| A PROVA DE BOND
Escolhido como novo James Bond, Daniel Craig é desafiado pelo bom desempenho de Sean Connery e Pierce Brosnan
por
Ricardo Stabolito Junior (
ricardostabolito@bol.com.br )

oram meses de espera. Fãs ansiosos tentavam, a todo minuto, adivinhar quem seria o próximo ator a encarnar o agente secreto James Bond. Muitos foram os nomes cogitados e os boatos soltos na imprensa. Mas, no último dia 14 de outubro, a cerca de noventa dias do início da produção do próximo filme da série 007 – Casino Royale –, toda a incerteza se dissipou com o anúncio do britânico Daniel Craig como novo protagonista da série.
A apresentação oficial de Craig à imprensa foi feita em entrevista coletiva a bordo do barco HMS President , no Rio Tâmisa . O mistério sustentado pela Sony Pictures (que recentemente comprou a MGM) e pelos produtores Michael G. Wilson e Bárbara Broccoli “caiu” após a mãe de Craig – Carol Blond – dar declarações ao jornal The Sun falando do filho já como o novo agente 007. “Isto acontece (com Craig) em um bom momento da sua carreira. Acho que ele aportará algo muito interessante ao papel” – disse Carol.
Daniel Craig tem 37 anos e será o sexto ator a protagonizar a série 007. Seguindo a tradição da franquia, um ator desconhecido do cinema americano foi o escolhido para o papel de James Bond. No entanto, na Inglaterra, Craig é famoso por sua participação na série Our friends in the north . Talvez, o ator seja mais conhecido nos EUA pelos seus casos amorosos do que pela pequena filmografia, já que ele “manteve contato” ultimamente com a atriz Sienna Miller e com a modelo Kate Moss. Quando questionado sobre qual das duas preferia como Bond girl , ele disse que não faria comentários a respeito.
Por ser louro, Craig é chamado pela imprensa de “James Blond” – ele será o primeiro ator a dar vida a um Bond louro na história da franquia. Parte dos fãs da série discorda da imprensa pelo fato de Roger Moore, que interpretou Bond de 1973 a 1985, também ser louro, apesar de ter aparecido em alguns filmes com o cabelo mais escuro. Falando em Moore, ele foi o primeiro ex-Bond a dar boas-vindas públicas a Daniel Craig.
Pierce Brosnan era o ator que vinha personificando o agente 007 no cinema. Ele começou a protagonizar a série em 007 contra Goldeneye (1995), filme que revitalizou a franquia após seis anos parada. Brosnan ainda estrelou mais três películas como o agente britânico, sendo a última 007 – Um novo dia para morrer (2002). O ator conquistou os fãs, conseguiu levantar a série após o período de estagnação e “arquitetou” o estilo do 007 moderno; Pierce Brosnan foi um tiro certeiro dos produtores e da MGM.
No entanto, dois fatores teriam causado a saída de Brosnan da série: o alto cachê que o ator teria pedido para realizar mais um filme (cerca de 30 milhões) e a sua avançada idade (52 anos). A questão da idade torna-se ainda mais agravante pelo fato de Casino Royale ser a primeira aventura de James Bond escrita por Ian Fleming, ou seja, o agente precisaria aparentar os 28 anos retratados no livro. Contrariando todos esses fatos, a maioria dos críticos e os amantes da série acreditam que desistir de Pierce Brosnan seja um grande erro. “Eles não deveriam tê-lo deixado partir” disse Steven Jay Rubin – autor da The Complete James Bond Encyclopedia .
Para ser escolhido, Craig passou por um processo de seleção que se estendeu por cerca de 15 meses e que teve avaliação de mais de 200 atores. Entre os nomes famosos apareceram: Hugh Jackman, Colin Farrell, Clive Owen, Jude Law, Ewan McGregor, Julie McMahon (da série de TV Niptuck ) e, pasmem, o veterano Kevin Costner. Até mesmo o croata Goran Visnjic chegou a ter chances de encarnar o agente secreto. Mas, na reta final, o grande adversário de Craig pelo papel de Bond foi Henry Cavill. É provável que a pouca idade de Cavill (22 anos) pesou de forma definitiva na escolha de Daniel Craig.
Grande parte dos fãs não nega que prefeririam a manutenção de Pierce Brosnan na série ou a escolha de Clive Owen (que mostrou ter elegância bastante para ser Bond). Mas, a posição dos fãs perante Daniel Craig é de esperança e torcida pelo sucesso do ator, passando longe de uma eventual hostilidade.
A incerteza quanto à atuação do novo Bond leva os fãs a lembrarem de um erro que ficou para a história da franquia. Após as gravações de Com 007 só se vive duas vezes (1967) – quinto filme da série – Sean Connery resolveu não voltar a interpretar o papel do agente britânico alegando: “estar em busca de novas experiências profissionais”. Começou-se uma verdadeira “caça” a um novo ator para interpretar Bond e o escolhido foi o desconhecido George Lazenby. Dizem os entendidos que a experiência profissional de Lazenby resumia-se a alguns poucos comerciais na Inglaterra e que ele causou boa impressão nos produtores por ser bem aparentado e ter um tipo físico ideal para as cenas de luta. Antes da audição final, Lazenby gastou suas últimas economias na compra de um terno e em uma visita ao cabeleireiro.
O ator protagonizou o sexto filme da série 007 A serviço secreto de Sua Majestade (1969) e o resultado foi desastroso. Os fãs, acostumados ao carisma e experiência de Connery no papel, não receberam bem Lazenby, assim como grande parte dos críticos. Apesar de não ter sido um fracasso de bilheteria, o filme arrecadou menos que seus anteriores. Conclusão: a experiência com George Lazenby mostrou-se um grande erro.
A saída para os produtores da época Albert Broccoli e Harry Saltzman foi voltar a insistir com Sean Connery. No fim, Connery acabaria por ceder e protagonizaria 007 Os diamantes são eternos (1971), mas sem deixar barato. O ator recebeu um cachê de 1,25 milhão de dólares (o maior pago até a época), participação de 12,5% na bilheteria do filme, além da United Artists ter contraído o compromisso de financiar dois projetos escolhidos pelo próprio Sean Connery. O engraçado é que após o filme, Connery se desligou da franquia e sua carreira entrou em declínio profundo, só voltando a decolar em 1983, ao interpretar novamente James Bond em 007 – Nunca mais outra vez ( Never say never again ), conhecido como o filme “não-oficial” da série.
Quando se vê todo o panorama a cerca da escolha de Craig, a única certeza é a renovação pela qual a franquia 007 deverá passar nos próximos anos. E diretores de peso como Quentin Tarantino e John Woo estão muito interessados em fazer parte desse processo de renovação. Mas, em Casino Royale , o diretor será um velho conhecido, Martin Campbell, que já dirigiu 007 contra Goldeneye. |