Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

22 de agosto a 3 de setembro de 2005

Equipe Edições Anteriores

ENTENDER É POSSÍVEL
Em Jornalismo e Ciências da Linguagem, Mayra Rodrigues Gomes analisa o funcionamento da comunicação
por Cell Blan ( cellblanc@yahoo.com.br )

s ciências da linguagem relatadas por Mayra Rodrigues Gomes abordam as reflexões que são feitas pelo saber em relação às implicações que o âmbito simbólico nos traz. A heterogeneidade da linguagem atinge o campo físico, psicológico e social, e por isso é tão interessante. A distinção entre langue e parole nos permite entender a estabilização da língua e as constantes atualizações da fala. A língua é composta por um sistema de signos que exprimem idéias, e nos traz um significante e um significado que recaem naquilo pelo qual valem e pelo qual eles são sempre outra coisa; esses elementos se combinam e estabelecem as triangulações sígnicas. O significante não é nada mais do que uma materialização psíquica, gestual, escrita, etc; já o significado é dotado de um conceito ou idéia evocada no signo; essas instâncias, conferidas com a terceira à qual se referem, formam a condição tripartida do signo. É importante ressaltar que muitas vezes a forma de uma palavra não apresenta nenhuma ligação intrínseca e necessária com o seu objeto de referencialidade, daí a interferência do signo.

A ausência do signo nos tornaria incapazes de distingüir duas idéias de modo claro e constante; o pensamento necessariamente não delimita fronteiras, e nada é distinto antes do aparecimento da língua. Nesse ponto é que surgem as diferenças. São elas que permitem a um signo se colocar como tal, porque nada pode ser nomeado ou entrar para o campo simbólico se não forem reconhecidas as verdadeiras faces das moedas que formam a língua. A noção desse sistema nos remete à organicidade, autonomia, mutação presente na dinâmica interna dos processos. E neles se estabelecem essas diferenças (oposição) e a fixação (posição). Esta, delimita um ponto no espaço e no tempo às coisas, restringe e marca uma localização ao elemento, mesmo quando esses elementos sucumbem à repetição, o que os torna parecidos mas não iguais de fato.

A língua não deve ser tomada como um contrato puro e simples, e a presença dos signos repele a estatização das normas e regras lingüísticas. A língua como instituição social reforça a ligação entre o homem falante e o homem social; não se troca fora do simbólico, fora das proibições e sanções estabelecidas, das diferenciações. Na língua como instituição social, nos organizamos em pacto, levando em conta o seu estatuto, que nos precede e ao qual não temos escolha. A redundância desses homens se confirma ao recebermos o golpe que nos constitui singulares e sociais pela linguagem; a palavra consignada pelo pacto social necessita da organização em torno do ver e pensar dos dados.

O jornalismo é uma das áreas que faz experimentações em cima desses dados. Antes de registrar, informar, antes de ser colocado em periodicidade, atualidade, difusão, ele é um fato de língua, e tem seu papel e sua função na instituição social. Como fato de língua, sua função principal será aquela que a língua e a instituição social implicam: organizar discursivamente a prática jornalística por excelência. O caráter testemunhal do jornalismo atesta-se pela confirmação do pacto fundado na comunidade estabelecida pelo compartilhamento de uma língua, funcionando como uma espécie de aliança social. O fato do jornalismo ser vetado a falar em primeira pessoa deve-se não somente à objetividade, mas porque ele organiza o campo do social em nome de “todos”, não podendo, portanto, falar nem ser reiterado e lembrado como individuação.

A caracterização do jornalismo como sendo o “quarto poder” deve-se muito à sua função de vigilância, postando-se como terceiro nos questionamentos do exercício do poder, dos institutos que formam o Estado de Direito. A vigilância, investigação e denúncia intensificaram-se após a ditadura no Brasil; jornalistas participam ativamente do uso de inquéritos e documentos comprobatórios de ilegalidade, devido ao caráter de “representação” do cidadão comum que a profissão lhes permite. Porém, não é novidade que as escolhas que o jornalista faz representam um determinado segmento social: políticos, economistas, comerciantes, donas-de-casa. O desenho do espaço social se dá pela ordem de importância que o repórter utiliza, pelos valores que coloca, pela escolha e priorização que dá a determinados temas; a ordem é mostrada, logo se exibe algo que a quebra, e então algo que a retoma, destacando um foco principal.

A compreensão de sentido nem sempre é atingida; sua falta faz surgir uma contínua produção de significados na tentativa de ligação para a ausência de origem. A lógica do signo permite a construção, discurso sobre discurso, texto sobre texto; o testemunho do testemunho pode justificar a incompletabilidade de uma palavra. As matérias jornalísticas sempre estão buscando esse referencial de justificativa, calcam-se em citações e entrevistas, portadoras muitas vezes de fotografias e tabelas de porcentagem espetaculosas. A mediação desses instrumentos opera pelo apagamento de fatos e colocação de um real como apreensível e descritível diretamente, constituindo, então, um efeito de real. Esse efeito torna o “real” não mais que um significado formulado, arbitrado por trás da aparência tomada como inquestionável do referente. Fazem parte dele os índices, significantes que delineiam o caráter de uma personagem, sua identidade, atmosfera e estado de espírito; os informantes, que são significantes que servem para situar no espaço e no tempo; a catálise, que é a função cronológica pela qual se operam a distensão e a compressão temporal presentes no tempo da narrativa. A “ilusão referencial”, atrelada à suposição de um real auto-suficiente e passado por completo, sem mediação simbólica, é um dos fatores que permitem o verossímil e a credibilidade jornalística, por mais maquiados que eles sejam. Os recortes e escolhas dão margem à fugacidade na abordagem dos temas por parte do jornalismo.

“Na origem do simbólico está a idéia de definições por posições e oposições, portanto, a idéia da diferença como determinante da possibilidade de signos e suas relações. Desde o início do século há uma recusa em persistir na disputa entre real e imaginário, que tende a negligenciar o simbólico”, afirma Mayra em seu livro. O trecho evidencia a importância do signo na linguagem; as combinações de ordem dos mesmos tornam os conteúdos das mensagens absolutamente diferentes umas em relação às outras. É aí que a magia do signo funciona: se o significante nos remete à ordem simbólica, o significado nos remete à dimensão do imaginário. Quando falamos não somos totalmente livres, pois procedemos por escolhas dentro de um repertório comum previamente dado; as expressões que utilizamos não são exclusivamente nossas, não são pungidas e direcionadas por sentimentos unicamente nossos. Como servos da linguagem, já estamos atuantes desde o nosso nascimento, ainda que seja apenas sob a forma de um nome próprio; o significado de um signo lingüístico não é mais que sua tradução por um outro signo que lhe pode ser substituído. Logo que o signo surge, começa por se repetir, a dividir-se em outros; talvez por isso a complexidade de se entender um signo, já que ele é atrelado a vários. Sobre estas noções se constrói o triângulo representativo do corte semiótico, que padece de um quarto ângulo – um ponto de suposição a compor o quadrado lógico – no qual se inscreveria a ambição da significação total. A geometria semiótica permite que de um sentido imanente às matérias possamos extrair as diferenças de sentido transcendente ao compararmos as abordagens de um mesmo fato por diferentes fontes e veículos de comunicação.

Se compararmos os mais diversos veiculadores de notícia por um certo tempo, notaremos que cada um segue um caminho próprio para retratar os fatos. A matéria, as reportagens, os editoriais, acabam por denominar uma abordagem específica. Essa abordagem acaba por denominar um discurso, que contém e impõe uma ideologia, e cada ideologia encontra o seu discurso. O que se exprime disso é que muitas vezes o discurso particular torna-se geral, justifica uma posição e, conseqüentemente, uma ideologia. Estabelecida a ideologia, a sua manutenção ocorre na procura de um discurso que a sustente, formando um ciclo de buscas e justificativas. A intervenção de uma voz soberana em uma falante de menor capacidade acaba por abafar a posição de quem não está no topo da hierarquia, e mantém a ordem no processo da comunicação. O discurso legitimado trabalha com o acolhimento e a exclusão na tentativa de sustentar um movimento, uma inserção. Esse jogo afirma e confirma os processos referenciais, assumindo um tom de verdade.

Cabe ao sujeito prático resgatar a vontade de posição política, de agir como herói de liberdade; todos os povos têm direito à ciência, e se não há ciência, não há conhecimento. Se o sujeito social ainda não é um sujeito do saber, é por que é impedido pelos tiranos. O sujeito cognitivo é quem deve atuar nessa mudança, tomando uma posição mais filosófica, renovando a ciência sem restrição ou finalidade determinada, para transformar o conhecimento científico e a formação moral e espiritual da sociedade.

A intencionalidade do discurso pode mostrar o direcionamento e a posição do orador em relação à informação passada. A intenção de um determinado enunciador em induzir uma resposta, o reconhecimento da intencionalidade do orador pelo público e o reconhecimento do orador em relação ao nível de sucesso que obteve na transmissão da mensagem são essenciais para que haja comunicação efetivamente. A relevância das mensagens determinará a atenção do público e, conseqüentemente, o entendimento das mesmas, mas de nada adiantará uma boa emissão se a recepção não tiver base de apoio na idéia, o chamado repertório. Sem ele, por mais que o discurso seja minuciosamente detalhado, não haverá uma relação, uma ligação correta, entre os temas trabalhados pelo orador.

A repercussão dessas ligações pode ser facilmente demonstrada através da fotografia. Esta, pode ser vista como espelho, transformação ou traço do real, ou seja, através da própria imagem e da percepção de quem a visualiza, pode-se notar o caráter denotativo e conotativo de uma fotografia. Os fatores sígnicos, plásticos e lingüísticos dela é que podem mostrar se ela é uma representação fiel do espaço e do tempo, de uma pessoa e de um objeto. A legenda de uma foto pode afirmar ou derrubar uma interpretação, e é na junção do fator lingüístico com o pictorial que se revela o poder de um jornal. Se a fotografia analógica, com seus longos períodos iniciais de exposição e precárias chapas, conseguiu revolucionar a arte e questionar a pintura e a própria fotografia, a foto digital, com seus pixels e bits , consegue questionar o conceito de autenticidade e o seu caráter de representação de algo real, já que são necessários vários processos e decodificações até se chegar à imagem digital plena.

A tecnologia intensificada no século XX trouxe a reflexão das pessoas sobre a autenticidade do mundo em que vivemos, da política, da arte, das relações pessoais. O que não é muito questionado é a maquiagem que a língua oferece aos mais diversos processos de interação da sociedade, do poder que ela exerce enquanto representação, enquanto similaridade, enquanto convenção; a linguagem nos trapaceia há muito tempo.