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22 de agosto a 3 de setembro de 2005

Equipe Edições Anteriores

KAOS QUADRINIZADO
Projeto de três edições com HQs brasileiras e entrevistas apresenta estilos diferentes e tenta trazer diferencial ao público
por Guillermo Gumucio ( guillermogumucio@yahoo.com )

oloca assim: Kaos! sem crise, R$5,00 ”. Sam Hart havia acabado de entregar uma folha de papel em branco e uma caneta para que seu colega de trabalho Sandro pudesse avisar aos convidados a respeito do preço promocional somente para o lançamento da edição número 3 da revista Kaos! naquela noite na Academia Brasileira de Artes (ABRA), unidade Santa Cruz, e era nítido o grau de satisfação de todos os envolvidos com o resultado de muitos dias e noites de trabalho árduo sem garantia de retorno concreto.

Sam Hart é um jovem ilustrador profissional de 30 anos e com vários trabalhos publicados no Brasil e exterior. Dificilmente alguém o identiifcaria como um legítimo inglês, não fosse por seu nome. Ele é o idealizador da revista Kaos! juntamente com Jean Canesqui, Sandro Castelli (que assina todas as três capas, com cores de Rod Reis) e Anderson Cabral e falou ao Rabisco sobre alguns aspectos artísticos e mercadológicos dessa criação coletiva.

Hart conta que tiveram a idéia de fazer algo diferente e inovador para o mercado brasileiro, mas ainda um pouco calcado nos moldes das publicações da Vertigo, divisão de quadrinhos adultos da DC Comics. E é realmente isso que é possível perceber ao fazer uma leitura cuidadosa das três edições da Kaos! . O projeto foi concebido para o lançamento em âmbito nacional de três edições bimestrais pela Editora Manticora, com histórias completas (algumas totalmente independentes, outras nem tanto) e duas entrevistas, uma com um artista estrangeiro e outra com um brasileiro. A primeira edição já foi de peso, com uma entrevista sensacional com Alan Moore ( Watchmen , V de Vingança – que está sendo transposto para o cinema atualmente –, Hellblazer , As Aventuras da Liga Extraordinária , entre muitos outros), onde o autor inglês fala bastante sobre assuntos como mercado e magia e conta uma interessante visão que teve com sua própria cria, John Constantine; além de uma história inédita e visualmente brilhante de Roger Cruz, artista brasileiro já aclamado no exterior. Dave Gibbons, o outro ícone que realizou Watchmen com Moore, está na última e terceira edição, em entrevista sobre sua rotina, cinema, atitude e, é claro, HQs.

As entrevistas internacionais são fruto claro dos contatos e amizades de Hart na Inglaterra, e foram recursos muito bem utilizados, pois as conversas são todas de conteúdo diferenciado e os entrevistados discorrem com paciência sobre os temas expostos. Além disso, o leitor pode perceber os diferentes pontos de vista sobre a cultura inglesa e internacional da atualidade com um panorama das respostas de todos os entrevistados. Os bate-papos nacionais também são um belo retrato da verdadeira situação dos ilustradores e roteiristas no Brasil, que, por mais talentosos que sejam, sofrem das mesmas dificuldades que os tantos outros profissionais da arte; quiçá, problemas até maiores, pois trabalham com a chamada nona arte, por vezes vítima de preconceitos.

A maioria das histórias presentes nas três edições possui narrativa adulta, fora do lugar comum, com desfechos maduros e temas idem. Os maiores destaques são “Meninos Perdidos”, de visual cartoon e roteiro de alta qualidade de André Valente e Luiz Pereira, que situa quatro garotos de rua em um cenário pós-apocalíptico e consegue passar uma bela mensagem sobre a leitura, o processo educacional e o futuro da cidade; “Bifurcações”, sobre mulheres e lembranças juvenis com o espetacular traço de Julia Bax e roteiro de Jean Canesqui (que também assina “O Homem Que Tudo Vê” e “Belasco”); “Fast Forward (FF)”, uma história muito bem contada e com uma sacada visual genial, totalmente produzido por André Valente; e “A de Aluguel” de Sam Hart, que traz cenários e personagens paulistanos, e diferentes histórias com a formação de “Arma”, “Arquitetura” e “Arte” com a inicial “A”.

Os desenhos de Sandro Castelli nas capas são extremamente bem feitos e responsáveis pela apresentação profissional, que não deixa nada a desejar para as publicações estrangeiras que ocupam as prateleiras de bancas, livrarias, lojas virtuais e lojas do ramo especializadas. Todas as páginas internas estão em preto e branco, o que não se trata de desvantagem nenhuma em se tratando da arte apresentada. E o conteúdo da Kaos! não se limita à página impressa: no website da publicação é possível conferir um tutorial quadrinizado de Sam Hart sobre as diferenças entre duas e três dimensões e a história “O Mundo Não É Uma Bola”, de André Leal. É um anexo da Kaos! , já que esses trabalhos não estão disponíveis em nenhuma das edições de papel e tinta.

Apesar da publicação de apenas três edições, Hart afirma que “esperamos que isso ocorra novamente em 2006, mas, mesmo que não houver continuação, é uma ótima vitrine e adendo para todos os envolvidos”, o que é uma certeza, conferidos o profissionalismo e qualidade do projeto que totalizou mais de 250 páginas de produto final e muito esforço por parte dos artistas e planejadores.

Entre os presentes no lançamento da terceira edição da Kaos! estava o diretor artístico Alexandre Damas, 34, que considera o fator de localização dos roteiros algo muito importante. “Com as ondas terroristas nos EUA, surgiram várias histórias em que os super-heróis eliminavam o problema e isso, aliado ao cenário e lugares estrangeiros, faz com que a identificação com o brasileiro seja mínima”, diz Alexandre, que também destacou o conceito bem elaborado da publicação e o trabalho gráfico dos artistas.

Salvador Messina, ilustrador e autor da reconhecida tira Ran , entre outros, também prestigiou o lançamento da edição número 3 da Kaos! . “É um esforço louvável”, diz Messina, que ainda foi brindado com uma prévia do próximo trabalho de Sam Hart para o mercado inglês: as versões inicial e final da personagem principal de Brothers: Fall of Lucifer , que também terá roteiro do colega Tony Lee.

“O que faremos agora? Não sei. Estamos tão exaustos por causa da realização da Kaos! que precisamos parar e pensar na próxima etapa somente agora”, admite Hart. Mas não é bem verdade – para sorte de todos! –, visto os projetos com a Inglaterra, como o já citado Brothers . Que mais idéias ambiciosas, edificantes e inovadoras como a revista Kaos! alcancem o público e se tornem de alguma maneira mais viavéis algum dia. O próprio lançamento da Kaos! tanto em bancas especializadas quanto para o grande público é uma prova cabal de que a esperança existe, o objetivo é tentador, e a realização é uma possibilidade.