| GENÉRICA SIM, MAS NEM UM POUCO SIMILAR...
Rita Maria lança Fora de Órbita e mostra que é possível fazer MPB com independência e uma cara própria
por
Conrado Falbo conradofalbo@yahoo.com.br )
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| Foto:
Zé De Boni |

ive contato com a obra da cantora e compositora paulista Rita Maria por obra e graça de uma confusão. Tudo começou lá pelos idos de 2003, quando o rebento mais novo de Elis Regina podia ser ouvido em todas as rádios e era, sem dúvida, o lançamento musical mais badalado e comentado do ano.
Quando finalmente comprei o disco para checar por mim mesmo o falatório em torno daquela estreante de linhagem ilustre na MPB, fui pesquisar também na internet algo sobre ela. E foi aí que dei de cara com algumas músicas não incluídas no disco, apesar de estar bem visível a indicação da cantora “Maria Rita” como intérprete.
Nessa época, a atual Rita Maria ainda usava o nome artístico invertido, confundindo os ouvidos ávidos de muitos órfãos da grande intérprete gaúcha que ansiavam por escutar sua filha caçula, então homônima desta outra Maria Rita. Em tempos de mp3, quem não presta muita atenção pode levar gato por lebre, mas enganos ocasionais são inevitáveis - ainda bem! Nos primeiros acordes percebi o erro: não era a Maria Rita que eu esperava. Mas, longe de me decepcionar com a troca de cantoras, fiquei animado com a descoberta de uma voz e de uma identidade artística que mereciam escuta atenta.
A confusão de nomes foi parar no Programa do Jô e eu fui parar no site da tal Maria Rita, a outra... Lá, descobri que ela tinha invertido o nome para Rita Maria e se assumindo como “cantora genérica” numa espécie de crônica-manifesto que colocou no ar como explicação para a mudança. Nossa Maria Rita, já aqui Rita Maria, saiu pela tangente bem a tempo de escapar de um nó de comparações que começava lá em Elis Regina e criava um obstáculo perfeitamente dispensável na carreira da talentosa Maria Rita, a Mariano. Este “rebatismo” permitiu que os novos apreciadores pudessem ouvir Rita Maria livres de preconceitos, percebendo sua obra por qualidades intrínsecas, sem falsas cargas genéticas envolvidas.
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| Foto: Zé De Boni |
Armada de um CD demo e um show que vinha realizando em São Paulo para mostrar suas composições, a cantora batalhava apoio para gravar o sonhado primeiro disco. Paralelamente a esta luta, Rita Maria nunca deixou de desenvolver seu trabalho como professora de canto, regente de corais e integrante do grupo vocal Trilha e do Coralusp. Sua trajetória, bem conhecida de artistas que fogem ao estilo “MPB de bolso”, praticado exaustivamente pelas FMs e gravadoras Brasil afora, descambou na trilha independente, quase sempre a única saída disponível para este tipo de empreitada. Finalmente, o projeto do disco que já vinha maturando com os shows e as músicas foi concretizado com o lançamento de Fora de Órbita , produzido de forma independente e com distribuição do selo Tratore. Quase todas as canções são de sua autoria, revelando uma competente melodista e letrista, que foge das fórmulas mais óbvias sem deixar de ser acessível a todos os ouvidos. A parceria musical com o violonista Zeca Loureiro rendeu arranjos criativos, de um minimalismo que é o avesso do simplório. Todas as músicas foram construídas tendo como coração o duo entre voz e violão, que vai muito além do mero acompanhamento. A estes protagonistas, se juntam a percussão e o baixo, com intervenções de outros instrumentos numa música ou noutra.
O disco tem uma sonoridade muito própria: homogêneo, mas diversificado. Algumas das músicas mudam de compasso, evoluindo ritmicamente e marcando bem as intenções da letra, como “Noite que Não Preenche” e “Fora de Órbita”. O timbre agudo da cantora casa bem com as baladas delicadas que compõe, mas também não faz feio no xote “Pé Calejado”. Nas duas únicas composições alheias do disco, a marca continua sendo a autenticidade. Como introdução para “Maçã do Rosto” ela escolheu o tema instrumental “Ponteio”, de Antônio José Madureira, do Quinteto Armorial (hoje Quarteto Romançal), que vai se integrando ao conhecido baião de autoria do alagoano Djavan. “Nego Maluco”, da dupla Edu Lobo e Chico Buarque, ganhou uma releitura suingada bem ao estilo samba-jazz, numa brincadeira com a letra. Falando em Buarque, Rita Maria participou do espetáculo Palavras de Mulher , sobre o universo feminino na obra do compositor.
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| Foto:
Samuel Perella |
Ao fim do disco, ficamos com a sensação de que a mesmice de que padece a música brasileira atual é somente uma questão de ouvir melhor, procurando estes artistas – “genéricos”, como Rita Maria – que vêm produzindo trabalhos de qualidade sem condições de entrar no esquema das grandes gravadoras justamente por teimarem em ser originais. A música brasileira sempre teve jeito, quem precisa tomar jeito é esta pasteurizada indústria cultural que o Brasil importou. |