bem diferentes entre si, e isso sempre foi objeto de admiração entre os que prezam pela atitude de arriscar e não se contentar com a fórmula vencedora.
Octavarium se inicia em crescendo com “The Root of All Evil”, a terceira parte do conjunto de músicas que descrevem os doze passos estabelecidos pelo AA para a recuperação de um alcóolatra, experiência vivida de perto por Mike Portnoy, que está limpo há cinco anos e já confessou sua vontade de fazer um show apresentando as músicas desse tema – apresentadas disco a disco desde Six Deegres of Inner Turbulence – na seqüência, assim que elas formarem todo o processo. Logo após, vem a faixa mais calma das oito, “The Answer Lies Within”, com bela ambientação e sutileza do piano. “These Walls” tem o refrão mais marcante que a banda já gravou em muito tempo e, das músicas de Octavarium, candidata a mais querida do público nas apresentações juntamente com “Never Enough”, que possui um riff de teclado e guitarra empolgante e letra libertadora. “I Walk Beside You” poderia facilmente estar em How To Dismantle an Atom Bomb , tamanha a tentativa de emulação da banda irlandesa mais famosa do planeta. O petardo fica por conta de “Panic Attack”, com pequenos ecos do metal apocalíptico praticado em Train of Thought e uma introdução de contrabaixo que também pesa uma tonelada. A espera para que uma banda tão nova iorquina (fruto de um gênero predominantemente inglês, o rock progressivo) como o Dream Theater fizesse algo em alusão aos ataques de 11 de setembro chegou ao fim com “Sacrified Sons”. Em uma exibição de total descontentamento e reflexão, James LaBrie canta “Não consigo saber se com as palavras que eles pregam o amor de Deus é ato de ódio”, e o teclado novamente rege todo o resto em harmonia.
E chega a faixa-título. “Octavarium” é, na verdade, um enorme tributo de 24 minutos de duração aos ícones do rock progressivo que, paradoxalmente, também funciona como crítica àqueles que não suportam mudanças agressivas de rumo e direcionamento musical, e para certificar-se disso é só analisar a letra do épico. A introdução – com longos 4 minutos – é “Shine On Your Crazy Diamond” com bottleneck; depois, se faz presente um belo violão em uníssono com piano, em melodia um tanto quanto melancólica, para o início do canto de LaBrie; na seqüência, você poderia jurar que Chris Squire (ídolo do contrabaixo do Yes ) é músico convidado na faixa, mas não, é o próprio Myung. As referências a Yes continuam com o teclado característico baseado em Rick Wakeman, para depois também surgir uma parte em homenagem às formações clássicas do Genesis e Marillion, com os breques que dão brecha a frases de teclado que não poderiam ser mais progressivas. O peso chega ideal em forma de King Crimson e as citações a outras músicas, na letra, não cabem nos dedos de duas mãos. Depois, a música termina praticamente como começou, com uma bela melodia de flauta. Aliás, o último verso da música, “The story ends where it began”, é adequado quando percebe-se que há ligação entre o final e o começo do disco. E aí o ouvinte que tiver conhecimentos básicos de teoria musical irá achar uma infinidade de pequenos segredos e elementos comuns a todas as músicas. E dá-lhe mais número oito.
Portnoy, no papel de pai coruja de sua cria, fez de tudo para que Octavarium não vazasse na rede mundial de computadores e fosse distribuído livremente por meio de programas P2P (peer to peer) em progressões geométricas. Bom, ele fez quase tudo. Conforme relatou em entrevista a uma rádio norte-americana na véspera do lançamento, havia feito apenas 10 cópias do disco, que deu em mãos das pessoas íntimas e de confiança, como parentes e o dono da gravadora; mesmo assim, as faixas pararam de alguma maneira obscura nas mãos dos fãs e de quem mais quisesse, duas semanas antes do esperado, o que o deixou totalmente surpreso. Esse fato comprova que nenhum artista está mais a salvo. Bom, pelo menos houve mais esforço que no caso, por exemplo, do Oasis, New Order e Coldplay , que tiveram seus mega lançamentos fazendo debut na internet com praticamente dois meses de defasagem em relação à data oficial. Só não dá para entender porque com todas as questões envolvendo a pirataria nos meios este disco não possui faixa interativa ou acesso a vídeos das gravações a partir de senha fornecida no CD original, como ocorreu com Train of Thought . No mais, Octavarium possui a incrível virtude de ser um lançamento que além de constituir em mais do mesmo, e com isso agradar à maioria de seus seguidores, também é uma excelente porta de entrada para os novos aventurados, o que pode fazer com que vários dos que se predispuserem e gostarem do resultado corram atrás dos outros trabalhos do quinteto de Nova York. |