| AQUELES QUE ESCREVEM
Novo site de ciberliteratura propõe um mesmo tema para desafiar novos autores
por
Marcel Nadale ( mnadale@rabisco.com.br )
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| Renata Correa |
o ponto de vista econômico, a bolha da internet estourou há muitos anos. Mal compreendida a princípio, a nova mídia que prometia salvar o mundo dos negócios não conteve o próprio inchaço artificial. Sites comerciais quebraram e a lição foi aprendida. Ou não? Há quem espere um novo estouro da bolha; um “ploc” mais lento e silencioso, desta vez do ponto de vista cultural. Proclamada fórum ideal dos aspirantes a escritores, a internet está saturada de blogs, coleitvos e e-zines (como o próprio Rabisco ) cada vez mais parecidos entre si. A democratização dos meios e dos gostos, que se oferecia como a salvação dos literatos, constituiu um novo tipo de anonimato – um limbo de muitos escritores e poucos leitores. E nenhum deles, até agora, com alguma contrapartida no mundo real. Ao menos no estouro da bolha econômica, as regras do jogo estavam claras. Mas e agora? Quem define o que é bom, o que vale a pena, o que deve sobreviver a essa ressaca de novos autores – mais uma coisa que outra?
“De certa maneira, foi por isso que o Aquele nasceu”, explica o publicitário e escritor-aventureiro Vitor Leal Pinheiro. “Queríamos concentrar esforços, facilitar a divulgação e criar desafios para os autores envolvidos”. O Aquele é um site coletivo de escritores, que estreou domínio próprio em sua sétima e mais recente edição. A cada rodada mensal, sete colunistas fixos e um convidado publicam um trabalho inédito sobre um tema comum. A maioria deles já vem de outras experiências similares, como a Mega Liga dos Blogs , o Blogautores e o Anonymous . O fracasso das empreitadas anteriores não assusta Pinheiro. “A idéia é mesmo dar o cara a tapa”, diz. Até o batismo, que aparece deglutir com certa ironia a homogenia que acomete os autores virtuais, é, na verdade, um encurtamento de “Aquele de quem lhe falei”, personagem do livro O Livro de Manoel, de Júlio Cortazar.
As aspirações são tão ambiciosas quanto as referências. “O Aquele é um site de cultura, voltado, num primeiro momento, para a literatura, que é o foco maior dos colaboradores atuais”, explica Pinheiro. “Mas aos poucos vamos aumentar, e abranger novos tipos de arte, voltando ao conceito original: dominar o mundo” – risadas à parte. Por enquanto, há espaço apenas para ilustradores, que também seguem os temas propostos a cada edição. Oferecer “a mesma pauta abordada por duas linguagens diferentes”, na definição do editor, é inerente à natureza da iniciativa. “É um desafio para evoluirmos como escritores. Ao ver os diferentes resultados que um mesmo tema gera, dependendo de quem escreve, também percebemos aquilo que poderíamos ter feito. Isso ajuda a abrir os horizontes e os leitores também captam essa pluralidade”.
Embora sem hierarquia, cabe sempre a um dos sete colaboradores estabelecer o assunto e cuidar da edição respectiva. Outras decisões são tomadas democraticamente, como o convite a novos participantes e idéias de divulgação – a mais recente é uma comunidade no Orkut. Cabe ao grupo, também, a análise do que vai ao site, e é aí que a porca torce o rabo. “ O critério, a princípio, é auto-crítico: os próprios colunistas fazem a crítica aos textos, seus e alheios”, explica Pinheiro. Talvez isso justifique uma consonância nos textos, um certo estilo direcionado. A escolha de assuntos também não tem sido das mais sábias. O Aquele já discutiu “sexo”, “mentira”, “deuses” e “música” – todos passes-livres para exercícios impulsivos, metafóricos, vagos, como se a explosão de um universo interior validasse o texto por si só. Narrativas em primeira pessoa são a norma; seriam um deslize comum de escritores tentando se provar?
“Eu quero morrer uma morte bonita, ela diz. Nenhuma morte é bonita, eu digo. Não como eu quero morrer”, prega o solilóquio sobre sexo de Nunes Filho em sua coluna “caixabaixa” – que, por sinal, confunde usar somente letras minúsculas com estilo. “O cursor pisca e as letras vão aparecendo formando algo não-saber, mas sendo verdadeiro, é”, justifica de antemão o primeiro parágrafo do haicai/poema/diálogo que Danielle Vidigal, dona da coluna “Des.”, cria para a edição sobre deuses.
Numa pirâmide alimentar literária, falta ao Aquele quem saiba conversar com o público sem rebuscar nos temas, nas percepções, nas construções e nos vocábulos. Por mérito ou por dissidência, duas jovens escritoras são os destaques da equipe: Renata Corrêa, uma das fundadoras, responsável pela “Frames”; e Marpessa de Castro, que assina a “Attention, Ces't Fragile”. Renata, pé firme, faz jus ao título de sua coluna ao enquadrar trechos prosaicos do cotidiano. Formada em cinema, sabe que o ângulo e o foco trabalham pela cena muito mais que o assunto. Seus textos são pílulas ficcionais, fragmentadas, mas inteligentes. Já Marpessa é a mais confortável em todos os estilos. Faz experimentalismo sem parecer pedante, o que é uma raridade. O site conta ainda com seu poeta residente, também interessante, o Alexandre Beanes.
Seria o suficiente para preservar o Aquele do novo estouro da bolha? O personagem de Júlio Cortazar, encarnado em pixels, vai sobreviver, crescer e, como quer Pinheiro, conquistar o mundo? É cedo para dizer. Talvez seja possível delinear uma resposta quando algum dos escritores tomar a iniciativa de propor uma temática mais banal, como “ônibus” ou “sanduíche”, ou de criar, ineditamente, um texto cômico (a pretensão continua sendo, digamos, o “calcanhar de Aqueles”). Para breve, o Aquele planeja um concurso literário que irá integrar um de seus leitores à equipe – e esse deslocamento horizontal no limbo dos blogueiros também não preocupa Pinheiro. “É claro que existe uma enorme quantidade de pseudo-autores, gente que faz da confissão e do seu diário uma tentativa de literatura através da rede. Mas até por isso o Aquele tem sua função. Como estamos nos arriscando, acabamos também mostrando o que pode ser feito”. |