| A DINÂMICA DOS RELACIONAMENTOS AMOROSOS
Novo DVD comprova o talento do diretor e dramaturgo Neil LaBute, o mestre do cinismo sexual no cinema independente
por
Luiz Andreghetto
(
luiz_andreghetto@hotmail.com )

epresentante da nova dramaturgia americana e um dos melhores roteiristas e diretores do cinema independente surgidos no final dos anos 90, Neil LaBute, 42 anos, ainda é pouco conhecido no Brasil. Talvez isso mude com o sucesso de público e crítica que está sendo a peça Baque (em cartaz em São Paulo), dirigida por Monique Gardenberg, e baseada em três textos curtos do autor.
Dono de um estilo seco e cruel onde ora os personagens são acuados, ora agressivos, LaBute adora percorrer o território da sordidez humana, onde a crueldade nos relacionamentos torna-se propulsora para que ele destile uma mordaz crítica à sociedade moderna, à mídia, ao consumismo e às dinâmicas sexuais.
Mas é no cinema que Neil LaBute encontra um espaço fértil e propício para exorcizar seu cinismo e mostrar o lado sombrio dos relacionamentos modernos. Assina a maioria dos seus roteiros ( Na Companhia dos Homens , Seus Amigos, Seus Vizinhos e Arte, Amor e Ilusão ), também usa material de outros autores, como é o caso de Possessão , baseado em um romance de A. S. Byatt e roterizado por David Henry Hwang, e A Enfermeira Betty , história e roteiro de John C. Richards.
Logo na estréia, causou furor no circuito independente com o misógino Na Companhia dos Homens ( In the Company of Man , 1997), onde dois amigos abandonados por suas respectivas namoradas decidem vingar-se das mulheres e reconquistar o “orgulho” de macho ferido, elaborando um plano de seduzir e conquistar uma vítima desprotegida e carente, abandonando-a logo depois. Sucesso no Festival de Sundance, eleito melhor filme de estréia pela Sociedade dos Críticos de New York e prêmio de melhor roteiro de estréia no Independent Spirit Awards, Na Companhia dos Homens serviu para mostrar que um novo olhar na intimidade humana, vindo de um jovem cineasta independente, estava surgindo: frio, exasperado e cruel. O longa marca também a colaboração de LaBute com seu ator-fetiche: Aaron Eckhart, que posteriormente também seria visto em Seus Amigos, Seus Vizinhos e Possessão .
Os relacionamentos sexuais e as eternas diferenças entre homens e mulheres são os temas principais de Seus Amigos, Seus Vizinhos ( Your Friends & Neighbors , 1998), retrato da classe média alta americana, onde a vida sexual dos amigos ou dos vizinhos sempre acaba sendo mais interessante que a sua. A história trata de seis personagens, três homens e três mulheres, em um vaivém de casais e desejos, onde a necessidade de falar de sexo, ou melhor, de fofocar sobre a vida sexual alheia, acaba sendo mais forte que o desejo do ato em si.
Com A Enfermeira Betty ( Nurse Betty , 2000) LaBute ganhou maior projeção devido ao prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2000 e ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia para Rennée Zellweger. Seu estilo torna-se um pouco mais comercial, ao contar a história de uma jovem garçonete de uma cidade interiorana que, ao presenciar a morte do marido, mistura ficção com realidade. Ficção essa que se apresenta na forma de uma “telenovela” americana onde o ator principal é confundido pela garçonete como sendo o ex-noivo dela. Uma fábula nonsense, carregada de humor negro que critica o poder da mídia e a falta de dignidade humana.
O próximo projeto de LaBute é atípico em sua filmografia: um romance de grande orçamento, muito mais próximo do mainstream do que do cinema independente que até então vinha fazendo. Possessão ( Possession , 2002) conta duas histórias paralelas: uma, entre dois estudantes, nos dias atuais, que pesquisam sobre dois poetas da época vitoriana, Randolph Henry Ash e Christabel LaMotte, e a relação extra-conjugal entre esses dois autores. Mais suavizado que seus filmes anteriores, Possessão padece da falta do cinismo e dos temas provocativos até então utilizados por LaBute. Talvez o grande orçamento tenha intimidado maiores ousadias por parte do realizador, que prefere trafegar por clichês e entregar um filme apenas correto na sua realização.
Após essa experiência “quase” mainstream, não tão bem sucedida assim, LaBute prefere voltar aos pequenos orçamentos e aos temas que lhe são caros. Seu mais recente trabalho, Arte, Amor e Ilusão ( The Shape of Things , 2003), acaba de ser lançado direto em DVD no país, sem muito alarde ou comentários. Uma pena, pois com o errôneo título nacional o filme acaba sendo “vendido” como uma tola comédia romântica, coisa que, com certeza, está muito longe de ser. Baseado em uma peça teatral do próprio diretor, o filme conta a história de Adam, um pacato e tímido segurança do museu da universidade, que se apaixona por Evelyn, estudante de Artes. A medida que o relacionamento progride, Adam sofre várias mudanças, físicas e comportamentais, que causa estranheza em todos que o rodeiam. Quanto mais Adam torna-se sedutor e desejável, mais seu lado obscuro, mesquinho e egoísta vem à tona. Como, ao tratar-se de LaBute, nem tudo é o que parece ser, Evelyn torna-se uma manipuladora voraz, culminando com uma grande revelação no desfecho da história. Adam é vítima de Evelyn ou é vítima dos seus próprios desejos e egocentrismo?
Se LaBute ainda não dirigiu a sua grande obra, coisa que com certeza é apenas uma questão de tempo, são seus textos (roteiros e peças) que consolidam a imagem de um autor com grande percepção da natureza humana e um nome que, com certeza, ainda vai dar muito o que falar.  |