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12 de novembro a
3 de dezembro de 2005

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ALMA DE MENINA LINDA
Com pluralidade artística, Nô Stopa se manifesta. No cenário musical, ela distorce e acalma com a mesma atitude, leveza e sabedoria
por Paullo Phirmo ( pphirmo@hotmail.com )

 

Foto: Iatã Cannabrava

ma manifestação artística é algo de extraordinário. Transcendendo os limites da cotidianidade, porém tendo estes como pilares da inventividade, está além das normas de pensamento, além do corpo, além do corriqueiramente escrito, dito e feito. Cria e ascende a novas instâncias do entendimento e sentimento, pleno de novidades e novos ares.

 

Na urgência deste pulsar criador, Nô Stopa exala a necessidade de manifestar o que a constitui enquanto humana. Ela cresceu exprimindo o seu eu comunicador. Nascida num “berço instrumental”, carinhosamente estruturado por genitores músicos, durante toda sua vida, parece ter buscado o calor da declaração. Uma criança feliz, que dera lugar a uma menina graciosa,  que compartilha felicidade com a mulher alegre de viver. E assim, num discurso profundo, gradativo e primoroso, amadureceu em meio à dança, ao teatro, à ginástica, ao circo e ao canto. Essencialmente, ser que se expressa por meio da arte. Todavia, o seu poetar encontrou instrumento de exalação mais desejoso e confortável na música e desse modo, a arte se naturalizou agente, se institucionalizou como caminho de proposições, questionamentos, relatividades e delicadezas no trato com os fenômenos vividos.

Crescida, caminhante, cicatrizada e feliz, Nô Stopa apresenta poeticamente as suas marcas. O canto de suas percepções, em próprias composições e magistrais parcerias (com Marcelo Bucoff, Wesley Nóog e Chico César), enfeitiçam a realidade. Características ilustradas num misto de Camomila e Distorção , título do seu primeiro CD, onde é acompanhada por uma banda composta por talentosos profissionais; que são ao mesmo tempo, amigos, parceiros de arte, de ideais e de expressão. As letras das músicas apontam para uma linda menina, uma serena e experiente mulher que, dá vazão à sua essência analítica, criadora e recriadora do amor, da ordinariedade, da dúvida e da simplicidade.

Em “ abre aspas ”, por meio da expressividade amorosa, Nô fala sobre como o estar fora da norma, do esperado e previsível, pode criar interrogações. Ao mesmo tempo aponta para o real prazer e sensação de liberdade quando nos reconhecemos como escritores de linhas, ditas tortas. Uma postura que tem seu preço, e que pode exigir alguma flexibilidade à custa de não estar em meio ao vazio, à espera, à saudade e à solidão, como traz a profunda “ perdi a conta ”.

Cicatriz ” relembra poeticamente, o deleite e a força das marcas que a paixão, o amor imprime em cada um de nós. Muitas vezes nos perdemos, sentindo-nos à distância da razão, da real noção das coisas. Contudo, neste contexto tudo é mágico e só parece haver sentido na presença do objeto de amor.

Foto: José Roberto Vaicenkovas

Na doce regravação da composição “ satellite of love ”, de Lou Reed, a fantasia, a simplicidade e a gostosa cotidianidade do amor é que estão presentes. Uma cotidianidade que, porém, pode abrigar as contradições que todos possuímos. Desse modo, a introspectiva “ ritmo e poesia da menina feia ”, ilustra como uma luva, a camomila e a distorção, ou seja, as antíteses que cada um de nós possuímos e que Nô apresenta com muita amabilidade e estilo neste primeiro registro musical.

Erros a acertos do viver. Aproveitar a oportunidade, fazer o que até então não se fazia, viver “ um ano em um dia ”, é um pouco do que apresenta esta analítica composição; a qual encontra eco na melódica “ soneto ao temporal ”, que manifesta uma necessidade providencialmente esquecida de deixar de gritar, opinar, sentir e verdadeiramente o que podemos. Uma atitude, que um (dos milhares deste mundo) desprovido poeta na sarjeta se agarra como à sua vida.

Vida, que em sua natureza ordinária, nos faz sentir a cada dia, o inominável do sentimento, a dor que transcende o aparato corporal e a nosologia usual. É o que se vê e se sente na sentimentalmente comprimida “ ar ”. Substância essencial que nos falta e, por vezes, nos atravessa de forma inóspita, transmutada em “ festim ”; Balada

que trás as constantes alternâncias do humor, da opinião e da satisfação, num mundo tão complementar e contraditório como o nosso. Mundo intrincado que, porém, pode ser “ leve ” (última faixa do disco), se nos atermos à temporalidade e à sucessão dos fenômenos. Com essa delicadeza infante, entretanto madura, Nô otimiza as coisas como elas são. Sem sofrimento, sem pressa, sem aflição. Apenas a vivência de alma e coração, puro e pleno de um ser humano.

Foto:Arnaldo Torres

E assim, nesta conjuntura lúdica, o verbo, viés do canto, assume o prazer de levar aos que a vêem e ouvem, uma poesia direcionada, fluente, familiar, fraterna e amorosa. Poesia que se concatena com a prosa de uma mulher leve, que absolutamente incorpora e transforma positivamente suas cicatrizes.