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Em Jornalismo - A Saga dos Cães Perdidos , Ciro Marcondes Filho castra a mídia atual
por
Cell Blanc ( cellblanc@yahoo.com.br )
 m Jornalismo – A Saga dos Cães Perdidos , Ciro Marcondes Filho expõe à história do jornalismo os acontecimentos estabelecidos pela modernidade, como a manutenção do gênero burguês na sociedade, as democracias republicanas, os direitos sociais e humanos. Ciro crê que o jornalismo é a síntese da alma moderna, que impõe a razão, a verdade e a transparência sobre o estigma da tradição obscurantista que questionava o mundo e mantinha confiança irrestrita no progresso. Mas, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, esse progresso foi perdendo espaço e sendo engolido pela mágica da televisão e das novas tecnologias.
O jornalismo é resultante do abalo que a Revolução Francesa provocou na humanidade; ele lutava pelos direitos humanos enquanto a aristocracia era destituída, as monarquias tinham seu fim, e o sistema absolutista era abolido. Marcondes Filho acredita que o aparecimento do jornalismo também está associado à desconstrução do poder instituído em torno da Igreja e da Universidade. O saber praticamente estava nas mãos da Igreja até a invenção dos tipos móveis de Gutemberg; ele se espalha e começa a quebrar a unidade religiosa, como fez o protestantismo de Lutero. As Universidades, voltadas inicialmente às questões teológicas, monopolizavam o conhecimento, pois a formação profissional e intelectual exigia posses e influência, o que muitos poucos tinham. A Revolução Francesa abriu os segredos escondidos e reservados aos sábios, e deu ao jornalista a possibilidade de fazer de tudo pelo interesse da notícia. Assim surge o mito da transparência, influenciado pelo tempo das Luzes.
O primeiro jornalismo , de 1789 à metade do século 19, funcionava como forma de dominação, de manutenção de autoridade e do poder, facilitava a submissão e a servidão. Associava o poder ao homem, alegando que esse poder era natural, que Deus e a natureza criavam pessoas para mandar e para servir. Tudo é exposto excessivamente; então, queimado. Esse conceito advém da inutilização, da despotencialização do fato através de sua exploração demasiada.
O segundo jornalismo , o que capitaliza a empresa, surge com a inovação técnica da metade do século 19 nos processos de feitura do jornal. Essa transformação exige da empresa jornalística uma capacidade financeira que sustente o veículo, que pague a modernização das máquinas; com isso, o jornal precisa ser muito vendido para se autofinanciar. A imprensa é sintonizada com as exigências do capital, e a tirania criada divide o jornalismo. O valor de troca – o custo, o lucro – supera o valor de uso que se comprometia com a informação e a legitimidade. A publicidade ataca vorazmente os espaços e sustenta cada vez mais as redações. Essa imprensa de massa desaparece com a liberdade e atrai o entretenimento, a notícia sem caráter social, o divertimento; procura furos de reportagem e prega uma neutralidade que não é vista.
No século 20, o desenvolvimento e o crescimento de empresas jornalistas acabam por constituir o terceiro jornalismo , o que monopoliza, que é ameaçado por guerras e por políticas totalitárias. A publicidade se desenvolve ainda mais, juntamente com as relações públicas, e descaracterizam o jornalismo. Este, já não busca sempre a verdade, já não questiona mais política, não visa uma sociedade mais justa e humana; o descontentamento recai sobre a informação.
O quarto e último jornalismo , o do fim do século 20, é o jornalismo do tempo tecnológico que se inicia por volta dos anos 70. O caráter de persuasão é injetado nos noticiários, e o agente humano se vê trocado por máquinas que recolhem materiais de todos os cantos e produzem notícias. As assessorias de imprensa divulgam informações unilaterais e pretensiosas, e o jornalista apenas retransmite esses dados, afastando-se do caráter analista e comentarista da realidade. O jornalista produz seu materiais, mas eles atravessam etapas das quais o autor não participa; é editado, cortado, moldado, tudo de acordo com as pretensões do veículo. A precedência de imagem sobre texto torna a aparência e a dinamicidade de uma página decisivas. Temas curiosos, diferentes, ganham destaque nas edições, mesmo sem ter caráter relevante aparente. O jornal adquire aspecto de mercadoria, e seu potencial econômico é explorado ao máximo.
Essas alterações na estética, no formato, no conteúdo jornalístico, tiraram em grande parte a função social com a qual o jornalismo era comprometido; ele deixou de ser livre, descomprometido, espaço aberto às mais variadas manifestações. Tornou-se produto trabalhado, massificado, voltado ao mercado e dependente de gostos e interesses da grande massa. A audácia criativa, a perspicácia jornalística, perderam terreno para a produção incessante e rotativa de notícias.
O conteúdo implícito na informação também a manipula; a linha ideológica das produções indica apenas alguns dos caminhos a serem seguidos para se conhecer a verdade, mas não se obtém um reconhecimento integral do conteúdo. Temas importantes são utilizados em espaços pequenos, temas irrelevantes adquirem status e preenchem a capa dos jornais. A parcialidade não é seguida e o caráter político que o veículo mantém é percebido.
A plástica do jornal é tratada minuciosamente; fotografias são alteradas, cortadas, tornam-se tendenciosas. A distribuição delas com o texto é programada de modo que o espaço destinado à publicidade não seja afetado. Uma imagem reveladora, seguida de um texto curto, cria uma fugacidade que reforça o caráter instantâneo de informação.
A profissão de jornalista está sendo deteriorada; qualquer um hoje pode produzir informação e divulgá-la. O repórter tornou-se um seguidor de ordens, segue caminhos pré-estabelecidos pelo veículo para o qual trabalha, e vê seu esforço caindo por terra quando sua matéria é alterada e distribuída de maneira distorcida. Ele não mais interage e discute com outros jornalistas, pois apenas recebe sua missão e segue seu caminho; não há espaço para opiniões e mudanças. As agências de notícia soltam informações a todo momento, e muitos jornais apenas reproduzem esse conteúdo.
A televisão é popularizada e seus telejornais parecem mais comprometidos com o entretenimento e com um visual agradável do que com as matérias em si. Estas, já vêm prontas, anguladas segundo os interesses do informante; mastigadas, não permitem maiores interpretações e são absorvidas rapidamente pelo público. As imagens filmadas são planejadas de modo que se forje uma determinada expressão de um entrevistado, uma determinada situação no espaço físico da filmagem. O impacto torna meio caminho andado para que a notícia alcance repercussão.
O jornalismo tal como é feito hoje não agrada a Ciro Marcondes Filho. O caráter social de informação, sua potência como transformadora da realidade, sua legitimidade e autenticidade foram abandonados. O capitalismo resultante das Luzes está sendo mais forte que a liberdade que se esperava com esse período.

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