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30 de outubro a 12 de novembro de 2005

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SÁBIO E POETA
Texto infantil de Anatole France traz ilustrações de Alano Freitas e um diálogo para todas as idades
por Conrado Falbo ( conradofalbo@yahoo.com.br )

acques Anatole Thibault ou Anatole France, como assinava suas obras, foi um típico intelectual francês do século XIX, com toda a erudição que uma rígida formação acadêmica lhe pôde proporcionar. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1921 e reconhecido mundialmente por sua vasta e variada produção literária, pouca gente sabe que ele também escreveu para crianças. Um de seus contos para o pequeno público, O Artista ( Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – 2004) , foi resgatado numa bela edição bilíngüe. O texto foi traduzido do original francês por Cláudio Giordano, que escreveu também um posfácio com uma breve apresentação do autor e de sua obra.

Acompanhamos a história do garoto Miguel, apresentado desde logo como o “filho de um pintor”, que ensaia suas primeiras tentativas como artista plástico e se depara com as várias dificuldades técnicas deste ofício. A singeleza do texto original - sua mais marcante qualidade - foi mantida pela sensível tradução. O artista cearense Alano Freitas, responsável pelas ilustrações, personificou Miguel em seus exercícios artísticos de uma forma tão profunda que remete o leitor mais velho aos tempos das aulas de arte na escola.

Além da pequena narrativa, o livro traz um texto complementar onde Anatole France é apresentado ao jovem leitor brasileiro. Nesta parte da obra, também são reproduzidos trechos de cartas do autor, onde se pode notar sua preocupação com a escrita direcionada para o público infantil. France, em suas cartas, examina de forma bastante perspicaz o controverso tema da literatura feita para crianças (por adultos).

Como alerta o autor, crianças são um público exigente, não se deixam enganar e perdem logo o interesse quando percebem que o escritor se esforça para entrar no reino delas. A solução, segundo ele, é convidá-las a uma viagem por outros mundos, pois “os pequenos são tomados da curiosidade que faz os sábios e os poetas: querem que lhes seja revelado o universo [...] Os autores que se curvam diante deles e os mantêm na contemplação da própria infância aborrecem-nos cruelmente”.

A grande carga de racionalização que se procurava impor desde cedo às crianças de sua época é outro ponto que inquietava o escritor francês. Ele, que entendia perfeitamente a importância do mundo fantástico dos contos de fadas na formação de uma pessoa, revoltava-se contra um cientificismo que terminava por povoar sua sociedade de “farmacêuticos que temem a imaginação”. O livro vale a leitura, independente da idade do leitor. Classificações etárias se tornam menos importantes diante da valiosa lição de um intelectual que nunca deixou de ser criança, com aquela inocência marota de quem entende muito bem que “as fadas existem justamente porque são imaginárias”.