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Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
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22 de agosto a 3 de setembro de 2005

Equipe Edições Anteriores

O SOM DAS PALAVRAS
Premiada em Gramado, Mula Manca e a Triste Figura busca novos horizontes carregando na bagagem melodia e literatura
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br )


uando esta entrevista foi realizada, no dia 4 de agosto de 2005, o grupo musical recifense Mula Manca e a Triste Figura estava fechando as malas para passar um mês em turnê pelas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Paralelamente à viagem, a equipe também esperava ansiosa pelo resultado final do XIII Gramado Cine Vídeo, evento que faz parte do 33º Festival de Cinema de Gramado, realizado entre os dias 15 e 20 de agosto, no Rio Grande do Sul. A Mula Manca concorria com mais duas bandas na categoria Vídeo Clipe Independente com a canção “Ireny”, que foi escolhida para ser o clipe de estréia do grupo.

Neste momento, a banda deve estar comemorando. O videoclipe, dirigido por Gabriel Mascaro e Daniel Aragão, recebeu o primeiro lugar em Gramado. O resultado foi divulgado durante o fechamento desta edição. É mais um ponto positivo na trajetória da banda que está buscando caminhos novos pelas estradas do país. No ano passado, eles estrearam no festival Abril Pro Rock. Em fevereiro deste ano, foram convidados para abrir o Festival Petrobrás , que trazia uma excursão da cantora Vanessa da Mata para o nordeste; e no último dia 6 de agosto participaram pela segunda vez do programa Bandas Antes , da MTV.

Foto: Ivan Alecrim

Por aqui, a Revista Rabisco completa três anos. Ela foi ao ar, pela primeira vez, em 22 de agosto de 2002. Então, pelo visto, estamos todos em festa. Vamos comemorar com esta conversa boa, realizada no Parque da Jaqueira, em Recife. Um local bucólico, que tem sido palco de histórias importantes na trajetória do grupo, que é formado por Tibério (violão e vocais), Bruno (bateria), Lula (teclados) e Ângelo (guitarras), acompanhados de Eudes(baixo) e Gerson (sopro). Com vocês: Mula Manca e a Triste Figura.

Bom, vamos começar situando os leitores do site. Quem é a Mula Manca e a Triste Figura? Como surgiu esta banda e por que vocês escolheram este nome?

Lula – Mula Manca surgiu com Tibério Fonseca, eu e Arthur Grupillo, que está fazendo faculdade de filosofia em Minas Gerais. A gente tinha sempre essa vontade de tocar. Tibério sempre tocou, eu sempre toquei, mas Arthur foi meio arrumadinho. Era amigo nosso, mas tocava em igreja e tudo mais. A gente se reuniu no Capibar (se não me engano, toda quarta-feira) para apresentar música dos outros, de autores que a gente gostava, e nossas também. Até então havia um ranço, na cidade, de tocar canções dos outros. E a gente sentia necessidade de exibir nossas próprias composições. Então, fomos misturando. Eram apenas três pessoas – teclado, violão e baixo. E fomos fazer. Decidimos não esperar mais não e pensamos “qual vai ser o nome?” Surgiram cinco, um deles Mula Manca e a Triste Figura. Quando li Dom Quixote , vi o subtítulo “o cavaleiro da triste figura” e disse “pô, triste figura... interessante”. Havia esse vínculo com literatura, a gente adorava. Às vezes a gente mais conversava do que tocava, sobre livros, idéias e outras coisas mais. E Mula Manca, na verdade, a gente achava que era a mula de Sancho Pança, mas não tem nada a ver, não. Foi viagem. A gente achou bonitinho e ficou. Arthur ainda queria que fosse Mula Manca e a Triste Figura Intergaláctica...mas fechou em Mula Manca e a Triste Figura e ficou bom porque tem essa referência ao mundo dos livros. Quem conhece Dom Quixote saca logo...

Era o que eu ia perguntar: se o que aproximou vocês foi a música ou a literatura.

Lula – Eu acho que o que uniu a gente mesmo foi a curiosidade em torno de algumas questões da vida... questões existenciais, estéticas. Na época a gente borbulhava de idéias... Chegava a ser irritante (risos), mas foi assim que surgiu. A necessidade de conversar sobre coisas que a gente achava parecido – ou não –, o que estava acontecendo, as coisas que estávamos lendo, conhecendo na faculdade. Esses foram os fatores principais para unir a gente. E a música vinha como uma forma carinhosa de brincar com isso.

Foto: Ivan Alecrim

Quem compõe as letras do grupo?

Lula – Na época, eu e Tibério. Arthur fez uma ou duas.

Que escritores influenciaram o trabalho de vocês?

Lula – Raimundo Carrero, óbvio. Eu e Tibério participamos da oficina dele. Na época, a gente lia Dostoievski. Eu lia muita coisa existencialista... Camus... Sartre. Raramente eu lia poesia. Eu comecei a ler poesia agora há pouco... Drummond... Bandeira... Mário Quintana. Adoro Quintana hoje em dia. Quanto ao Tibério, não sei o que ele lia. Arthur seguia também esta linha, mas ele era mais devorador que a gente. Quando chegou na faculdade, ficou agoniado porque viu a biblioteca e achou que não tinha tempo na vida para ler tudo aquilo.

O primeiro disco de vocês, O Circo da Solidão , foi estruturado como um áudio-livro, com prefácio, introdução e uma narrativa que vai se desenvolvendo ao longo do álbum. O que levou o grupo a fazer esta escolha?

Lula – A gente sempre teve esse carinho muito grande pela literatura e queria colocar alguns textos. Tem Hermann Hesse e tem Dom Quixote, mas é uma adaptação de Ferreira Gullar. Quando fomos estruturando o CD surgiu esta idéia: “vamos colocar como se fosse um livro para ser ouvido”. A gente não quis prender as coisas demais, não. Você pode ouvir como um CD normal. Música por música. Nem toda música tem ligação, mas achamos que havia alguns temas, sobretudo a solidão, o abandono, em comum. Então, a gente quis dar essa carinha como se fosse uma coisa fechada. É tanto que a primeira música é um prefácio mesmo, com Carrero falando “não creio ser um homem que saiba...”, dando todo o direcionamento do disco. É uma síntese, uma apresentação. É... Como se fala... O apresentador do circo. Aquela coisa “respeitável público”. E no final, Carlota, que é um artista múltiplo daqui, de improviso fez uma música no estúdio que a gente ficou de bobeira. Parecia uma coisa mesmo de despedida e a gente colocou como se fosse um final do livro.

Foto: Ivan Alecrim

De que maneira aconteceu esta parceria com Raimundo Carrero? João Lima também participa do disco...

Lula – É... João Lima, Carlota... Fabio Trummer (do Eddie) também produziu. A parceria com Carrero foi o seguinte: fomos no trabalho dele com um gravador feito este teu e dissemos: “Carrero, lê estas duas coisas aqui que a gente vai colocar no CD”... Ou foram três, para a gente escolher. Ele perguntou “mas o que é para fazer?” e dissemos “é ler, só” (risos). Acho que ele nem estava entendendo o que estava se passando e falou “é para ler? Eu leio”. E leu. Depois comentou “são bonitos os textos”, então pronto. Ele ouviu quando a gente entregou o CD. Acho que ele só foi entender quando recebeu o disco. João Lima também se dispôs. Muita coisa fizemos de improviso. A gente tinha as idéias, mas fez de improviso no estúdio. Ele gravou um texto de Tibério antes da música “O Palhaço e a Bailarina” e Carlota, também, então ficou uma dupla de atores. Nós gravamos mais coisas do que tem no CD, e não utilizamos para não ficar cansativo.

Eu vi que no crédito de algumas canções que Carrero tocava sax...

Lula – Tocou não. Ele ia tocar com a gente no Garrafu's, mas fazia tempo que ele não tocava. Saiu no jornal e tudo. Ele apareceu... Eu fiquei conversando com ele, mas depois sumiu. (risos)

Vocês têm a intenção de manter o formato do primeiro disco nos próximos álbuns?

Lula – Eu não sei. A gente não discutiu ainda, mas eu não pretendo, não. A ligação com a literatura sempre vai existir, mesmo que não esteja declarada. Eu, pelo menos, penso em fazer outra coisa.

Eu assisti o show que vocês fizeram com Vanessa da Mata, no Teatro da Universidade Federal de Pernambuco, e ele também possuía esta estrutura de contar uma história, como se toda a apresentação seguisse um roteiro, bem diferente do estilo “música para pular”. O público tem recebido bem?

Bruno – A estrutura daquele show foi bem diferente da que fazemos normalmente, pelo fato de ser no teatro, entendeu? Não significa que todo show é daquele jeito, mas a gente sempre adapta ao local que vamos tocar. Ali era um teatro de grande porte, havia um público muito grande, a banda estava com muita coisa nova. Era um show curto, mas mesmo assim a gente fez um lado teatral com Tibério interpretando aquilo tudo...

Lula – A gente tinha muita vontade de tocar em teatro, e ainda tem porque o pessoal está com mais atenção, e deu para explorar mais. Se a gente tivesse mais tempo ainda usaria mais coisas de teatro e literatura.

Tibério, inclusive, leu diversos trechos de livros. Como esse material é escolhido? Vocês trocam os textos entre um show e outro?

Bruno – Os textos mudam. O momento em que eles entram muda também. Depende do lugar. Para cada show que a gente faz tem um roteiro diferente.

Lula – Também muda de acordo com a sensação da gente. Às vezes, há textos que funcionavam para o grupo – e nem só para o público, porque a gente pensa no público também, é claro – e agora existem outros que funcionam mais. Então, vai muito de sentimento.

Foto: Ivan Alecrim

O tema do primeiro disco é o circo. Depois que o Los Hermanos lançou O Bloco do Eu Sozinho qualquer grupo que use elementos circenses e marchinhas de carnaval nos álbuns é logo tachado de clone da banda carioca. Este fantasma da comparação também paira sobre vocês?

Lula – É... Tem gente que compara. Eu acho que tem alguns aspectos aqui. Somos da mesma época, temos origens parecidas – se você for ver as origens do pessoal e de várias outras bandas. É um som interessante que Los Hermanos fazem e eu não acho tão parecido. Já achei mais. Não tem nada de pejorativo no que eu estou falando, até porque eu admiro muito o som dos caras, mas eu acho que não tem tanto a ver hoje em dia. Um outro fator é que existe uma predisposição a comparar tudo a Los Hermanos. Eu já vi compararem com Cordel do Fogo Encantado, o que é um absurdo (risos), com Mombojó. A ligação que eu vejo é muito pequena. É algo assim muito longe (risos). Então, como Los Hermanos está borbulhando, eu acho que o pessoal exagera, mas é normal. O Gram tem uma música que eu acho que parece, mas você escuta o disco do Gram e não é Los Hermanos. Então, é aquela coisa de tudo ser cover dos caras. Se você canta “láa...láaa” dizem logo que é Rodrigo Amarante. Foi ele quem inventou isso? Tá danado... (risos). Eu não gosto muito dessa comparação e digo nos ensaios que não gosto dessa história de parecer Los Hermanos porque eu não creio que parece. Mas eu estou dizendo isso para você. Tem gente que chega e escuta o disco uma vez e diz “ah, sim, parece Los Hermanos” e eu digo “é...”. Deixa quieto... (risos).

O clipe da canção “Ireny” foi um dos três indicados para a mostra competitiva do XIII Gramado Cine Vídeo, na categoria de Vídeo Clipe Independente. De quem foi a iniciativa de levar este trabalho de vocês para o festival?

Bruno – Foi do diretor, Gabriel Mascaro. Na verdade, foi a primeira coisa que ele fez com o clipe. A primeira cópia ele mandou para o festival. Eu acho que foi o único até agora, não sei se enviou para outro...

Existe previsão de entrar no circuito aberto de TV? Vocês firmaram parceria com algum programa ou emissora de televisão para exibir o clipe?

Bruno – A gente entregou na TV Universitária e sábado que vem a gente vai estar gravando na MTV. Queria mandar antes, mas eles pediram para entregar em mãos. Vamos gravar o Bandas Antes , com Edgar e Rafa. É um programa por mês com quatro bandas e cada uma delas toca uma música e rola uma entrevista. O programa é gravado durante o dia todo. Fica muito material. Eles exibem clipes e matérias com outras bandas. A gente saiu no ano passado com uma matéria gravada no Abril Pro Rock, mas a gente não estava lá. Participam bandas novas, que estão no primeiro disco. Muita gente já participou, Ludov e tudo mais.

Além do festival, no Rio Grande do Sul, vocês vão excursionar pelo sudeste e sul em agosto e setembro. Onde vocês vão tocar?

Lula - A gente vai tocar em São Paulo...

Bruno – Tem um show em Porto Alegre, que faz parte de um projeto. Shows no interior do Rio Grande do Sul. É que, por exemplo, a gente chega para esta turnê no dia 5 de agosto e fica até o dia 13 de setembro, então muita coisa vai aparecer no período em que a gente está lá.

Lula – As pessoas têm a impressão de que o trabalho do músico é só tocar. E não é. A gente está descobrindo. É divulgação de uma forma geral. Você sai na noite para conversar, como eu estou conversando contigo e isso é um trabalho, entre aspas, vai em rádio. Em meios de comunicação, como a gente está fazendo aqui.

Bruno – Tem material meu para entregar em marcas de instrumentos... E isso leva o dia todo.

Lula – O que a gente mais gosta de fazer é tocar. Se fosse pelo grupo a gente tocava todo dia, mas não é só esse o trabalho. Para tocar a gente tem que fazer outras coisas...

Foto: Ivan Alecrim

Quando disseram que o Mula Manca iria passar um mês entre sul e sudeste, eu pensei: será que o pessoal está pensando em morar fora? Vocês têm esta intenção de mudar de Recife?

Lula – Não é nada sólido, mas no ano que vem se as coisas acontecerem como a gente está planejando – nem sempre acontece como a gente planeja, mas se acontecerem –, a gente pretende morar lá.

Bruno – Eu tenho uma opinião sobre essa coisa de morar em São Paulo. É muito cômodo para um artista, como Alceu Valença, ficar aqui porque ele tem nome, mas para artistas no nosso estágio, de divulgação, é muito inviável ficar aqui. Eu acho utopia até. O pessoal diz “não, a gente quer morar aqui”. É muito inviável e eu estou sentindo isso na pele, agora. Imagina um contratante do Rio Grande do Sul que vai fazer show com a Mula Manca? São sete passagens aéreas. É muito custo que envolve isso. É por isso que a gente está indo para fazer muita coisa. No ano passado rolou um convite para fazer um show em Uberlândia...

Lula – Rolaram muitos convites...

Bruno – Esse eu lembro mesmo. O cara fechou tudo e quando foi ver o custo apenas com o excesso de bagagem, ficou muito caro. Para a gente, agora, é indispensável. Não digo nem morar lá, mas passar temporadas de quatro ou cinco meses. Passar duas temporadas de quatro meses por ano é interessantíssimo.

Lula – E de São Paulo você vai para qualquer lugar do país... Torna tudo mais fácil. Agora, eu digo aos meninos: a minha vontade era ficar aqui. Em Recife eu tenho a praia de Boa Viagem, tem o Santa Cruz (risos), os meus amigos. Tudo o que eu gosto, o que eu amo. Mas a profissão está pedindo outra coisa. A gente vai ter que sair. Uma hora ou outra, se quiser dar prosseguimento, a gente vai ter que sair.

Bruno – Existem dois circuitos no Brasil que são fortes para música. Um deles é São Paulo, claro, centro de gravadoras, mídia e tudo. O interior é fortíssimo para tocar. E outro que eu nem sabia tanto é o Rio Grande do Sul que é muito auto-sustentável. Infelizmente, Pernambuco ainda não tem essa força.

Lula – E tem uma força cultural muito grande. Você chega de fora, todo mundo te baba. É de Pernambuco, te babam e, assim, sem querer ter aquele discurso chato de sempre, a gente pode aproveitar isso melhor. O Recife Antigo podia ser um pólo cultural fantástico, não só de música, porque rola muita coisa aqui, tem muita gente boa. Mas enfim... Quem sabe com o tempo...

O grupo vai levar o show do primeiro disco ou as apresentações contam com canções novas?

Bruno – Tem muita coisa nova. Naquele show com a Vanessa da Mata tocamos cinco músicas e apenas duas do primeiro disco.

É um embrião para o segundo disco?

Lula – Tem coisa que sim. A gente está se coçando para fazer o segundo disco. Faz um ano e meio que lançamos o primeiro. A gente quer gravar o segundo, mas, como estamos divulgando pela primeira vez o trabalho fora, vamos levar O Circo da Solidão.

Foto: Ivan Alecrim

Sabendo da relação que vocês têm com a literatura, não tem como não voltar ao tema. Além de Luiz Marcelo e Tibério, alguém mais do grupo desenvolve atividade literária e tem trabalho publicado?

Lula – Não, não. A única coisa que eu tenho publicada é aquela novela da oficina de Carrero, que na verdade não é minha, é do grupo. Publicado por editora, nada. Tem coisas na página da banda, eu tenho um site e uma colaboração no Vacatussa . Se há uma pretensão, Tibério pensa muito nisso. Eu já tive mais vontade.

Você já pensaram em lançar o material que vocês produzem através da própria banda?

Lula – Já...

Bruno – Tem uma novelinha no site...

É... Tem a novelinha no site. Eu ia perguntar a respeito disso, também.

Lula – Você falou nisso agora, eu me lembrei. Tibério pensava em fazer um CD com um encarte e juntar as duas coisas, mas não é tão fácil assim por conta do material.

Bruno – Não é tão simples, não. O custo do disco seria muito maior. A gente tem que trabalhar com estes detalhes. A gente é artista, gosta de viajar, mas tem que trabalhar com coisas concretas.

Lula – Sobre a novela, a gente teve uma idéia de escrever alguma coisa, até para dar vazão a esta veia artística, e eu e Tibério nos encontrávamos aqui no Parque da Jaqueira para conversar. E como é que a gente faz? Uma carta... Um diálogo. Primeiro, eu queria fazer um diálogo entre um homem e uma mulher, e eu queria escrever o papel da mulher, mas não deu muito certo e migrou para a novelinha. Ele tinha um personagem e eu criei o meu. Nós estamos colocando o segundo capítulo agora. A carta quem escreve é Tibério e eu escrevo os trechos do carteiro que vai... (Até antecipando para os fãs, todos os milhões que acompanham a novela), ele vai abrir a carta do personagem por acaso, começar a ler e se envolver com aquilo. É onde o meu personagem e o de Tibério se encontram. O carteiro meio humilde, com aquela vida comum e mais ou menos, vai se deparar com uma coisa mais forte na carta e vai se desenvolver a partir disso. Estou esperando Tibério escrever o segundo capítulo há duzentos anos (risos). O meu está pronto, eu nem me lembro mais o que aconteceu...

Quais os planos de vocês até o final do ano?

Lula – Em setembro a gente volta e tem o lançamento do clipe no Pátio de São Pedro...

Bruno – No dia 8 de outubro, no Sábado Mangue.

Lula – E, dependendo do resultado da viagem, a gente volta para passar mais tempo no sudeste ou grava o segundo disco.

Bruno – Além de divulgar a banda, o bom é saber onde a gente vai pisar. Conhecer onde vamos trabalhar. É uma experiência que a gente precisa ter o mais rápido possível.

E fora do circuito sul-sudeste, existem planos para tocar?

Lula – A gente tem que tornar o projeto viável. A Mula Manca e a Triste Figura já existe. É maior que eu, Cupim e o restante. Isso está lá, vivo. O que a gente está em busca é sobreviver de música. Viver de música. Não é comprar um apartamento na Avenida Boa Viagem, mas se manter. Primeiro, a gente busca isso. Centro-Oeste e Norte são mais complicados, pelo menos até onde a gente conhece. Por isso, estamos buscando os maiores centros, mais tradicionais mesmo. Nós acreditamos que é possível, mas se for por amor a tocar eu queria levar minha música para qualquer lugar. Onde tivesse um caboclozinho eu tocava e o mandava subir no palco para tocar seus tambores. O amor da gente é esse. Eu estava falando com Roger e André, do Bonsucesso Samba Clube... Vi a entrevista deles no programa Conversa na Madrugada , com o Aldo Vilela, e senti falta de uma coisa e ele me disse “o quê?” e eu respondi: “que você falasse de música”. E eles ficaram olhando e perguntaram “como assim, cara?”. É o seguinte: a geração da gente está assumindo muita coisa, tudo mudou, não tem mais aquela coisa de gravadora. Não sei nem se isso existia, mas a lenda é de que a gravadora fazia tudo para o artista e isso mudou muito. A gente tem que ir em busca. Às vezes eu olho para o meu trabalho e penso: qual a diferença entre o que eu faço e estar ali vendendo alguns apartamentos? Não tem tanta diferença na parte de gerenciamento, e eu vejo a geração da gente falando exaustivamente em mercado e pouco em música. Tem suas razões, porque discutir estética hoje é proibido. Todo mundo vai dizer que é gosto. Então, fala da vida que tem na tua música... Porque tem. Bonsucesso vai para Olinda e tem muita coisa que a gente quer saber. Como é que surgiu? Qual é o teu vínculo com isso? A gente está perdendo um pouco. Ele falou a entrevista toda sobre as perspectivas de mercado da música em Pernambuco, que é uma necessidade porque ninguém pensa por nós, mas vamos lembrar o que motiva realmente a gente, além dessa coisa de dinheiro e tudo mais. Eu sinto necessidade de ouvir as pessoas falarem de arte. Por que tu estás cantando isso? O tesão é esse (risos). A mesma coisa é no Vacatussa , eu sei que a galera está fazendo porque quer expressar alguma coisa. Eu sei que vocês têm um monte de problemas, e agora deve ter mais porque está crescendo. Eu acho que no Rabisco vocês vivem a mesma coisa, mas o que te motiva? Eu quero ver isso... Eu quero te ver pelado (risos). Não quero te ver com papo de “é porque está difícil e não sei o que...”. Tu te viras porque eu estou me virando aqui, também (risos!).

É verdade...

Lula – A gente tem um grupo de amigos, de bandas, que se encontra semanalmente para debater essas coisas e eu comentei com Fernando, do Suvaca Di Prata, que já é a décima quinta reunião e ninguém trouxe um violão. Isso é simbólico para a geração da gente. Não é por falta de desejo, mas a gente precisa fazer isso. É esquisito, ninguém trouxe um violão, que boemia safada é essa? (risos). É normal porque você está com um monte de questões, está superpreocupado com a viabilidade do seu trabalho e, no sufoco, você não percebe. A gente vai ter que lidar com isso, eu acho que em todas as áreas está assim, mas, vamos lembrar um pouquinho a vida que tem ali dentro. Por que eu acordo para fazer aquilo? Se não fica muito duro, muito seco... E a arte se perde. Vira um negócio. Não é uma visão purista, não, mas tem algo que vem antes que é o que realmente traz o tesão.

Foto: Ivan Alecrim

Uma coisa que sempre se comenta quando a gente conversa a respeito de bandas novas em Recife é que a Mula Manca e Triste Figura não foi citada em matérias que diziam estar surgindo na cidade um movimento off mangue. O que vocês acham que aconteceu?

Lula – Eu até comentei com Juliano que eu não gostei muito daquela história de movimento off mangue, não. Eu acho meio forçado. Eu acho, e disse a ele, inclusive; e a Parafusa estava na lista. E eu não queria estar não. Não queria que Mula Manca e a Triste Figura estivesse porque eu não via consistência naquilo, mas foi uma coincidência não estar. Não sei porque não estava. Talvez porque a Mula fique entre as coisas que estão surgindo agora e o pessoal que passou.

Bruno – A turma aqui fala demais do Abril Pro Rock. Quando a Mula tocou no Abril, esse negócio do movimento veio depois, então o pessoal achava que a gente já estava inserido. Depois eu fui ver que todas aquelas bandas que eram citadas eram amigas e a gente conheceu o pessoal depois. Eles se viam, se encontravam...

Lula – Um ia ao show do outro e tudo mais. Mas eu não acredito nessa coisa de movimento, não. Eu sou muito cético em relação a isso. Acredito, sim, que as bandas podem se unir e estão se unindo. Agora criar um movimento, eu acho meio forçado. Vou ser bem sincero contigo, eu acho isso coisa para jornalista.

Bruno – O pessoal fala coisas do movimento mangue, mas o movimento mangue era apenas Chico Science, Fred 04 e Renato L. Não era todo mundo, não. Nem eram trezentas bandas.

Lula – Eu acho bonito. A gente sabe que muita gente foi na calda do cometa “eu sou mangue”, mas ali existia um negócio muito bonito. Sagrado. Pelo menos para mim. Eu também não sei se existe movimento, como também não sei se existe movimento tropicalista ou se o pessoal meio que... Mas a gente não vai entrar nesse mérito. Não é da nossa época e a gente não vai ousar tanto.

Bruno – Agora, tinha algo daquela época que se acontecesse de novo... Olha quantas bandas assinaram com grandes gravadoras? Praticamente todas. Começou com Chico, depois veio mundo livre, Jorge Cabeleira, Eddie e muitas outras bandas.

Lula – Hoje eu vejo um movimento contrário. O pessoal não querendo assinar com gravadora. Eu vi outras bandas grandes comentando que gravadora eles não querem.

Bruno – Para alguns grupos é mais lucrativo não ter gravadora, mas na fase que o pessoal estava passando, na época, era outra história.

Foto: Ivan Alecrim

Eu lembro que uma vez eu conversei com um músico recifense e ele estava comentando que em Recife as pessoas saem de casa para ouvir uma determinada banda, elas não saem para ouvir música. Vocês compartilham desta idéia?

Lula – Rapaz, pelo que eu interpretei, eu achei interessante. Inclusive, muita gente não vai para os lugares alternativos porque não conhece as músicas e isso poderia ser o contrário. Eu vou porque eu não conheço. Ou vou porque eu conheço e quero vibrar com as canções que eu gosto, mas eu acho que a gente poderia ter esse hábito de estar mais aberto ao novo. Nós somos muitos desconfiados. O pessoal pensa que o que não toca na rádio ou no Som da Sopa (que era de Roger de Renor) não presta. Mas vale a pena você escutar. Tem muita coisa boa. Eu acho que vale a pena.

Nota: A Vacatussa é um grupo de narrativas, formado em Recife, em meados de 2004, por alguns ex-integrantes da Oficina Literária Raimundo Carrero.

Confira as apresentações do grupo

AGOSTO
24 - São Paulo (BlenBlen)
31 - Florianópolis (Bar Drakkar)

SETEMBRO
01 - Porto Alegre (Bar Dr. Jekyll)
02 - Pelotas
05 - Curitiba (Era só o que faltava)
06 - Campinas
10 - São Paulo (Choperia Sesc Pompéia)