| AURA NARRATIVA
Trajetória de Walter Benjamin se entrelaça em tempo, morte, memória e existência...
por
Hugo Villa Maior
(
hmaior79@hotmail.com )
 enjamin em seu artigo “O narrador”, nos fala a respeito da morte da narrativa. Atribui às mudanças na força produtiva – a passagem do artesanato para a produção em série, passando inclusive pela manufatura - uma certa responsabilidade também na mudança do modo de narrar, de contar uma história,o que favorece e culmina sobretudo no surgimento, no aparecimento do Romance como instituição.
Benjamin nos coloca que ao “estarmos privados de intercambiar experiências”, por sermos frutos de duas grandes guerras mundiais que nos deixaram mudos, alterou-se a maneira de coser o fio da história, o fio da narrativa, e esta narrativa que antes estava associada de maneira intrínseca a experiência do narrador, hoje não encontra lugar porque este narrador “ entreguerras” é pobre de experiência, o que deflagra e institucionaliza sobretudo o desaparecimento da narrativa. Como prova disso, temos os milhares de livros que relatam a guerra, porém que nada tem a ver com a experiência nas trincheiras, segundo o próprio Benjamin.
Em seu prefácio para “Magia e técnica, arte e política”, coletânea de textos que Benjamin escreveu durante os vários momentos de sua trajetória, Gagnebin nos enumera de uma forma bastante lúcida os prováveis motivos pelos quais a experiência se torna tão dispensável nesta esteira da modernidade. O primeiro deles é que não há mais uma comunhão entre narrador e ouvinte, pois a noção de comunidade também se perdeu e com ela todo um discurso, um diálogo entre gerações que aproximava o passado e o presente. Isso ocorre por conta do rápido desenvolvimento tecnológico a alterar, sobretudo a perspectiva temporal, a noção de temporalidade, ou seja, o próprio conceito de história conforme o próprio Benjamim ratifica em artigo escrito também na década de 30 “Sobre os conceitos da história”. Este texto merece ser lido com atenção pelo fato do autor propor contar a história “a contra pelo” da própria história, fazendo falar as vozes que, até então, estavam emudecidas e oprimidas, já declaradamente influenciado pelas leituras marxistas.
O segundo, certamente vinculado ao primeiro, refere-se a própria concepção de trabalho que também se modificara, se inscrevendo dentro de um ritmo mais acelerado, impondo um fim, ainda que gradual, ao trabalho do artesão que, de uma forma ou de outra, ainda mantinha um vinculo bastante significativo com “a arte de contar história”: “...os movimentos precisos do artesão, que respeita a matéria que transforma, têm uma relação profunda com a atividade narradora(...) participando assim da ligação secular entre a mão e a voz, entre o gesto e a palavra...”
O fim da arte de contar também está relacionado, não por a acaso, a desvalorização por parte da modernidade de “uma tradição e memória comuns” que propiciavam inclusive a possibilidade não só de um testemunho, mas de um tempo partilhado. É preciso diferenciar então experiência coletiva de experiência vivida: Erfahrung e Erlebnis respectivamente, o que na obra de Benjamin é fundamental, um ponto crucial.
A experiência coletiva ( Erfahrung) deve não só ser partilhada, como também experienciada em conjunto, uma vez que está fortemente relacionada a concepção de comunidade, e a experiência vivida ( Erlebnis) está certamente ligada a individualidade, não devendo em momento algum ser compartilhada, por ser oriunda de valores burgueses que primavam por uma contenção, reclusão, fundadores de uma sociedade essencialmente privada, a mesma que elegeu o Romance como o mais novo gênero.
O Romance se diferencia da narrativa, sobretudo por primar por uma busca, uma procura de sentido, “...sentido da vida, da morte e da história...”, justamente pelo fato do leitor, assim como o herói romanesco estar sempre ávido por uma resposta que acalme as angustias oriundas da modernidade, da qual é fruto: “... O romance coloca em cena um herói desorientado, e toda a ação se constitui como uma busca (...) O leitor do romance persegue o mesmo objetivo; persegue assiduamente na leitura o que já não encontra na sociedade moderna: um sentido explicito e reconhecido...”
O leitor do Romance estava condenado à solidão, uma vez que não podia falar a respeito de suas preocupações e o romancista também parecia um “individuo isolado”, o herói do gênero configurava-se em D. Quixote, um personagem que privilegia o sonho, a utopia em detrimento aos conselhos.
O Romance nesse momento passa a desempenhar um papel importante, por significar justamente o oposto da narrativa. Não havia lugar para ensinamentos, para um conteúdo moral, não havia como na narrativa uma acepção utilitária da qual o leitor retirava um aprendizado, pelo fato de estar distante da experiência, e mais do que isso estar oposto a ela.
Os narradores orais que espalhavam suas histórias pelo mundo representados pelo mestre sedentário e o aprendiz migrante, aquele contando a história de seu povo, de sua terra, de sua gente, e este a contar as histórias de suas andanças, também estão sem lugar no Romance que antes de tudo representa o fim de uma tradição oral, uma vez que “ o que separa o Romance da narrativa é que ele está essencialmente vinculado ao livro”
Porém, com o florescimento e a consolidação da burguesia além do aparecimento do Romance, há também o surgimento da imprensa e com ela uma nova forma de comunicação tão ameaçadora a narrativa quanto ao próprio Romance: A informação.
A necessidade do novo que a informação traz consigo, coloca em perigo não só a narrativa, uma vez que arte de narrar é a arte de “ contar de novo”, como também o próprio Romance, uma vez que a informação privilegia uma verificação imediata com uma possibilidade de leitura e interpretação bastante restritas.
A partir dessa forma de comunicação, é que entendemos como a idéia da morte, sempre tão fortemente relacionada à idéia de eternidade, foi perdendo no consciente coletivo sua onipresença.
Assim como a narrativa foi perdendo seu lugar em função de uma baixa da experiência, a morte perde sua força de evocação por ser justamente nela que o narrador respalda e sanciona sua autoridade, uma vez que é só no momento da morte que a sabedoria assume um caráter transmissível, e só então entendemos como a narrativa está intrinsecamente relacionada a idéia da morte.
A figura do ancião tão respeitado dentro da cultura oriental, o que nos remete também a figura do Pajé na cultura indígena, não se vale de sua autoridade pelo acúmulo de experiência vivida, mas sim por estar mais próximo da morte. A importância da morte dentro de uma perspectiva Benjaminiana está no fato dela significar a destruição da aura.
A destruição da aura para Benjamin é justamente o momento em se rompem os paradigmas espaço e tempo, o que ele mesmo chama de “o aqui e agora”, o que termina inclusive com a idéia de tempo cronológico e passa a se trabalhar, de fato, com a idéia de memória.
Jeanne Marie Gagnebin ratifica a importância da memória na construção da narrativa nos lembrando de Sherazade, que a partir de suas histórias traça um “movimento infinito de memória notadamente popular”. Cada história é uma motivação, um incentivo para que se conte outra história e assim, vá se tecendo o fio textual e se aproximando cada vez mais da palavra texto que, no seu sentido mais ontológico, se aproxima de tecido.
Aos poucos, ouvinte e narrador tornam-se um só, a aponto de os dois se apropriarem da história que é contada fazendo concessões e sugestões, retirando, incorporando e reiterando fragmentos ao relato, por compartilharem de fato de uma mesma experiência, se aproximando bastante do sentido de memória: atemporal e fragmentário.
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