| LUTA DE CLASSES NUA E CRUA
Machuca mostra disputa pelo poder no Chile a partir da vida de dois garotos
por
Rodrigo Herrero
(
rodrigo@rabisco.com.br )
 antiago, 1973. A capital chilena vivia sob tumultos constantes, com protestos nas ruas e ânimos cada vez mais acirrados. De um lado, os apoiadores do governo marxista de Salvador Allende, eleito por uma base aliada formada pela Unidade Popular de esquerda, que tentava implantar o socialismo numa das nações mais conservadoras da América Latina. A maioria das pessoas a seu favor eram pobres, humildes, residentes em favelas, que já tinham se acostumado com as dificuldades e a miséria, mas viam no novo governo a esperança de melhorar suas condições de vida. Do outro, os chamados direitistas, opositores de Allende, procuravam combater de todas as formas o governo socialista, enfraquecê-lo e retomar o controle do País. A maioria de seus integrantes fazia parte da chamada classe média chilena, que sempre viveu das regalias da máquina pública e que, naquele momento, viam suas benesses ameaçadas.
Esse é o cenário resumido em que está inserido Machuca , filme do diretor chileno Andrés Wood. A história da película retrata a tentativa de um padre, reitor de uma escola particular inglesa para meninos, de integrar os estudantes ricos aos jovens moradores de uma favela próxima, colocando estes últimos na escola, de graça. Daí nasce a amizade de dois garotos: Gonzalo Infante, de família abastada e fragmentada pelo adultério da mãe a seu pai, e Pedro Machuca, de pai bêbado, mãe batalhadora, dilacerada pela pobreza, vivendo num barraco de único cômodo, perto das montanhas. Apesar das diferenças econômicas, da distância entre as famílias (que não possuíam nenhum tipo de ligação) e do preconceito dos ricos sobre os pobres do colégio, os dois firmaram uma amizade pura, sem ligações ideológicas, adesão à causa ou por pena, mas pela simples afinidade, daquelas que surgem durante a infância na escola e parecem que vão durar para sempre. E às vezes duram.
Porém, a luta de classes no Chile estava muito acentuada e iria definir o destino e a união desses garotos. Surgiram reclamações de parte dos pais ricos que não queriam que seus filhos se misturassem aos pobres. Essa discriminação refletia no comportamento das crianças que brigavam entre si, demonstrando o preconceito apreendido de seus familiares. Ao mesmo tempo, o clima político no País complicava ainda mais a possibilidade de um governo socialista. Havia o racionamento de alimentos para atender a todos, enquanto o mercado negro abastecia a aqueles que possuíam dinheiro para comprar o que os comerciantes desviavam do que deveria ser destinado a todos. As estradas estavam fechadas para evitar o reabastecimento de suprimentos e as manifestações na capital cresciam, sejam a favor ou contra Allende.
Até que veio o golpe militar, em 11 de setembro daquele mesmo ano, quando o Palácio La Moneda foi invadido por bombas e militares, liderados pelo general Augusto Pinochet, que ficaria famoso anos mais tarde pela forma cruel e sangüinária que governaria o Chile. No filme, esta situação é representada por aviões circulando a cidade e imagens de televisão que mostram a destruição em La Moneda. Segundo a versão oficial e aceita pelo filme, Salvador Allende, eleito democraticamente pelo povo nas urnas, teria se suicidado dentro do palácio, antes de ser destituído do poder pelos soldados. Esta versão é amplamente questionada até hoje pelos movimentos pró-Allende, que afirmam que ele foi assassinado pelo exército de Pinochet Com o golpe, o padre-reitor do colégio foi devidamente afastado, assumindo o controle um militar, infestando de soldados as dependências da instituição de ensino.
A ditadura e as diferenças econômicas e ideológicas trazidas com o golpe aprofundaram de vez o cerco aos pobres que apoiavam Allende, afastando de vez os amigos Pedro e Gonzalo, que iriam crescer e amadurecer mais rápido, sob o jugo das armas e da repressão. O preconceito de parte a parte aflorou nos dois garotos, provocando uma briga definitiva que iria separá-los para sempre. Nem mesmo quando Gonzalo voltou à favela e viu a família de Pedro sendo massacrada pelas forças repressivas da ditadura pareceu haver mais volta o tempo da amizade e da pureza da infância. Começavam tempos de guerra, difíceis, de preconceito e violência, simbolizados quando um soldado de Pinochet quis levar Gonzalo junto com os outros pobres, quando este saia da favela, e o garoto simplesmente disse algo como “Olhe para mim e diga se sou daqui” e, após o militar ter visto a bicicleta, o tênis bom e as roupas bem cuidadas resolveu deixá-lo ir.
Filmes como Machuca são interessantes, pois mostram que a luta de classes existe e como os “direitistas” se posicionam carniceiramente contra seus inimigos, seja em momentos de paz, mas, principalmente, em tempos de garantir sua dominação sobre os desfavorecidos. Não importa se a mudança se encaminha para uma ditadura militar sangrenta (como também vimos aqui no Brasil), contato que os “favelados de mierda”, como eram chamados os pobres no filme, não tivessem oportunidade de nada e ficassem distantes, com suas dificuldades, pobreza, imundície, atraso, ilusões. Machuca mostra que o preconceito social – comum na luta de classes, quando os pólos opostos se repelem – pode ser uma das piores formas de segregação humana.
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