| FILHOS DA DITADURA
Três filmes de três países sobre o mesmo problema: a ditadura militar na América Latina
por
Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )
 os anos 80, dois filmes começaram a “cutucar” as feridas de um passado não tão distante – os governos militares que haviam dominado alguns países na América Latina desde o final dos anos 60 até então, instaurando um ambiente de repressão extrema e generalizada. Missing – Desaparecidos , do grego Costa-Gavras, mostra o drama dos membros populares da oposição que sumiram durante o golpe que derrubou Salvador Allende, no Chile; e A História Oficial , de Luis Puenzo, mostra de forma contundente todas as mazelas sofridas pelo povo argentino durante sua experiência ditatorial. Sem nenhum filme de grande relevância após esse período, parecia que o assunto tinha perdido um pouco sua importância. Ou então a força desses dois filmes havia intimidado a nova geração de diretores disposta a oferecer outra leitura sobre o tema.
Machuca e Vozes Inocentes , de 2004, e Kamchatka , de 2002, mostram que ainda é possível fazer bom cinema desnudando a culpa e os medos de um povo acuado dentro do próprio país. Os três filmes partem do olhar infantil em meio a conturbadas manifestações políticas para lançar uma nova luz de entendimento, compartilhar idéias ou desengavetar memórias da época. A infância, época da “inocência” e da “pureza”, é transformada quando em contato, direto ou indireto, com uma guerra da qual as crianças, vítimas inocentes, não fazem parte. Partindo de fatos autobiográficos, os filmes procuram mostrar, ora de forma sensível, ora de forma exagerada, as descobertas desses pequenos cidadãos em um “mundo adulto”, que parece ser insensível diante do sofrimento e da dor.
Machuca , do chileno Andrés Wood, baseia-se nas memórias do diretor para contar as idiossincrasias de dois mundos tão díspares entre si: a elite dominante, representada pelo “burguês” Gonzalo, e o proletariado, que vive à margem da sociedade, representado por Pedro Machuca. As duas classes se chocam no Chile de 1973, às vésperas do golpe que viria derrubar Allende e iniciar o mandato de Pinochet. Gonzalo e Machuca, ambos com onze anos, freqüentam o mesmo colégio devido às idéias progressistas de um padre americano, que coloca crianças menos favorecidas para dividir a mesma classe com herdeiros de famílias abastadas. Em meio às diferenças, os protagonistas tornam-se grandes amigos. Através de Machuca, Gonzalo encontra um mundo de precariedades, onde sobrevivência e dor são faces da mesma moeda. Com muita sensibilidade e sutileza, Andrés Wood conduz seus personagens em um emaranhado de sentimentos e transformações que refletem a própria situação do povo chileno.
Kamchatka , do argentino Marcelo Piñeyro, conta a história do pequeno Harry, um garoto de dez anos que leva uma vida normal na Argentina dos anos 70, como qualquer outro da sua idade. Tudo muda quando seus pais são perseguidos pelo governo militar e precisam se refugiar em uma fazenda no interior do país. Não sabemos ao certo o motivo pelo qual seus pais são perseguidos; tudo o que vemos, entendemos ou presenciamos é mostrado através do olhar de Harry, que sofre com os erros cometido pelos adultos. Triste e melancólico, Kamchatka , cujo nome vem de um território de um jogo argentino tipo War, é usado como metáfora para a resistência, pois no jogo, simboliza o último ponto estratégico a ser conquistado.
Em Vozes Inocentes , de Luis Mandoki, o pequeno Chava é um moleque de onze anos perdido na guerra civil que tomou conta de El Salvador do início dos anos 80 até o início dos 90. Crianças que completavam doze anos e mal conseguiam segurar uma arma eram recrutadas ou pelo exército, intervindo na crise, ou pela guerrilha. Em meio a tantos contratempos, Chava procura manter o espírito forte e vencer as adversidades que se interpõem no caminho. Baseado na vida do roteirista Oscar Torres, Vozes Inocentes peca por um certo exagero, com algumas imagens fortes e sensacionalistas, que sacrificam a sutileza necessária para contar uma história que, por si só, já é cheia de crueldades.
Através desses filmes podemos conhecer e refletir sob um pedaço da história que nós, latino-americanos, esquecemos ou ignoramos. Fazemos parte de um mesmo povo que, mesmo separado por anos de desenvolvimento independente, sofreu simultaneamente com ditaduras militares (e que ainda sofre, com outras, veladas). Machuca, Gonzalo, Harry e Chava fazem parte dos pequenos heróis silenciosos que pouco ou quase nada podem fazer para mudar os acontecimentos que os rodeiam. Oferecem olhares fragmentados, que precisam se adaptar aos novos tempos, amadurecendo com uma rapidez desnecessária e perigosa. Nas palavras de Marcelo Piñeyro, diretor de Kamchatka , “ o olhar de um garoto é necessariamente inocente e, se o espectador aceitar o convite para compartilhar esse ângulo, tem a chance de desvencilhar-se de seus preconceitos, voltar a ver, refrescar o olhar". 
|