| TROVADOR GONZO CARIOCA
Felipe Ricotta emplaca mais de cinco minutos de fama com a sua cobertura das noitadas rocker na cidade maravilhosa
por
Julio Ibelli (
julio@rabisco.com.br )

o dia 22 de outubro de 2004, Felipe Ricotta, 22 anos (“mas no ano que vem estou fazendo 21, é a síndrome de Peter-Pan”), mineiro de Itajubá radicado no Rio de Janeiro, ofereceu ao Rabisco a sua emergente coluna, que na época registrava uma popularidade em franca ascendência. A reação à proposta não foi bem recebida e durou exatos seis dias no grupo de discussão do qual fazem parte os colunistas fixos do site.
Mesmo reconhecendo a veia cômica de Ricotta, entre outros aspectos (como na seguinte observação, latente: “ele é do tipo que gosta de bancar aquele que todos amam odiar”), o fato de seus textos serem compartilhados por outros sites, o que vai na contramão da política do Rabisco de só publicar material inédito, além da acusação de que ele não praticava jornalismo, acabou por sacramentar a recusa.
“Sou escritor”, ele frisava na mensagem que escreveu oferecendo a coluna, e não jornalista. “Larguei [a faculdade] no meio porque jornalismo é uma parada do demo”, diz. “Faculdade pra quem curte escrever é a pior parada possível porque eles te preparam pra escrever do jeito que o tal do ‘mercado' quer... Faz mal pro seu processo criativo, saca?”. Saco sim.
Discussões a parte sobre a obrigatoriedade do diploma, o fato é que Ricotta virou uma versão underground de um Joelmir Betting pré-episódio do envolvimento na campanha publicitária do Bradesco, e que acabou manchando sua carreira. Se Betting tinha a Agência Globo para distribuir a sua coluna diária sobre economia para dezenas de jornais do país, hoje Ricotta é publicado em 13 sites, e chega a 30 mil o número somado de visitas únicas por dia em apenas dois deles (Sobrecarga e Whiplash!, eleito o site do ano pelo Prêmio Claro de Música Independente).
De outubro de 2004 para cá dobrou o número de pessoas que recebem a coluna por e-mail: são 25 mil internautas cadastrados no mailing de Ricotta. “Cara, eu saia catando endereço de e-mail, principalmente de sites, de pessoas que escrevem, de bandas”, explica. No Orkut, ele acaba de estrear o seu segundo perfil, porque o primeiro já estourou o limite de mil amigos conectados. A comunidade “Eu Leio Ricotta” já conta com mais de 400 membros.
“O Ricotta por algum motivo passou a me mandar os textos dele. Achei o material fantástico, original, divertido e o convidei a publicar no Whiplash!”, diz João Paulo Andrade. “Claro que por ser algo experimental demais, nem todo mundo tem cabeça para entender, muito menos gostar. O mundo seria melhor se todos fossem capazes de valorizar quem não segue padrões”. A originalidade também foi mencionada por Arthur Vecchi, do Sobrecarga.
Ainda no segundo semestre de 2005, Ricotta deve estrear no site da revista Dynamite. Outra revista, a Laboratório Pop, que publica a coluna em seu site, também vai trazer um texto dele na edição impressa. Nas palavras de Ricardo Alexandre “Guerrillero” , do site Dissonância, outro em que a produção de Ricotta encontra porto seguro, “o que é legal como repercussão em relação aos textos dele está na forma com a qual ele escreve. O pessoal dá retorno perante isso”.
Retorno que não vem só dos leitores, esses pobres mortais, mas também das redações. A revista TPM, versão feminina da descolada Trip, elegeu Ricotta o “cara mais chato da internet”. “Na verdade, tudo começou quando a Nina Lemos [da TPM e O2 Neurônio] uma vez ficou puta porque eu mandava texto pra ela quase toda semana”, ele explica, mas acaba entregando a verdadeira razão do título: “Foi um troco que rolou... Eu tinha zoado com elas [do O2 Neurônio] numa coluna”.
O Rio Fanzine, suplemento de cultura alternativa do diário carioca O Globo, que no ano passado compilou textos selecionados de seus 18 anos de existência em livro, publicou a cobertura do Tributo a Bob Marley feito por Ricotta. “Eu mandei ‘Medo e Delírio na Micareta' [um dos seus textos de maior repercussão] pro Carlos Albuquerque [do RF] e ele se amarrou”, diz.
Mas, afinal, sobre o que escreve Ricotta?
“Eu não sou crítico de música, não tenho gabarito pra isso. Eu apenas vou nos lugares, faço umas entrevistas idiotas e escrevo minhas impressões. Eu não escrevo “sobre música”. As pessoas costumam confundir. Eu não vou para algum show e fico analisando a banda, rotulando o som ou dizendo se é bom ou ruim. Sei lá o que eu faço. Eu escrevo Ricottas. E é isso aí”. Eis a fórmula do sucesso segundo seu criador.
A carreira de articulista social às avessas nas baladas roqueiras do Rio de Janeiro começou “quando as pessoas começaram a me dar credenciais de imprensa o tempo todo”, diz Ricotta. A negativa do Rabisco à publicação da coluna não foi uma exceção. Antes de conquistar espaço em mais de uma dezena de sites e conseguir certa fama no mundinho independente, “muita gente nunca deu bola”. Logo no início, quando um outro site paulista disse não à coluna, Ricotta resolveu seguir por conta própria. Parece que deu certo.
Qualquer semelhança com o jornalismo gonzo do saudoso Hunter S. Thompson não é mera coincidência. A própria “Medo e Delírio na Micareta”, de Ricotta, é uma citação direta à obra prima do autor norte-americano, Fear and Loathing in Las Vegas , adaptada para o cinema com Johnny Depp no papel principal. E até mesmo na forma de abordagem que o carioca utiliza para escrever suas matérias ele encontra inspiração no gonzo, essa técnica que ficou famosa na longínqua década de 60 por extrapolar a já próxima relação entre repórter e fonte estabelecida pelo jornalismo literário.
Hoje, em meio às aulas da faculdade de produção fonográfica e das atividades com a sua banda, Carol Azevedo (“acho que nós somos a banda mais foda que surgiu nos últimos 77 anos da história do rock. E falo isso num âmbito mundial e tal”), com CD, Democracia Chinesa (piada com o Chinese Democracy do Guns'N Roses, que nunca sai), prometido para breve, Ricotta anuncia um livro com a coletânea de suas melhores colunas e Ricottas Eróticas, “contos que ninguém sabe se são reais ou não”. A única pendência para o lançamento é a liberação da verba que é concedida pela lei de incentivo do governo.
Decreto o fim da entrevista com Ricotta, mas ele ainda encontra tempo e um jeito de soltar mais uma: “Agora que eu tava começando a liberar meu lado Gallagher, acabou? Que pena!”.
|