| TERRA ESTRANGEIRA
O Jardineiro Fiel marca a estréia de Fernando Meirelles em Hollywood
por
Fábio Freire
(
fabio_fcosta@hotmail.com )
 idade de Deus não só provou que o cinema nacional está tecnicamente em pé de igualdade com Hollywood, como revelou o talento do diretor Fernando Meirelles ao mundo. O filme recebeu vários prêmios, indicações ao Oscar e ganhou respaldo onde foi exibido. Mas isso é um passado recente conhecido por todos. Três anos depois do sucesso da produção nacional, Meirelles enfrenta agora um outro desafio: provar que Cidade de Deus não foi apenas um caso isolado em sua filmografia, já que os anteriores As Domésticas e Menino Maluquinho 2 nem de longe demonstraram o potencial do diretor. Como se não bastasse a pressão em repetir o feito, Meirelles ainda está tendo que demonstrar competência em seu primeiro trabalho internacional, o aguardado O Jardineiro Fiel .
Se Walter Salles, outro diretor exportado para Hollywood, não conseguiu escapar das armadilhas da indústria cinematográfica com o terror Água Negra , Meirelles teve mais sorte. O Jardineiro Fiel foi bem nas bilheterias e tem recebido críticas calorosas. Mesmo sendo um produto de estúdio, o filme traz muitas marcas autorais do diretor, mostrando que Meirelles não se limitou à função de um mero “peão de obra” e manteve as rédeas da produção sobre o seu comando. O resultado é um trabalho honesto e que se não chega a superar Cidade de Deus , pelo menos passa longe de macular a carreira do diretor.
Nas mãos de alguém menos competente, O Jardineiro Fiel , baseado no romance homônimo de John Le Carré, não passaria de mais um thriller político descerebrado e com cara de filme de ação, algo como as adaptações dos livros de John Grisham ( O Dossiê Pelicano ) ou Tom Clancy ( Jogos Patrióticos , Perigo Real e Imediato ). Mas o longa foge desse rótulo fácil e ganha uma transposição franca que o transforma em um romance com pitadas de teor político. A força motriz está nas personagens de Ralph Fiennes (em um papel que lembra um pouco suas participações em O Paciente Inglês e Fim de Caso ) e Rachel Weisz, e não na ação. Ele interpreta Justin Quayle, um diplomata britânico que passa horas cuidando do jardim e é casado com Tessa, uma ativista que morre misteriosamente ao descobrir que alguns laboratórios farmacêuticos estão agindo de forma antiética nos confins da África.
Mas Meirelles não deixa que seu filme se limite apenas a busca da verdade sobre a morte de Tessa, que nunca é uma surpresa para o espectador. O diretor acerta ao gastar tempo mostrando como o diplomata e Tessa se conheceram e o grau de intimidade do casal, já que a relação dos dois é o ponto de partida do longa, abrindo espaço para duas interpretações entusiasmadas dos protagonistas. Fiennes procura fugir do esteriótipo de herói, apesar do roteiro insistir na velha fórmula “um homem contra todos”, e surpreende ao mostrar segurança em um papel maduro e difícil. Já Rachel Weisz prova, finalmente, que é uma boa atriz. Mais conhecida por papéis rasos em filmes como A Múmia e Constantine , aqui, ela promove uma virada na sua carreira ao pontuar toda a produção com uma energia que ilumina a tela. Graças à sensibilidade do diretor, que ao trazer elementos mais humanos ao filme faz com que este se sobressaia no meio da mesmice que vem assolando o cinemão americano este ano.
Os detratores do diretor podem até reclamar da fotografia pretensiosa e com cara de publicidade de carro, da câmera nervosa e trepidante e de algumas tomadas que querem a toda prova mostrar a África como um cartão postal. Mas, por mais que Meirelles mantenha sua preocupação com a parte visual do filme, ele jamais permite que esse senso estético se sobressaia à história. A edição caprichada, o ritmo fluido e os aspectos sociais esboçados em Cidade de Deus também estão presentes, em maior ou menor grau, em O Jardineiro Fiel , mas o que mais chama a atenção nesse trabalho é a vontade do diretor em fazer um bom filme. Um longa que não vai mudar a história do cinema, mas que deixa uma sensação agradável ao final da sessão.  |