| QUARTETO FANTÁSTICO
Quarto álbum da carreira do Los Hermanos aposta em uma nova sonoridade
por
Fábio Freire
(
fabio_fcosta@hotmail.com )
 uem diria que um grupo que começou a chamar a atenção graças a uma música pegajosa e formulaica como "Ana Julia" tenha virado o jogo e se transformado num dos nomes mais cultuados do cenário pop/rock nacional atual? Depois dos ótimos álbuns Bloco do Eu Sozinho e Ventura , o Los Hermanos não só conseguiu a façanha como passou a ser respeitado ao criar uma sonoridade própria e bem distante daquela que levou a banda ao sucesso. Os tempos de "Anna Julia" ficaram para trás, os muitos fãs pouco se importaram e o grupo ganhou uma aura mítica, sendo cada show do quarteto um verdadeiro palco de adoração. Agora, dois anos depois do bem sucedido e elogiado Ventura , é chegada a hora do Los Hermanos provar mais uma vez seu talento no novo 4 , quarto trabalho da banda.
E o quarteto ousou mais uma vez. Ao invés de seguir a fórmula dos trabalhos anteriores, álbuns recheados de músicas calcadas em belas melodias e letras inspiradas, o Los Hermanos optou por seguir um caminho mais radical: lançar um CD difícil, estranho e, por isso mesmo, perfeito em sua imperfeição. As letras são complexas e, dificilmente, se enquadram no esquemão de FMs, nada de refrãos ou frases de efeito. As melodias são menos monumentais e parecem desconstruídas, o que causa um certo estranhamento nas primeiras audições. Os arranjos são bem acabados e a sonoridade está mais “limpinha” que a dos discos anteriores, já que a produção decidiu deixar todos os instrumentos audíveis e perceptíveis. O uso de metais perde espaço e as influências do samba, que serviram como marca registrada dos discos Bloco do Eu Sozinho e Ventura , são menos visíveis. A pegada mais roqueira também é deixada de lado e o novo trabalho soa bem mais cinza e melancólico.
A grande força das doze faixas do álbum está, assim, nas interpretações de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, que, como de costume, se revezam nas composições e nos vocais. Os dois fazem um belo trabalho ao dar um tom muitas vezes fúnebre a letras que mais parecem poesia, cheias de possibilidades e significações. Ambos se saem vitoriosos na condução de uma obra triste e que não apela para sentimentalismos, por mais que, algumas vezes, as canções soem como um grito abafado de dor. A instrumentação bem trabalhada dos arranjos, que abrem mais espaço ainda para a interpretação dos vocalistas, também é fator fundamental para a coesão do álbum, que representa uma guinada na trajetória do quarteto. Pode-se até arriscar e dizer que 4 está para a carreira do Los Hermanos, assim como Kid A e Yankee Hotel Foxtrot , para os britânicos do Radiohead e os americanos do Wilco, respectivamente. Ou seja, uma quebra no horizonte de expectativas da crítica e dos fãs e a busca de um novo patamar sonoro.
No final das contas, é difícil dizer qual a sensação que o álbum deixa. De desagrado, já que muitos fãs esperavam ansiosamente por um novo Ventura , que continua sendo o ápice da carreira dos rapazes? Ou de novas expectativas, já que 4 traz um Los Hermanos que aposta em um rumo bem mais pretensioso e experimental? Talvez um misto. Faixas como “O Vento”, dona da estrofe mais triste do CD (“não te dizer o que eu penso/já é pensar em te dizer”), “Horizonte Distante”, “Dois Barcos” e “Condicional” não vão passar despercebidas. Outras, como “Fez-se Mar”, “Paquetá”, “Sapato Novo”, “Pois É” e “É de Lágrima”, apostam no arrojamento e vão agradar pelas inovações que trazem ao som da banda. E, convenhamos, ousadia é sempre mais que bem-vinda, principalmente em um mercado que pouco arrisca e prefere apostar em fórmulas desgastadas. Como aquela que mostrou ao mundo o próprio Los Hermanos e sua “Ana Julia”. Irônico, não?  |