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6 a 21 de agosto de 2005

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LETRA NÃO TEM COR
Em Preconceito Lingüístico – O que É, Como se Fa z, Marcos Bagno universaliza o falar e o escrever
por Cell Blan (cellblanc@yahoo.com.br )

m Preconceito Lingüístico – O que É, Como se Faz , Marcos Bagno denuncia a série de mitos infundados que entram na composição do preconceito lingüístico que vigora na sociedade brasileira. Desmascarando uma por uma essas falácias, o autor mostra de que maneira a mídia e a multimídia, na contramão dos estudos científicos atuais sobre a linguagem, estão colaborando para perpetuar e aprofundar esse preconceito.

A língua portuguesa falada no Brasil, diferentemente do que muitos pensam e atestam, não apresenta uma unidade surpreendente. Ela depende de fatores como idade, origem geográfica, situação socioeconômica e nível de escolarização do indivíduo. Estes elementos permitem o surgimento de um português não-padrão, com sua gramática particular, que é distante da norma culta pregada pela gramática.

As pessoas dão nova vida às palavras, e acabam não conseguindo, muitas vezes, entender o português dos letrados, dos intelectuais. Estes têm orgasmos sucessivos ao alegarem que brasileiro não sabe português, que só em Portugal se fala bem português. Ora, os brasileiros sabem português – o português brasileiro – com todas as suas variantes. Não se pode esperar uma escrita e uma fala equivalente à de um povo que vive a centenas de quilômetros daqui – nós mesmos, entre brasileiros, não falamos de maneira igual. Os portugueses, como nós, modificam a língua de acordo com suas necessidades; o sotaque, a pronúncia das palavras, seu significado. As gramáticas portuguesas são encarregadas de ditar a maneira como os brancos europeus utilizam o português cultuado pelos intelectuais de séculos atrás. Marcos Bagno desmistifica a alegação de que português é difícil, lembrando aos leitores de que uma criança entre os três e quatro anos de idade já domina perfeitamente as regras gramaticais de sua língua. O que ela não conhece são os trejeitos específicos, as sutilezas, sofisticações e irregularidades que permeiam essas regras; isso só vem mais tarde, com a leitura e o estudo. Um estrangeiro tem muita dificuldade em aprender uma nova língua porque não nasceu e cresceu rodeado por ela, tendo assim muito mais trabalho para conhecer seus princípios básicos de funcionamento. Isso ocorre com as pessoas que não têm instrução: elas não falam errado, mas não têm domínio dos aspectos fundamentais da linguagem e acabam por utilizar variantes não-padrão para se expressar. Por exemplo, trocam letras nas palavras devido a questões sociais e políticas, e não lingüísticas.

O rotacismo não deve ser acusado de “corromper” a língua portuguesa, e nem deve ser alvo de preconceito por parte da sociedade e da mídia – que sempre estabelece rótulos em relação às regiões do país, e curiosamente muitas vezes aponta o Maranhão como o lugar onde melhor se fala português no Brasil. Ora, já se sabe que não há local onde “melhor” se fala a nossa língua, e Marcos Bagno atribui ao Maranhão essa falsa denominação devido ao fato de que lá ainda se usa com regularidade o pronome tu. Esse uso muitas vezes também não é adequado à norma culta, e recai em “erros” tão iguais aos do resto do país.

A alegação de que é certo falar de uma maneira porque se escreve daquela maneira também é indevida, pois o fenômeno da variação faz com que sejam criados sotaques, diferentes formas de falar as expressões correntes. O que deve ser mantida é a escrita das palavras, dando margem a variações na fala da mesma. A fala surgiu muito antes da escrita, e não seria agora que esta deveria seguir os padrões gramaticais da norma culta. Aliás, Bagno contesta a afirmação de que é preciso saber gramática para falar e escrever bem. Se assim fosse, os professores de português estariam no topo da pirâmide social, ganhando altos salários e gozando de um prestígio enorme, coisa que não acontece na visão da sociedade. Utilizando conceitos básicos de gramática e modificando muitas de suas estruturas é possível enriquecer a língua, transformá-la e dar a ela uma vivacidade que acompanhe as necessidades sociais; muitos poetas e romancistas só atingiram sucesso e reconhecimento ao trabalharem com essas alternativas. O domínio da norma culta não é necessariamente um instrumento de ascensão social; um fazendeiro que tenha apenas alguns anos de estudo mas que seja dono de grandes propriedades e cabeças de gado pode utilizar à vontade a sua língua de “caipira”.

Esses equívocos são transmitidos e perpetuados em nossa sociedade por um mecanismo que podemos chamar de “ círculo vicioso do preconceito lingüístico” , que é composto pela gramática tradicional, métodos tradicionais de ensino e pelos livros didáticos. A gramática tradicional inspira a prática de ensino, que por sua vez provoca o surgimento da indústria do livro didático, cujos autores recorrem à gramática tradicional como fonte de concepções e teorias sobre a língua. Há também um quarto elemento – comandos paragramaticais – que representam o arsenal de livros, manuais de redação, programas de televisão e de rádio, colunas de revista, e perpetuam as velhas noções de que brasileiro não sabe português e de que português é muito difícil.

Marcos Bagno questiona autores de outros livros e tenta retratar a realidade lingüística brasileira para tecer suas opiniões no livro. Ele considera que a língua é dinâmica, e que a portuguesa sofre variações como tantas outras. O uso de gírias, palavrões, e variações muito gritantes deve ser utilizado em contextos apropriados, assim como a norma culta, que necessariamente não precisa ser modelo em todas as ocasiões; O autor de Preconceito Lingüístico deixa claro na obra que a língua não depende da gramática, mas é retratada, em partes, nela. O indivíduo é acometido de fatores externos à língua portuguesa ao escrever e falar, e são esses fatores regionais, econômicos e sociais que tornam a língua portuguesa tão rica e densa como a que vemos hoje. A autonomia do sujeito é decisiva na formação de sua cultura, inclusive a lingüística.