| A REDENÇÃO DE UMA GERAÇÃO
São Paulo retoma caminho das vitórias e conquista o tricampeonato da Libertadores
por
Rodrigo Herrero(
rodrigo@rabisco.com.br )

moção. Essa é a primeira palavra utilizada aqui para descrever a comemoração são-paulina com a conquista do tricampeonato da Taça Libertadores da América, depois de golear o Atlético Paranaense por 4 a 0. Após 12 anos de um hiato angustiante, em que apenas títulos inexpressivos foram obtidos, o choro contido e o grito preso na garganta desde a derrota para o Vélez Sarsfield, da Argentina, na final do mesmo torneio em 1994, extravasaram em forma de alegria e festa pelo Morumbi – estádio que agora passa a ser conhecido, na brincadeira dos torcedores, como MorumTRI. “Agora já pode por a placa com o novo nome”, disse, ainda no gramado, o atacante Amoroso, eleito pelos organizadores da competição o melhor em campo da finalíssima. Ele que chegou já na semifinal para substituir o contundido Grafite, e, de considerado “bichado” pela oposição do clube, é agora ovacionado como ídolo pela torcida.
Alívio. Este é outro sentimento que contribui para descrever a sensação de dirigentes, jogadores, comissão técnica e torcida. Isso porque, a fama de “amarelão” percorria o São Paulo nos últimos anos, pelo fato de o time não conseguir vencer as decisões que disputava. “Olha aqui o amarelão”, disse o superintendente do clube, Marco Aurélio Cunha, apontando para um dos troféus que segurava numa churrascaria no bairro do Morumbi, durante comemoração do elenco, que correu a madrugada. Sem falar na expressão cunhada pelo ex-jogador do Corinthians, Vampeta, que chamava o São Paulo de “time de bambi”: “Bambi é o cacete”, dizia com raiva Cunha, mostrando como aquela brincadeira jocosa com relação à postura dos jogadores irrita os tricolores até hoje.
Redenção. Essa palavra explica a retomada de uma equipe fadada a grandes conquistas, como foi o São Paulo de 1991 a 1993, que conquistou um Campeonato Brasileiro (91), duas Libertadores (92, 93), dois Mundiais Interclubes (92, 93), duas Recopas Sul-americanas (93 e 94), uma Supercopa (93) e, ainda, uma Conmebol com o time reserva, já em 1994, no rescaldo daquele grupo do técnico Telê Santana, que marcou história na vida do clube. Até o início deste ano o time havia conseguido apenas dois Campeonatos Paulistas (1998 e 2000) e um torneio Rio-São Paulo (2001) e vivia batendo na trave em anos recentes, perdendo na reta decisiva para Corinthians, Santos...
Experiência. O ressurgimento, porém, de um time vitorioso se deu agora em 2005, com muito mais atletas experientes, e de qualidade técnica bastante superior em relação ao que existia até então: “O forte desse grupo é a força de conjunto”, costuma dizer o treinador do escrete, Paulo Autuori, ao considerar o fato de haver um equilíbrio qualitativo em todas as posições do time titular, além de boas opções no banco de reservas. Autuori também teve papel importante por aglutinar o elenco, saindo dos holofotes e dos atritos com a diretoria do clube, corriqueiros no trabalho do técnico anterior, Émerson Leão, que comandou o São Paulo no início do ano, conquistando o Campeonato Paulista de 2005, e participando do início da campanha vitoriosa no torneio sul-americano. Autuori trouxe diálogo e também confiança para jogadores reservas como Alex e Souza, que melhoraram de rendimento.
Caminhada perfeita
Perfeição. Com nove vitórias, três empates e apenas uma derrota, pode-se afirmar que a campanha do São Paulo foi praticamente perfeita. Apesar de um início claudicante na fase de classificação, com empates fora de casa para equipes sem expressão, como os bolivianos do The Strongest (3x3), os argentinos do Quilmes (2x2) e os chilenos do Universidad (1x1), o time garantiu a vaga com tranqüilidade, e em primeiro lugar do grupo, com três vitórias folgadas em casa: 4 a 2 em cima dos Universidad, 3 a 1 contra o Quilmes e 3 a 0 contra o The Strongest.
Rivalidade. Nas oitavas-de-final, um confronto caseiro. O clássico contra o Palmeiras foi cercado de rivalidade e nervosismo, principalmente pela polêmica quanto ao local do jogo – se fosse no Palestra Itália, haveria risco de confronto entre as torcidas. Na primeira partida, realizada no campo do adversário, mesmo à contragosto, o São Paulo venceu por 1 a 0, gol de Cicinho, em chute de fora da área. Na partida de volta, realizada no Morumbi, o São Paulo, mesmo com um a menos, após expulsão do volante Josué, confirmou sua passagem à próxima fase com uma vitória de 2 a 0, num estádio tomado por tricolores fanáticos que empurraram durante a pressão palestrina. Gols do goleiro-artilheiro Rogério Ceni e Cicinho.
Tranqüilidade. Nas quartas o adversário seria o Tigres, do México. Primeiro jogo no Morumbi. As duas equipes chegavam para esse confronto sem terem perdido uma partida na competição. Mesmo com todo o retrospecto que parecia ameaçar a caminhada tricolor, o São Paulo não tomou conhecimento do oponente e aplicou uma goleada de 4 a 0, com dois gols de falta de Rogério Ceni. Luizão e Souza completaram o marcador. Na volta, viagem à Monterrey, cidade que fica quase na divisa com os Estados Unidos. O clima de deserto e da torcida fez Autuori aplicar um esquema tático mais defensivo, apenas com Luizão no ataque, guarnecendo à defesa para evitar uma surpresa que poucos imaginavam. O placar final de 2 a 1 para os mexicanos foi encarado com normalidade, naquela que seria a única derrota do time na competição.
Clássico. O confronto da semifinal avisava para todos o que deve significar a Libertadores: grandiosidade. São Paulo versus River Plate, Brasil versus Argentina, uma das maiores rivalidades da Terra colocada em campo por um dos maiores clássicos já disputados nos últimos tempos. Alimentada ainda mais pela vitória do River sobre o tricolor também numa semifinal, só que em 2003, pela Copa Sul-Americana, nos pênaltis, em pleno Morumbi, palco do primeiro jogo e, também, pela agressividade tola dos torcedores que quebraram vidros do ônibus da delegação argentina, que prometera revide em seu país. E dá-lhe pressão do time da casa, estádio repleto, porém nervoso com o árbitro, que deixava a peleja correr em demasia. Angústia pela ausência do gol. Até que, aos 31 minutos do segundo tempo, num rebote de um escanteio, o meia Danilo, um dos mais criticados pela torcida, apareceu para decidir e colocar o São Paulo em vantagem. Mas tinha mais, no finalzinho da partida o juiz fingiu não ver, mas o bandeira resolveu marcar: pênalti para o tricolor. Rogério Ceni cobrou no canto direito e deu a vantagem que praticamente decidiu a ida dos paulistas à final.
Confirmação. A volta do confronto apenas comprovou o que se esperava: pedras e hostilidade contra a delegação e torcida são-paulina. Dentro de campo o São Paulo se impôs e, com gols de Danilo (de novo decidindo no momento certo), Amoroso e Fabão, o time vencia pela primeira vez na história da Libertadores uma partida na Argentina. Mais um feito inédito alcançado por esse grupo de jogadores que estavam entrando para a história. Mas tinha mais.
Decisão. A final da Libertadores seria marcada pela primeira decisão de clubes do mesmo país, fato inédito desde 2000, quando o regulamento passou a prever tal possibilidade. Isso porque, até então, as equipes do mesmo país precisavam se enfrentar obrigatoriamente até as quartas-de-final. De um lado o São Paulo, apontado como favorito, com atletas experientes, já com títulos da Libertadores e até de Copa do Mundo (casos de Luizão, Júnior e Rogério Ceni). De outro, um verdadeiro azarão abarcava na finalíssima. O Atlético Paranaense disputava, na sua terceira participação na competição, a primeira final, desbancando times de tradição como o Cerro Porteño, do Paraguai, e favoritos, como o campeão brasileiro Santos e os mexicanos do Chivas. Mesmo assim, a disputa estava aberta, já que as últimas finais do futebol mostravam verdadeiras zebras – o próprio Once Caldas, colombiano campeão do torneio em 2004 era uma prova, ou mesmo o Liverpool, que chutou o rico Chelsea e o tradicionalíssimo Milan, alcançando a Copa dos Campeões.
Desorganização. O local da primeira partida da grande final só foi confirmado dois dias antes. Apesar da pressão da diretoria atleticana e da arquibancada tubular, construída de última hora na Arena da Baixada para se adequar ao regulamento, denominada de “puxadinho” pelo superintendente tricolor Marco Aurélio Cunha, o jogo foi marcado para o estádio do Internacional, Beira-Rio, em Porto Alegre, pois a Arena não comportava 40 mil lugares, como manda o regulamento da competição para as finais. Por tudo isso, o jogo foi nervoso e com muitas faltas, principalmente pelo lado do Atlético, que se retraiu e esperou uma falha do adversário para abrir o placar. E foi assim que conseguiu: após falha de Lugano e Cicinho, veio o contra-ataque e o cruzamento para a cabeça do centroavante Aloísio. Explosão de parte do estádio que estava mais vazio que cheio, pois poucos gaúchos quiseram ver de perto a final. Mesmo com o São Paulo tendo as melhores chances o gol só foi sair numa cobrança de falta de Júnior, que contou com a colaboração do goleiro Diego, que rebateu a bola na cabeça de seu zagueiro, Durval, que marcou contra o patrimônio: “Não desejo isso a ninguém”, disse dias depois o atleticano azarado.
Angústia. A final ficou mesmo para o Morumbi, que contou com a lotação máxima de 72 mil torcedores, 95% destes a empurrar o São Paulo com os gritos “É tricolor! É tricolor!”. A semana que antecedeu a peleja contou com provocações do técnico atleticano, Antônio Lopes, que inventava qualquer bobagem supostamente dita pelo elenco são-paulino para tentar motivar seus jogadores. E não deu certo. O São Paulo jogou para cima do oponente, marcou, correu, brigou, como há muito não se via, a não ser nessa própria Libertadores. O gol de Amoroso aos 16 minutos da etapa inicial tirou parte do sufoco da torcida, que fez uma festa bonita dentro do estádio. O time prosseguiu senhor do jogo, enquanto o Atlético caçava, desorientado, os atletas do tricolor na porrada. Mesmo assim, contaram com um erro do juiz argentino Horacio Elizondo, que marcou um pênalti de Alex em cima do Aloísio, sendo que a falta havia sido fora da área. Após muita reclamação, o uruguaio Lugano mostrou sua experiência e botou medo no batedor da penalidade, o jovem meia Fabrício: “O uruguaio é fogo. Ele chegou no Fabrício e disse que eu tinha estudado ele a semana inteira e sabia onde ele ia bater”, confessou Rogério Ceni após a partida. E foi assim, com a cabeça “balançada” pela responsabilidade, que o meia atleticano esbarrou no poste direito da meta paulista. Outro “gol” tricolor que deixou sua torcida em festa.
Campeão. O que se viu no segundo tempo foi uma aula de futebol, tanto de como se deve jogar quanto como não se deve. O São Paulo dominou amplamente a etapa final, demonstrando muito mais vontade e qualidade que os paranaenses. Não é a toa que o guerreiro Fabão marcou de cabeça, após escanteio de Cicinho, e chorou de emoção, vendo o estádio todo berrar seu nome. Lágrimas não faltaram também para Luizão, que em seu último toque na bola pelo São Paulo (o atleta vai jogar no Nagoya Grampus, do Japão) marcou um gol impedido (não visto pelo juiz), após grande jogada de Amoroso. “Foi o título mais importante da minha vida”, diria após a vitória o camisa 11 do tricolor. Enquanto o artilheiro marcava, o narrador da rádio Bandeirantes de São Paulo, José Silvério, decretava: “É o tri-gol do São Paulo, Tricampeão da Libertadores”. Mas ainda havia tempo para o garoto Diego Tardelli entrar e brincar: após passe do “leão” Mineiro, Tardelli deu um corte seco no zagueiro Durval (ele mesmo) e botou no fundo das redes, fechando essa que é a maior goleada numa finalíssima de Libertadores, empatada com a goleada, pelo mesmo placar, do Boca Juniors, da Argentina, sobre o Deportivo Cali, da Colômbia, em 1978.
Coroação. A festa que se viu nas arquibancadas e no gramado do Morumbi há muito não acontecia: “Valeu, pessoal. Ninguém mais me tira da história. Agora estou definitivamente na história do clube. Esperei muito por esse momento. Mais do que ninguém, eu precisava ganhar. Todos queriam, mas este é o time do meu coração”, falou o capitão Rogério Ceni, ao fim do jogo. Para o treinador Autuori, a conquista coroou todo o trabalho realizado pelo tricolor. “O São Paulo fez uma campanha maravilhosa e mereceu o título. Fomos os melhores neste torneio. A nossa torcida merecia o título, não apenas por ter lotado o Morumbi na final, mas pelo apoio que deu ao time durante toda a competição”, comentou.
Primeiro. Com o título, o São Paulo garantiu vaga no 2º Mundial de Clubes da Fifa, a ser disputado no Japão, entre 11 e 18 de dezembro, com os outros campeões de seus continentes. Até agora estão definidos o Deportivo Saprissa, da Costa Rica (representante da América do Norte e Central), o Sydney FC, da Austrália (representando a Oceania) e o inglês Liverpool, da Europa. Em novembro serão conhecidos os clubes da Ásia e África que farão parte da disputa. E se o São Paulo ainda está muito longe dos grandes vencedores da Libertadores, casos do argentino Independiente, com sete títulos, além do Boca Juniors e do uruguaio Peñarol, ambos com cinco, o time é o primeiro brasileiro a alcançar três conquistas continentais, além de ser, no país, o que mais disputou finais do torneio (cinco no total). Não é a toa que o hino do clube diz: “Entre os grandes és o primeiro”.
Com Diário Lance! e Folha On Line
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