| UM ARTISTA NO UNIVERSO PARALELO
Última incursão musical de Lobão, repleta de bons frutos, tem tudo para ser mais um álbum esquecido, porém brilhante
por
Luiz Rebinski Junior
(
jrrebinski@yahoo.com.br )
 pós seis anos sem gravar um disco de músicas inéditas, Lobão retorna à cena com o soturno Canções Dentro da Noite Escura . A última incursão musical do hoje já veterano Lobo é aquilo que o verborrágico Lobão chamaria de uma odisséia pelo lado negro do Leblon, famoso bairro carioca. Como Dalton Trevisan fez com a ficcional Curitiba de muitos livros, Lobão apresenta um Rio de Janeiro à sua maneira.
Encartado em outra criação sua, a revista Outracoisa , o disco traz, com ainda mais intensidade, o clima intimista e conceitual do excelente A Vida é Doce , álbum de 1999 vendido também em bancas de jornal. Dedicado aos mortos – Julio Barroso, Cazuza e Cássia Eller, por ordem de falecimento –, Canções Dentro da Noite Escura é o canto do cisne de um artista que se diz sozinho no seu oficio.
Entre explosões e distorções de guitarra e dedilhados delicados de violão, Lobão constrói um disco compacto do começo ao fim, coerente em si. Desde a primeira faixa, “Pra Sempre Essa Noite”, que o cantor fala das ruas do seu Leblon e dos arranha-céus da cidade maravilhosa, o peso das guitarras está lado a lado com as melodias singelas e calmas. “Seda”, cuja letra inédita veio do espólio do amigo Cazuza, fala sobre um Bob Dylan invisível, sem segredos. Foi um presente da mãe do ex-vocalista do Barão Vermelho, Lucinha Araújo, a Lobão, um dos principais parceiros de Cazuza. Com o consentimento de Lucinha, Lobão deu um desfecho às palavras escritas pelo poeta. Já em certos trechos do disco, como na ótima “Balada do Inimigo”, Lobão lembra o jeito falado de Lou Reed cantar. A letra quilométrica é despejada com desespero pelo músico.
Realizado e produzido basicamente por apenas três músicos – Carlos Trilha, Fernando Morello e o próprio Lobão –, Canções Dentro da Noite Escura mescla com eficiência a programação de bateria aos teclados inconfundíveis de Trilha, famoso por seu trabalho com a Legião Urbana . Os recursos eletrônicos, abundantes em praticamente todas as músicas, poderiam assustar os mais conservadores, sedentos por rasgados acordes de guitarra. Não é o que acontece. Lobão soube dosar os artifícios mais experimentais aos instrumentos tradicionais do rock – incluindo aí os violões bossa-nova. Em “Aí Galera Maluca!”, que traz a meteórica participação do cartunista Adão Iturrusgarai, Lobão e sua trupe flertam com a surf music . A música instrumental lembra muito o som do ícone do estilo, Dick Dale.
As outras homenagens do disco, a Cássia Eller e Júlio Barroso (“Boa Noite Cinderela” e “Quente”, respectivamente), são boas pedidas também. Com destaque maior para a segunda, feita em parceria com o próprio Barroso e que, reza a lenda, foi a última letra escrita pelo líder da Gang 90. Em “Tranqüilo”, outro bom momento do disco, acordes de violão podem ser percebidos por traz das barulhentas guitarras. Como no disco anterior, Canções Dentro da Noite Escura apresenta também sua balada. Dedicada a Regina Lopes, mulher do artista, “Você e a Noite Escura” é uma música romântica ao melhor estilo Lobão, sem pieguices mas com uma boa dosagem de sentimento nas palavras. A homenagem à mulher já havia aparecido na bonita “Te Levar”, do álbum anterior.
Aliás, a ingenuidade do artista parece ter ficado mesmo lá nos anos 80, quando o ainda Lobinho, recém-saído da bateria da Blitz e do malfadado grupo Vimana – do qual faziam parte Lulu Santos e Ritchie – , cantava versos à Jovem Guarda. De lá para cá, pode-se dizer que Lobão se tornou um artista sofisticado. Após o estrondoso sucesso de Vida Bandida , que trazia hits até hoje cantados em uníssono, como “Chorando no Campo” – gravada pelo Ira! no disco Isso é Amor – e o período em que ficou na geladeira do rock nacional, parece que Lobão resolveu remodelar sua concepção do rock, partindo para um som revigorado e infinitamente mais ousado. Para quem acompanha a carreia do artista, Canções Dentro da Noite Escura não assusta. O disco nada mais é do que o aprimoramento de uma idéia, lançada há mais de uma década com um disco ignorado pela crítica e pelo público chamado Nostalgia da Modernidade . O álbum, colocado na praça em meados de 1995, traz um artista menos porra-louca, concentrado no samba, sem esquecer, certamente, a guitarra e o espírito rock'n'roll. Há mais de uma década Lobão é um artista que destoa na cena musical brasileira. Seja pelo engajamento político na luta contra o monopólio das grandes gravadoras, seja por ações que vão contra o pré-estabelecido, Lobão figura como um contestador solitário em uma cena cujos artistas fazem apenas o básico – gravam seus discos, aparecem em programas de TV e fazem shows. E musicalmente não é diferente. Canções Dentro da Noite Escura é a resposta de um artista que se recusa a viver do glorioso passado. E mais, um artista inquieto, que não se conforma com o que já foi feito.
Um dos aspectos que mais chama a atenção no artista Lobão é que sua rebeldia, ao mesmo tempo em que o deixa fora do grande esquema da música, o faz popular. Tão popular que, mesmo botando a boca no trombone, uma de suas novas músicas, “Seda”, foi a trilha sonora escolhida para fechar uma das edições do Fantástico, um dos programas mais populares do país. Tudo bem que os créditos do feito devem ser direcionados ao editor do programa, Álvaro Pereira Júnior, um apaixonado por música pop. O que, diga-se de passagem, não tira o mérito de Lobão – que também não deve estar preocupado se aparece ou não no Fantástico. Seu último disco certamente não venderá horrores e não tocará no rádio – nem mesmo nas emissoras especializadas, as rádios rock do Brasil. As músicas do álbum não são para tocar em rádio. Aliás, Canções não é um álbum fácil de degustar. É um disco para ser escutado do começo ao fim, sem interrupções. Pois a unidade é seu grande trunfo.  |