| DA MAGIA À PERDIÇÃO
Nicole Kidman desperdiça charme, beleza e talento no insosso A Feiticeira
por
Fábio Freire (
fabio_fcosta@hotmail.com )

ão é de hoje que a crítica reclama da falta de criatividade de Hollywood. Adaptações literárias, de peças de teatro, histórias em quadrinhos, videogames e até parques temáticos; remake de filmes antigos e produções de outras nacionalidades; e, claro, releituras de famosos seriados televisivos. Tudo serve de matéria-prima para a indústria cinematográfica transformar o que já foi feito em rentáveis produtos embalados como novos e manter, assim, o interesse do público. Mas, às vezes, a maquinaria hollywoodiana tenta driblar a repetição e injetar um pouco de originalidade nessas mesmas produções, legitimando, dessa forma, um procedimento cada vez mais vicioso. Pena que, em alguns casos, o tiro saia pela culatra.
Um exemplo é o recente A Feiticeira , adaptação do famoso seriado dos anos 60, que chega agora às telas com uma premissa que procura fugir do lugar comum. O foco não está no seriado em si, mas na tentativa de um ator decadente (o exagerado Will Ferrell) recuperar sua carreira como o protagonista da refilmagem da série, um pacato sujeito casado com Samantha, uma bruxa que tenta parar de usar seus poderes. Com um ego histriônico, o outrora astro quer todas as atenções para si e exige, assim, uma atriz desconhecida para interpretar sua parceira em cena. O que ele não sabe que é que essa novata, Isobel (Nicole Kidman), é uma bruxa de verdade cansada de viver às custas da magia.
Dessa forma, os produtores optaram por não realizar uma simples adaptação ou releitura de A Feiticeira , abrindo um leque de possibilidades ao brincar com a metalinguagem e com o star system hollywoodiano – em que a “estrela” é dotada de uma aura própria e, supostamente, tem uma qualidade de ser – ou, ao menos, uma qualidade de imagem – literalmente excepcional, que dá a cada uma de suas aparições (nos filmes ou fora deles) um valor singular.
O problema de A Feiticeira é que a premissa banal não consegue sustentar duas longas horas de projeção. O que a princípio parece engraçado, com o tempo se torna cansativo e absurdo, já que o egocêntrico ator transforma a personagem da bruxinha Samantha numa mera coadjuvante de seu próprio programa, o que invalidaria de imediato a existência do seriado. Para piorar tudo, a idéia central é completamente abandonada ao longo do trabalho, que se reveza em ser um filme chato sobre “o fazer” televisão e uma comédia romântica repetitiva e sem novidades. Daí é mais do mesmo. A bruxinha simpática e ingênua se apaixona pelo ator, descobre que está sendo usada por ele, lança alguns feitiços, arrepende-se, revela ter realmente poderes mágicos e vai embora. Tudo para no final se reconciliar com o ator, que já não é mais tão mau caráter assim. E o que era para ser original termina como um pastiche mal feito.
Lógico que o filme não é de todo ruim, mas as poucas qualidades do trabalho (Nicole Kidman esbanja charme e está à vontade no papel; algumas soluções visuais são bem interessantes; a trilha sonora traz a bela At My Most Beautiful , do REM) nem de longe conseguem fazer esquecer os vários erros da produção. A começar pelo roteiro escrito por Nora Ephron – que apesar de ter no currículo trabalhos ótimos como Harry & Sally. Feitos um para o Outro e Sintonia de Amor – transformou A Feiticeira em uma colcha de retalhos de idéias sem fundamento. Nora também dirige o filme e parece pouco à vontade nas duas funções.
O resultado é um trabalho frouxo, cheio de lacunas e sem um pingo de personalidade. Até as personagens coadjuvantes, que geralmente rendem nesse tipo de filme, são mal aproveitadas e completamente esquecidas, caso dos veteranos Michael Caine, que interpreta o mulherengo pai de Isobel, e Shirley McLaine, que vive uma atriz que representa a mãe de Samantha no seriado que está sendo refilmado. O que nos resta, então, é acompanhar as caras e bocas de um Will Ferrell no auge de sua canastrice, o que o invalida como par romântico, e ficar constrangidos pela encrenca em que Nicole Kidman se meteu. Se a razão de ver A Feiticeira é a estrela, melhor ficar com o simpático Da Magia à Sedução , no qual ela também vive uma bruxinha. Nesse, ela pode até não mexer o nariz, mas pelo menos não paga mico.  |