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22 de agosto a 3 de setembro de 2005

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DIANTE DE PANDORA
Uma análise do elemento onírico como construção da realidade em Memórias Póstumas de Brás Cubas
por Hugo Maior ( hmaior79@hotmail.com )

emórias Póstumas de Brás Cubas , obra machadiana cuja primeira publicação data de 1881, tem como ponto de partida a construção de uma realidade aparente, ainda que alguns teóricos da Literatura insistam em colocar Machado de Assis, e todo seu espólio, inserido numa estética realista na qual a preocupação maior era retratar a realidade na ficção. Ao consultarmos com afinco o legado que o bruxo do Cosme Velho nos confiou, observamos que esta não era a sua proposta.

Cubas, um velho aristocrata da sociedade carioca, se propõe depois de morto a fazer o que não fez em vida: escrever suas memórias. Fato que por si só é o bastante para desarticular o espólio machadiano como realista, uma vez que na própria dedicatória do romance está escrito em letras garrafais “AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS”. Nota dez a Machado de Assis no quesito fantasia e inventidade; e evidência, de maneira bastante explícita, de que este é um romance nem um pouco preocupado em ser coerente com a realidade.

Poderia ainda me alongar e enumerar as inúmeras metáforas da qual o autor faz uso em sua narrativa tornando-a ainda mais inquietante e fantasiosa, porém esta não é a proposta do artigo. O que é mais grave, e nisto sim devo deter-me por mais tempo, é que uns dos poucos aspectos reais em Memórias Póstumas de Brás Cubas , como a descrição das grandes guerras, os embates triunfais, as mazelas e alegrias da vida, é construído a partir de um delírio do personagem no sétimo capítulo do romance, “(...) as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas (...)”. Leva-nos a perguntar que realidade seria essa que o autor procurava descrever. Que espécie de personagem teria lugar na obra de Machado: o realista ou o sonhador? É a partir desse aspecto que devo então construir o meu raciocínio e me aprofundar a fim de encontrar o homem da segunda metade do século XIX que nos parece, num primeiro momento, ser tão dotado da razão.

É importante lembrar que o delírio de Brás Cubas surge já ao final do sexto capitulo justamente com a visita de Virgília, sua grande paixão na maturidade. O trecho “vejo-a assomar à porta da alcova, pálida, comovida, trajada de preto, e ali ficar durante uns dez segundos, sem ânimo de entrar ou detida pela presença de um homem que estava comigo” confirma a suspeita de que a fantasia, por maior que seja, é deflagrada a partir de uma realidade, ainda que subjetiva. “Como tocássemos, casualmente, nuns amores ilegítimos, meio secretos, meio divulgados, via-a falar com desdém e um pouco de indignação da mulher de que se tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião (...). Era o meu delírio que começava”, anuncia.

Quando o sétimo capítulo principia, Brás Cubas realmente tem a intenção de tornar pública a sua alucinação, o seu delírio, uma vez que ninguém ainda o havia feito antes, deixando ao leitor a opção de pular o capítulo, se assim desejar, peculiaridade extremamente machadiana: “Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração (...)”. Dessa forma, descreve um série de impropérios que passa por sua cabeça “durante uns vinte a trinta minutos”, uma marca temporal que de fato, ainda que em vão, tenta capturar o elemento onírico, até ser interrompido por seu gatinho Sultão que brincava à porta de sua alcova com uma bola de papel.

O que podemos observar é que a realidade, sobretudo em Memórias Póstumas de Brás Cubas , ou é um mero detonador, uma espécie de válvula para que se transforme em sonho, quimera, fantasia, ou funciona como um elemento castrador, uma vez que a visita de Virgília foi o aspecto real que serviu de motivação para sua alucinação e a brincadeira de seu gato Sultão foi o que o fez despertar desse estado alucinado. A realidade é apenas um mero pretexto para o lúdico, para o fantástico, o que corrobora a teoria de que o universo machadiano, ainda que não trate de fadas, duendes, elfos e do mundo maravilhoso, se insere nesse universo, uma vez que trata da mente humana e de seu aspecto inventivo, criador.

Ao se deparar com Pandora, a mãe- natureza, temos uma descrição nada realista de alguém que não parece de carne e osso, e que certamente é dotada de super poderes: “(...) sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano (...)”. O aspecto fantasioso é, portanto, primordial para o entendimento da obra de Machado e mais do que isso, para entender como a realidade pode ser construída a partir de um universo fantástico, e como ele é essencial para que essa realidade se sustente.

Ao dialogar com Pandora, a mãe-natureza, Cubas tenta prolongar sua estadia na Terra e mais uma vez elementos importantes para a construção da realidade, como a própria cronologia temporal, aparecem no discurso da personagem, a mais mágica e fantasiosa das criaturas: “Para que queres tu mais alguns instantes de vida! Para devorar e seres devorado depois! Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos”.

Ouso dizer que, ainda que alguns teóricos insistam em inserir Machado de Assis em uma estética preocupada com a construção da realidade, é a partir do elemento lúdico, do onírico, que essa realidade é aparentemente reforçada. Mesmo que Brás Cubas figure em Memórias Póstumas como o arquétipo do bobo, representando uma aristocracia carioca do final do século XIV, “muita vez”, para ser ainda mais machadiano, é a partir dele, Brás Cubas, e logicamente, também de uma apropriação de seu discurso, que o autor se utiliza do maravilhoso para sustentação de sua obra. Faço minhas as palavras de Brás Cubas: “se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.