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22 de agosto a 3 de setembro de 2005

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O VÔO DA MADRUGADA
Em seu novo livro de contos, ganhador do prêmio Jabuti, Sérgio Sant'Anna constrói uma escrita da busca e múltiplas leituras
por Conrado Falbo ( conradofalbo@yahoo.com.br )

uando se trata de Sérgio Sant'Anna, apenas poucas linhas são suficientes para sua apresentação. O ficcionista carioca conta com cerca de uma dezena de livros no currículo e já foi agraciado três vezes com o prêmio Jabuti, tendo, inclusive, um de seus livros adaptado para o cinema ( A Senhorita Simpson , em que se baseou o filme Bossa Nova , dirigido por Bruno Barreto em 2000). Em resumo: sua obra fala por si mesma.

O seu mais novo livro, intitulado O Vôo da Madrugada (Cia das Letras, 2003, 247 págs.), nos apresenta contos concisos em sua estrutura, mas que se bifurcam em múltiplas leituras. Na primeira e mais longa das três partes que compõem o livro, nos deparamos com ambientes tipicamente urbanos e opressivos. Os personagens, ao mesmo tempo deslocados e absorvidos pela cidade e por um cotidiano mecânico e tedioso, vagueiam em busca de algo que os liberte das angústias da existência.

O filho e a mãe que praticam incesto com uma espécie de “euforia desafiadora” e admiram-se por seu ato não despertar qualquer fúria divina; o pai de família de meia-idade que rememora sua iniciação sexual com a irmã; a mulher de classe-média que conta desesperada ao analista como sua rotina foi atrapalhada pelo vislumbre involuntário de um crime numa página de jornal. Ou ainda a velha senhora comparada a formigas de apartamento em sua aparente insignificância e o burocrata solitário que, ao contar uma “história de fantasmas”, descobre-se ele mesmo um espectro. Todas estas narrativas apontam para um desejo de libertação, uma ânsia de fuga que encontra vazão no espaço do sonho/delírio ou mesmo na morte, como forma última de redenção.

A idéia da morte como processo de purificação das podridões da vida, aliás, é recorrente no livro. “A voz” anunciadora da morte, em um dos contos, é portadora “não da tragédia, mas da boa nova”: a libertação, o “fim da merda”, “que atingirá seu paroxismo na putrefação”. O que existe além, no entanto, é sempre uma incógnita: “o encontro com Deus ou a revelação das delícias do nada”. Mas a dúvida, antes de inibir e desencorajar, é força mesmo impulsionadora, provocadora da busca: “diante da decrepitude e da doença, da dor e dos excrementos soltos de uma pessoa, o nada era um avanço, uma purificação”.

Essa busca de qualquer coisa além da vida ordinária e sufocante do dia-a-dia também se reflete na própria relação do autor com a escrita. Alguns de seus personagens fictícios se apresentam como narradores, tomando a pena nas próprias mãos e escrevendo seus relatos. Noutras vezes, o autor se expõe, apresentando-se ao leitor como “o contista” e dando um tom íntimo, por assim dizer, ao texto. Sempre se percebe, entretanto, uma espécie de “solidariedade” entre o escritor e suas criaturas, como se compartilhassem as mesmas inquietações, e fosse preciso expressar esse fato através de todas as vozes: dentro e fora do espaço da ficção.

A escrita desempenha um papel central no processo da busca, explorado explicitamente em alguns dos contos, como na abstração total perseguida em “Um Conto Abstrato”, que seria “um conto de palavras que valessem mais por sua modulação que por seu significado”, ou na idéia de “afastar-se dos significados mais manifestos da linguagem” para atingir o vago, o etéreo, presente em “Um Conto Obscuro”. A busca pessoal do autor desenvolve uma espiral que deságua nele mesmo, em suas experiências e nas memórias de fatos e pessoas que lhe são caras, fazendo-o até mesmo invocar seus mortos de uma forma bastante lírica, até destoante do conjunto dos textos, mais identificados com a crueza e objetividade da linguagem.

Um dos seus personagens-narradores nos diz que escrever é “talvez uma das maiores maldições entre todas, por nunca alcançarmos verdadeiramente, pelas palavras, a fusão que tanto almejamos”. Não obstante essa manifestação inicial de descrença, a escrita é o lugar mesmo da busca e sua principal ferramenta. O autor é plenamente consciente do risco que corre ao escolher a escrita como canal de expressão, já que “durante a escrita do conto, há sempre a iminência do fracasso, de o contista não conseguir manifestar seus fantasmas, entes, pensamentos mais soterrados, e não lograr traduzir em imagens uma ânsia desesperada de poesia, como salvação de um vazio”, mas a escolha está feita, e isso não se questiona.

A escrita se mostra também visceral, no exemplo radical de outro personagem que, num momento de desespero “(...) empunha a caneta esferográfica que está sobre sua mesinha-de-cabeceira e, deitado na cama, risca no braço esquerdo, nervosamente, como quem se pica (...)”.

Além das trocas de vozes entre autor e personagens presentes nos contos da primeira parte do livro, as múltiplas zonas de contato entre ficção e realidade são trabalhadas de forma surpreendente na segunda, composta unicamente do conto “O Gorila”, dividido em três segmentos. As confusões telefônicas causadas pelo protagonista, um sujeito frustrado e solitário que passa trotes indecentes assumindo a identidade de “o gorila” (uma projeção desejada de si mesmo), desencadeiam uma rede de fatos que culmina com seu suicídio. Toda a história, que começou como ficção, termina sendo também ficcionalizada quando passa a ser explorada por jornais sensacionalistas e programas de tevê. Sant'Anna se mostra em sua melhor forma, utilizando-se de uma fina e cortante ironia no tratamento que dá ao texto.

Na terceira e última parte do livro, temos “Três Textos do Olhar”. A partir da contemplação de duas pinturas e uma fotografia, passamos a ter contato com a experiência mesma do olhar do escritor, ao se posicionar como observador e nos relatar sua contemplação. A transmissão da sensação estética, única para cada apreciador, cada qual com seu próprio repertório de lembranças e associações, é o que se busca nestes “exercícios”. A busca da apreensão do irrecuperável, do intraduzível, que já se sabe frustrada a priori, não obstante é empreendida e se transforma, quando não num relato fiel da experiência, em literatura de primeiríssima qualidade.