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Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
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6 a 21 de agosto de 2005

Equipe Ediηυes Anteriores

"ESCREVER É MEU VIDEO GAME"
A jovem e talentosa Ana Paula Maia conta em entrevista exclusiva porque ela é uma das escritoras que estão refazendo a literatura nacional
por Guto Prado ( gutopd@yahoo.com.br)

u havia acabado de entrar num bar pé de chinelo que tocava um blues de primeira qualidade, perdido numa cidade chamada Conceição do Ibitipoca, (quase improvável de se chegar sóbrio, porque a subida até lá é coisa de doido). Uma típica região de hippies, gente que curte a natureza, encravada nas Minas Gerais, enfim... Isso numa noite invernosa de sábado. Num canto, sentada numa cadeira com os pés apoiados pra cima e batucando com as mãos a música que rolava, acompanhando o jogo de sinuca dos marmanjos que visitavam a cidade, conheci Ana Paula Maia. Uma garota descolada, cara de boa gente e um sorriso iluminado.

Ela reclamava do frio e não parava de beber vinho. Disse que havia tomado até mesmo cachaça de gengibre, horrível, segundo Ana, e nada a esquentava. Descobrimos estudar na mesma universidade, no mesmo bloco. Ela fazia comunicação, eu cinema. Li seu primeiro roteiro sobre um entregador de pizza que deixou a turma do cinema embasbacada. Foi bastante elogiado na faculdade e teve no elenco de sua adaptação Cândido Damm, Isadora Ribeiro, Antônio Pedro e Ricardo Petraglia. Depois, um monólogo para um sujeito de 50 anos, o mesmo Petraglia do curta, e ela deu conta do recado outra vez. Era texto de macho, daqueles que coçam o saco, cospem no chão, comem putas. Depois veio seu primeiro romance, O Habitante das Falhas Subterrâneas , outro macho narrando; contos de machos e assassinos... Ela virou tópico numa monografia de um curso de letras, algo do tipo "inversão de sexo na construção do texto literário" ou quase isso. Tem 27 anos e uma literatura que pode causar certa estranheza, e assim vai se destacando nesse cenário disputado. O resto, ela pode contar melhor.

– Ana, sei que teu primeiro texto foi o roteiro de um curta-metragem que caiu no gosto de algumas pessoas e foi rodado sem ser concluído. Eu o li na época e já podia prever o que veria pela frente. Por que sempre narrando em pessoa masculina?

Ana Paula – Eu não sei explicar, é péssimo dizer isso, mas a coisa sai desse jeito aí. Eu te disse uma vez que não entendo muito as mulheres, sempre preferi os homens em minha vida e acho que é a experiência e a convivência com eles, a empatia.

– L i O Habitante das Falhas Subterrâneas faz pouco tempo por não saber que você havia publicado. O livro me encantou, até porque Ariel é um dos personagens mais interessantes que já conheci. Por que você escolheu essa narrativa, esse personagem em especial?

Ana Paula – Bem, quando decidi escrever Habitante , eu havia terminado parte do monólogo para o Petraglia e precisava registrar esse livro que estava programado havia algum tempo. Ele é ficcional, mas traz registros da minha adolescência e a convivência com alguns amigos. Experiências essas, como o suicídio de um amigo, um sujeito gente boa, trabalhador, e que por algum tempo fomos próximos até. Ele estourou os miolos, mas antes disso ele se desculpou com todos que conhecia, inclusive comigo, por qualquer troço que ele pudesse ter feito de ruim. Uns dois meses depois ele se matou com um tiro na cabeça, usando uma bala dum-dum ajoelhado dentro do quarto. Ele queria mesmo aquilo, entende? Eu tinha 17 anos na época e uma coisa dessas te deixa bem confuso. Isso eu conto no livro, preservando a identidade do rapaz. É algo que não se esquece nunca. Isso compõe parte do Ariel, essa confusão e diálogo interno. Esse suicídio me trouxe à tona o próprio Ariel. Como alguém programa a própria morte com tanta antecedência, com tantas minúcias e certeza de execução? Eu não sei e acho que escrevi este livro pra tentar entender ou amenizar isso.

– Logo depois de lançar seu primeiro romance, você foi convidada para compor o time das 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira , antologia organizada pelo escritor Luiz Ruffato. Como foi isso?

Ana Paula – Eu nem sabia se sabia escrever quando recebi o convite, mas aceitei, oras. E senti um certo peso sobre os ombros de entrar pra esse time e ao mesmo tempo uma felicidade. E para esta antologia eu escrevi um conto em primeira pessoa feminina. Eu gosto do conto, foi um bom experimento, mas decidi ficar com os rapazes. Me entendo melhor com eles.

– Você está em outra importante antologia organizada na Itália, Sex´n´Bossa composta de vários nomes que estão despontando na literatura brasileira como Daniel Galera, Joca Reiners Terron, Marcelo Mirisola, Nelson de Oliveira, Ivana Arruda Leite e nomes como os do consagrado João Gilberto Noll, Hilda Hilst e Campos de Carvalho. Eu li o seu conto publicado nessa antologia chamado "Não se Deve Meter em Porcos que Não Te Pertencem", escrito num estilo pulp, direto e muito divertido. Fale um pouco disso.

Ana Paula – É um baita time de gente muito boa, muita responsabilidade também. Ser abordada por uma agente européia é coisa boa demais, meu filho, pode apostar, e ser publicada lá melhor ainda. Esse conto faz parte de uma trilogia e só foi publicada a primeira parte dele. É muito violento, mas divertido. É um outro estilo que tenho experimentado (e gostado) e provavelmente as histórias darão numa novela. São homens rudes, brutos mas com solidariedade na alma. São tipos embrutecidos com o tempo. São matadores de porcos. Você já viu um porco ser castrado, morto? É terrível. Ninguém pode conservar sanidade depois de praticar isso por alguns anos.

– Pode-se perceber que você é bem diferente de suas colegas de geração. Seus textos se destacam pela condução da história, da firmeza que você tem sobre o texto e os ótimos diálogos. Percebi isso em tudo que você escreveu até agora, inclusive no conto dos porcos. De onde vêm esses diálogos?

Ana Paula – E u falo, meu filho. Você sabe disso. Eu falo pelos cotovelos, falo demais até ficar rouca. Eu gosto de falar e ouvir. Dialogando é a melhor maneira de se aprender a dialogar. Eu sempre dialogo com os personagens e vou arrancado deles e eles de mim as histórias. Quanto a ser diferente, eu não sei quem se parece com quem. Nunca penso nisso ao escrever, muito menos quem está falando. Homem ou mulher. Escritor não tem sexo, se tem, fica limitado. A gente escreve aquilo que tá trancado, entende? Atolado em algum lugar dentro da alma, e ficamos lá diante do papel ou da tela tentando pescar algumas palavras, frases, significados enlameados. Escrever é emergir. Mas confesso que não consigo ver uma mulher dizer as coisas que saem da minha cabeça ou do meu coração na maior parte do tempo. Acho que passei tempo demais com os meninos.

– É verdade que a sua primeira tentativa literária foi o romance O Habitante das Falhas Subterrâneas ? Que antes disso você nunca havia escrito nenhum conto, ou novela, ou diários?

Ana Paula – É verdade. Tudo que havia escrito até então tinha sido um roteiro para curta-metragem e a metade de um monólogo. Habitante foi meu primeiro texto literário, executado em dois meses e meio. Uma pauleira.

– Você lançou recentemente um livro de microcontos, Sexo, Drogas e Tralalá com mais dois amigos, Thiago Picchi e Fábio Fabrício Fabretti. O que você achou da iniciativa?

Ana Paula – Bem legal. De cara eu não topei em participar porque não achava que conseguiria escrever esses micros, porque concisão é uma coisa com a qual eu brigo. Quer dizer, já deixei de brigar faz um tempo. Mas eu fiz alguns, eles gostaram e eu topei participar mesmo. E acabou sendo publicado, saiu pela editora 7 Letras com um acabamento charmoso, faz pouco tempo. É um trabalho entre amigos, despretensioso, regado a muita conversa fiada e algumas barras de chocolate.

– Pra encerrar nosso papo, muitos escritores dizem sofrer para criar seus textos, produzir sua obra. O que é escrever pra você e qual a sensação disso. Você sofre também?

Ana Paula – Eu sofro quando tenho cólicas ou quando tomo uma injeção de vitamina intramuscular, naquelas vermelhas, que entra rasgando teu braço e você sente a dor lá na ponta dos dedos. Isso é sofrer. Escrever é meu videogame.