| “LITERATURA E VIDA NÃO PODEM ESTAR SEPARADAS”
O escritor João Silvério Trevisan fala sobre sua dedicação ao ofício da escrita numa dialética entre ficção e biografia
por
Conrado Falbo (
conradofalbo@yahoo.com.br )

om uma produção literária que engloba contos, romances e ensaios, além de colunas e contribuições em veículos impressos e virtuais, o paulista João Silvério Trevisan, ganhador por três vezes do prêmio Jabuti, ainda se vê às voltas com as dificuldades de viver do que escreve, além de ter sua obra rotulada de forma reducionista e preconceituosa.
Pioneiro na luta pela visibilidade da causa homossexual no Brasil, Trevisan foi um dos fundadores do grupo SOMOS e do histórico jornal “lampião de esquina”, idealizado por e para homossexuais. Atualmente, divide o tempo entre sua produção e a coordenação de oficinas de criação literária. Parte do resultado de tais oficinas já pode ser conferido no volume “Dezamores”, lançado pelo SESC São Paulo, que reuniu trabalhos de seus alunos.
Em passagem de férias pelo Recife, o escritor falou ao Rabisco , numa conversa que girou em torno da literatura, passando por vários temas. Confira a entrevista abaixo.
– Como é a sua experiência com a literatura como meio de vida? De que forma é possível viver de literatura no Brasil?
Trevisan – Eu acho que não é uma coisa muito simples não, viver de literatura no Brasil. Aliás, em boa parte dos países que eu conheço, a questão é muito complicada. Aqui no Brasil você tem um problema grave com os direitos autorais, por um lado. Por outro, você também tem um problema com a venda de livros. O consumo de livros no Brasil é muito baixo, e a tendência é que você receba menos direitos autorais. Por outro lado, essa venda é dificultada também pelos esquemas, pelos mecanismos de distribuição. São bastante precários, não há nenhuma agilidade, o que seria de se esperar de uma indústria editorial poderosa como é a brasileira. Então, na verdade, o que eu fiz durante uma boa parte da minha vida foi viver de traduções, o que era uma desgaste violento porque paga-se muito pouco por tradução, com raríssimas exceções. Ou então viver, como eu vivo atualmente, de oficinas literárias. Mais do ensino, da pedagogia sobre a literatura do que diretamente da produção literária, da venda de livros.
 – E como você avalia as dificuldades que um autor estreante enfrenta hoje, por conta das peculiaridades desse mercado editorial brasileiro?
Trevisan – Eu acho que as dificuldades são muito maiores do que no meu tempo, por incrível que pareça. Acho que a batalha é muito grande para quem quer começar a fazer literatura no Brasil hoje.
– Toda a sua trajetória como escritor, com diversos livros publicados por grandes editoras e vários prêmios recebidos, faz alguma diferença hoje? A visibilidade adquirida com a consolidação da sua carreira ajuda hoje nesse processo de viver de literatura?
Trevisan – Não, não acredito que tenha mudado quase nada. Eu acho que, se você tem disposição e esquemas para insuflar algum tipo de divulgação da sua obra, tudo bem. Agora, eu não me vejo na obrigação de fazer nada disso porque eu tenho uma agente literária, tenho uma editora e acho que a editora é que tem que divulgar meus livros. Como eu não sou um escritor de massa, não sou um escritor de best-sellers, sou um escritor de grupos mais ou menos reduzidos, isso também significa para mim muita dificuldade em ter qualquer tipo de evolução da minha carreira em função do fato de ser mais conhecido ou menos conhecido. Para você ter uma idéia do que estou dizendo, os meus três últimos livros nunca foram resenhados na grande imprensa. Se você fosse levar em conta a quantidade de prêmios que eu tenho... Eu nunca fui resenhado pela revista Veja . Minha carreira vai fazer 30 anos no ano que vem e jamais tive um único livro resenhado pela revista Veja , por exemplo. Estou dando exemplos. Então, isso é muito relativo.
– Passando da literatura em geral para a sua literatura, um elemento muito presente em seus livros é a metalinguagem. Como é sua relação com esse texto que questiona a si mesmo? Como se dá isso no processo da escrita?
Trevisan – Essa é uma preocupação que me acompanha sempre, praticamente desde o primeiro livro. Como todo o esquema de diálogo com a literatura, de intertextualidade, com citações, com o trabalho de estilística, dialogando com outros autores e com outras épocas. Eu acho que é uma saída muito pós-moderna, é um dos elementos interessantes da pós-modernidade no sentido de que você estará muito mais apto a abrir o campo do seu diálogo com a literatura. Eu acho que seria desejável que a gente englobasse na nossa literatura a nossa capacidade enquanto leitores e críticos. Então, acho que você dialogar com seus escritores prediletos faz muito bem para a literatura de qualquer um.
– A literatura seria uma forma de busca?
Trevisan – Acho que a literatura tem, antes de mais nada, o compromisso com a poesia. Se você tem algum esquema de fé poética, naturalmente a literatura tem um sentido muito especial. Pra mim, a poesia, aquilo que dá sentido à literatura e às artes, é das poucas possibilidades de subverter a experiência humana. A poesia oferece pra gente um grande aprendizado de vida interior.
– Outro elemento que aparece muito forte na sua literatura é a inclusão de elementos biográficos nos textos. Como isso acontece? É uma coisa pensada ou aparece naturalmente no fluxo criativo?
Trevisan – Você pode dizer que é uma coisa pensada no sentido de que eu respondi a uma necessidade minha, pensadamente. Eu sempre achei que literatura e vida não podem estar separadas. Eu gosto de, na minha literatura, inserir elementos biográficos para que as duas coisas possam dialogar: a ficção e a biografia.
– E qual o papel da sexualidade nesse diálogo entre ficção e biografia?
Trevisan – Acredito que a sexualidade seja um aspecto muito importante da vida de qualquer um de nós e, no meu caso, a sexualidade e a minha sexualidade são pontos de vista muito particulares que podem oferecer à minha literatura um olhar particular. Eu me sinto muito feliz em trabalhar a minha poesia através da minha homossexualidade, por exemplo.
– A sexualidade, enquanto elemento definidor da identidade pessoal de cada um, é supervalorizada na sociedade de hoje?
Trevisan – Eu acho que a sexualidade hoje é explorada de uma maneira inaceitável como elemento da cultura de massas. Como elemento que ajuda a mover a cultura de massas. Basta você ver, por exemplo, o que se faz nas telenovelas. E isso é uma manipulação da nossa sexualidade. E, obviamente, isso também significa que estarão sendo impostas formas de sexualidade como sendo sexualidades hegemônicas, e isso me parece uma maneira muito grave de manipular a sexualidade do ser humano.
– Com relação à homossexualidade, especificamente, há diferenças?
Trevisan – É justamente isso que eu quero dizer. As formas hegemônicas de sexualidade são privilegiadas. Não se pode dizer que a homossexualidade seja hegemônica. A obrigatoriedade que as nossas sociedades têm em relação à heterossexualidade é uma obrigatoriedade manipuladora porque tudo te leva a ter um ponto de vista heterossexual, desde os produtos que são vendidos heterossexualmente até as revistas que você encontrar na banca. Então, é uma verdadeira lavagem cerebral que a mídia faz para responder a esta sexualidade hegemônica.  – Não há também uma imposição pela mídia de padrões a serem seguidos, mesmo em se tratando de uma sexualidade não-hegemônica como a homossexualidade?
Trevisan – A cartilha é imposta no momento em que se usa a homossexualidade para se conseguir algum objetivo. Por exemplo, as telenovelas: elas usam sistematicamente a homossexualidade para levantar o Ibope, e isso tem as mesmas características relacionadas à manipulação da sexualidade heterossexual. A homossexualidade também está sendo manipulada, só que num sentido um pouco mais negativo, ou bastante mais negativo. A heterossexualidade é colocada como um padrão a ser seguido, e a homossexualidade é colocada como um padrão que leva ao escândalo. Há um voyeurismo, e é esse voyeurismo que provoca o aumento do Ibope.
Livros de João Silvério Trevisan:
Testamento de Jônatas Deixado a David (contos, 1976)
As Incríveis Aventuras de El Cóndor (romance juvenil, 1980)
Em Nome do Desejo (romance, 1983)
Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (romance,1984)
Devassos no Paraíso (ensaio histórico-antropológico, 1986)
O Livro do Avesso (romance, 1992)
Ana em Veneza (romance, 1994)
Troços & Destroços (contos, 1997)
Seis Balas num Buraco Só: A Crise do Masculino (ensaio, 1998)
Pedaço de Mim (coletânea de ensaios e artigos, 2002)
|