| O ANO QUE NÃO ACABOU
1939 fez história com uma penca de obras-primas. Nenhum outro ano teve uma safra assim, mas 1999 chegou perto
por
Fernando Américo
(
feramerico@yahoo.com.br )
 ano de 1939 é mítico para o cinema. Vários filmes despontaram como obras-primas incontestáveis. Além de sucessos de bilheteria, estes filmes marcaram o inconsciente coletivo do público de maneira direta ou indireta. Basta olhar a lista dos indicados ao Oscar neste ano: E o Vento Levou... , O Mágico de Oz , No Tempo das Diligências , Ninotchka , O Morro dos Ventos Uivantes , Adeus Mr. Chips , A Mulher Faz o Homem , Vitória Amarga , Love Affair , Ratos e Homens .
E o Vento Levou... e O Mágico de Oz dispensam apresentações. No Tempo das Diligências é o nascimento do western como lenda, um faroteste arquetípico em que John Ford revela pela primeira vez a persona cinematográfica de John Wayne. Ninotchka foi o primeiro filme a revelar o sorriso de Mona Lisa, digo, de Greta Garbo, e também a confirmação do gênio do roteirista Billy Wilder ( Crepúsculo dos Deuses , Quanto Mais Quente Melhor ), trabalhando para seu ídolo Ernst Lubitsch, o mestre do timing na comédia cinematográfica. 1939 também foi o ano do romantismo trágico de O Morro dos Ventos Uivantes , com Laurence Olivier, tungado no Oscar de Melhor Ator pelo inglês Robert Donat, de Adeus Mr. Chips . Por sua vez, Adeus Mr. Chips é o protótipo dos “filmes de professor” como Ao Mestre Com Carinho , Mr. Holland – Adorável Professor e o melhor de todos, Sociedade dos Poetas Mortos , realizado também num final de década. Foi também em 1939 que Frank Capra deu ao mundo A Mulher Faz o Homem (mais uma homenagem da eternidade à inteligência dos tradutores de títulos de filmes: o original é Mr. Smith Goes to Washington ), filme que cimentou o mito do homem comum em James Stewart. A grande Bette Davis deixou sua marca em Vitória Amarga , filme que ela enfiou goela abaixo de Jack Warner, chefão da Warner Bros. – ele não acreditava que o público fosse querer ver um filme com uma mulher que está morrendo de câncer. Love Affair foi a matriz narrativa de um dos maiores clássicos românticos de todos os tempos, Tarde Demais para Esquecer , de 1957. E Ratos e Homens – talvez a mais descartável obra-prima de 1939 – é um filhote do realismo americano da década de 30, cujo maior representante é o autor da história original, John Steinbeck, premiado no ano seguinte com o superior Vinhas da Ira . E tudo isto apenas no Oscar de melhor filme… Houve ainda dois antepassados de Indiana Jones – Beau Geste e Gunga Din – e a quintessência do cinema de Howard Hawks, com Paraíso Infernal . Um grande clássico da literatura, O Corcunda de Notre Dame , teve uma versão ainda não superada, com o deliciosamente exagerado Charles Laughton. Rebecca , a estréia de Hitchcock em Hollywood estava em gestação, assim como o libelo de Chaplin contra o totalitarismo, O Grande Ditador , o primeiro filme de Hollywood abertamente anti-nazista.
Mais do que puro acaso, o ano de 1939 reflete o apogeu de Hollywood como fábrica de sonhos. A linguagem cinematográfica inventada por D.W. Griffith era constantemente aprimorada por cineastas do quilate de William Wyler, George Cukor e os já citados Lubitsch e Hawks. Os estúdios possuíam uma facilidade incrível para colocar o seu produto no mercado: afinal, eram donos da produção e da distribuição. Na década de 40, a América tinha mais cinemas do que bancos. Mas esta farra não poderia durar: como revela Otto Fiedrich em A Cidade das Redes , o Governo americano enquadrou os estúdios na lei antitruste. Isto, e mais a televisão, obrigaram Hollywood a investir no que tinha de melhor: a grandeza da tela do cinema, seu caráter de espetáculo, um tipo de performance nunca possível na tela minúscula da televisão. Começa a era do “quanto maior, melhor”: Cinemascope, Technicolor, épicos, de Quo Vadis a Ben-Hur (empatado com Titanic em número de Oscars ganhos: onze no total). Vale lembrar: Ben-Hur também foi feito num final de década: 1959.
Mas ninguém sabia disso em 1939. Tudo era alegria. O Mágico de Oz parece ser a metáfora perfeita para este encantamento. Talvez a frase mais marcante seja a de Dorothy, quando sai do celeiro para o esplendor das cores da Metro: “Toto, acho que não estamos mais no Kansas”. 1939 foi o gatilho que detonou Hollywood como uma locomotiva de sonhos a nível mundial.
Poderia uma outra safra de outra década igualar ou superar este feito? Vejamos: em 1949, a verdadeira revolução vinha do outro lado do Atlântico, com Rosselini, Vittorio DeSica e o neorrealismo italiano. Em 1959, Hollywood caía no domínio do cinemascope, do épico. Uma pérola deste ano é a comédia mais amada de Billy Wilder, Quanto Mais Quente Melhor (Jack Lemmon foi indicado ao Oscar e perdeu para Charlton Heston). Em 1969, o título do ganhador do Oscar de melhor filme era uma metáfora de como estavam os estúdios: Perdidos na Noite . Seria preciso uma nova geração para guiar o caminho, de Coppola a Spielberg, passando por Scorsese e Peter Bogdanovich: havia chegado a Era dos Diretores, que tinham poder, grana e ousadia para fazer o que quisessem. Mas esta Renascença não duraria muito tempo: em 1979, Michael Cimino fez falir a United Artists, com o fracasso retumbante de Portal do Paraíso . No Oscar deste ano, para se ter uma idéia, um melodrama familiar ( Kramer Versus Kramer ) conquistou a estatueta de melhor filme, numa disputa que incluía All That Jazz e Apocalipse Now . Começavam os anos 80 e a era Reagan, que em 1989 deu o Oscar a uma produção correta e facilmente esquecível: Conduzindo Miss Daisy . Todos estes finais de década só faziam brilhar ainda mais o conjunto da safra do ano de 1939. Até que o fim do século, e do milênio, chegou.
É até difícil de lembrar, mas no ano de 1999, o mundo vivia em pânico por causa de um suposto problema informático que poderia dar cabo de nossas vidas. Era o famoso Y2K, ou bug do milênio. O motivo? Aparentemente alguém tinha decidido há muito tempo atrás que seriam usados apenas dois números para representar os anos nos computadores (por exemplo, ao invés de 1970, escrevia-se só 70). Por causa da falta de dois números, a promessa era de que o Apocalipse ia se cumprir. Havia toda sorte de lendas urbanas: não se deveria estar num avião, por exemplo. Era o final do segundo milênio, mas todos nós dependíamos de algo maior que nós. No final do ano Mil, a Europa era balançada pela Peste e pelo obscurantismo da Igreja Católica; em 1999, as máquinas ameaçavam se revoltar contra seus donos. James Cameron já o tinha previsto em 1984, com O Exterminador do Futuro ; Fritz Lang, em 1922, com Metrópolis .
Em 1999, uma fábula assumiria o lugar de principal representação fílmica deste caos tecnológico e do medo que a humanidade tem de suas próprias criações: Matrix . Na época, a expectativa em torno do filme era ínfima, perto da volta de George Lucas e sua Guerra nas Estrelas – Episódio I: A Ameaça Fantasma . Mas o público gostou. Matrix levou quatro Oscars em 1999, deixando George Lucas de mãos vazias. A história é uma variação de Alice no País das Maravilhas , com direito a coelho branco e tudo. Este aspecto de sonho, de fantasia, liga o filme dos irmãos Wachowski ao grande conto de fadas de 1939, O Mágico de Oz . Em ambos os filmes, os personagens principais têm que escolher entre a imaginação e o real. Dorothy parte do insólito (o mundo colorido de Oz) para chegar ao real (voltar para o preto-e-branco do Kansas); Neo escolhe tomar a pílula vermelha e descobre que o mundo que o cerca é uma ilusão. Ambos acordaram de um sonho, mas ao contrário da menina, que descobre que não existe lugar como o lar, o hacker não gosta do que vê de olhos abertos. Dorothy reconstrói seu mundo, e Neo estilhaça o seu.
Essa sensação de o estilhaçamento, de quebra, de divisão, é o traço distintivo comum dos filmes de destaque em 1999. O Sexto Sentido o emprega de forma brilhante através do perfeito uso do ponto de vista dos personagens. M. Night Shyamalan gostou tanto do recurso que vive tentando repeti-lo, a maioria das vezes sem sucesso. Clube da Luta também criou esta quebra da realidade fílmica através do recurso “o que você viu não era bem o que você viu”, que chegaria ao Oscar em versão diluída através do burocrático Uma Mente Brilhante , alguns anos depois.
Tivemos algum E o Vento Levou... em 1999? Não, o Oscar de melhor filme do ano foi para Beleza Americana , sátira negra dos subúrbios americanos. O verdadeiro épico do fim do século XX foi Magnólia , um painel de vidas que se cruzam em um só dia, unidos por acontecimentos prosaicos e por cataclismas cósmicos – o ápice do filme acontece durante uma chuva de sapos. Sim, você entendeu bem: uma chuva de sapos. Alguém já disse que Magnólia é o primeiro filme realmente católico, o Ben Hur do subúrbio.
O grande épico de 1939 revelou também a maior atriz do ano: Vivien Leigh. Virtualmente desconhecida, chegando em Hollywood a tiracolo de Laurence Olivier, ela conquistou o papel mais desejado da década, enfrentou o preconceito do povo americano que viu uma inglesa ser escolhida para viver uma sulista, e triunfou a todos os níveis. Se E o Vento Levou... funciona, é graças a Vivien Leigh e sua heroína imperfeita.
Em 1999, uma atriz também chegou ao Oscar em seu primeiro filme importante: Hilllary Swank, vivendo também uma heroína imperfeita que também não mede as conseqüências de seus atos. Era a mulher que se vestia de garoto e ousava amar uma mulher em Meninos Não Choram . O efeito Hillary Swank foi tão devastador que atropelou até mesmo Annete Bening, indicada pelo filme vencedor, Beleza Americana . Para quem duvida do poder das safras de finais de década, vale lembrar que o Oscar do ano passado viu a mesma disputa entre Annete e Hillary, com nocaute de Hillary por Menina de Ouro.
1999 abriu as portas para a libertação de Hollywood da camisa de força da linguagem cinematográfica clássica à la Griffith. Antes, era necessário não confundir o espectador, explicar tudo direitinho, fazer da câmera o olho humano. Agora, a própria realidade fílmica incorporava o caos do fim do milênio. A mensagem é: não acredite em seus próprios olhos, não acredite no olho da câmera. A percepção dos sentidos pode ser enganosa. Em 2000, esta sensação é materializada no ultimo grande film noir da década: Amnésia . Através de um personagem com problemas de memória, o filme conta uma história de suspense onde o verdadeiro segredo está em sua origem. A sensação de atordoamento cinematográfica alcançada com Amnésia só foi conseguida antes em Um Corpo que Cai , construído em cima do medo de altura, e lançado no ano de 1958 – um final de década também.
O ano de 1999 foi tão extraordinário para o cinema que até mesmo uma história surrealista como Quero Ser John Malkovich encontrou seu lugar ao sol – o filme foi indicado a três Oscars, incluindo Melhor Diretor. Parecia que Hollywood tinha entrado no novo milênio de pé direito, com uma nova direção estética e uma liberdade de linguagem nunca vista antes. E aí é que entra a grande ilusão dos números: o ano de 2000 não foi o início do século XXI. Na verdade, ele começou em 11 de setembro de 2001. Os acontecimentos deste dia mudaram nossa percepção do que era ficção e realidade, e assim, Hollywood se viu ultrapassada pelos acontecimentos. O que será que 2009 nos reserva? |