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12 de novembro a
3 de dezembro de 2005

Equipe Edições Anteriores

O BRASIL NA MOSTRA
Produções nacionais mostram que o Brasil constrói filmes originais e comoventes
por Paulo Gustavo Freire ( pgvarandas@yahoo.com.br )

Brasil está na moda. Esta afirmação é impossível negar. Temos brasileiros sobressaindo-se nas mais diversas áreas e o cinema aparece cada dia com uma força maior. Neste ano em que a Mostra teve o maior número de filmes nacionais inscritos dentre todas as outras edições, conferiu três longas-metragens de gêneros diversos.

Vou confessar, quando troquei o ingresso para assistir ao filme A Máquina não sabia nada a respeito deste. O máximo que fiz foi ler sua sinopse. Dirigido por João Falcão e com roteiro baseado no livro de sua mulher, Adriana Falcão, a estória já havia ganhado uma adaptação para o teatro com Wagner Moura e Lázaro Ramos.

O filme abre com a narração de Paulo Autran com uma divertidíssima concepção do mundo e então chegamos até Nordestina, cidade no interior de Pernambuco, no qual iremos acompanhar a vida de Antônio (estréia do sobrinho do diretor, Gustavo Falcão). Nascido numa família de muitos irmãos, um deles demonstra o desejo de todos que nascem naquele pequeno lugar num diálogo carregado de humor. Seu objetivo, atravessar a tal linha do horizonte (para conhecer o mundo além de Nordestina) e ver se ela está realmente riscada no chão.

Karina (Mariana Ximenes), a paixão de Antônio, também deseja que o mundo ouça falar dela. Quer ser atriz. Obcecado pelo amor de Karina, resolve buscar o mundo para ela (e quem apaixonado nunca pensou nesta hipótese?). E então parte para o Rio, onde teremos as cenas mais hilárias do filme. Antônio em seu primeiro contato com o mar e o shopping e quando vai a um programa, espécie de “se vira em sessenta segundos”, para confessar que fará uma viagem ao futuro e que caso não consiga será cortado com uma máquina que contém mais de setecentas lâminas. Wagner Moura, em excelente participação como o apresentador do programa, dispara frases que arrancam gostosas gargalhadas da platéia.

Um dos méritos do filme fica por conta da criação de Nordestina, os cenários e a iluminação são teatrais, com direito a números musicais em momentos de divagação das personagens. A ingenuidade dos habitantes de Nordestina somados aos ótimos diálogos (melhor aproveitados por quem conhece as gírias do Nordeste brasileiro - acredite há frases impagáveis) carrega o espectador pela jornada de Antônio sem que esta fique monótona. Quando a tal viagem com a máquina do título chega, finalmente descobrimos o propósito do filme. Construir uma deliciosa fábula sobre o tempo e o amor.

A sessão de Crime Delicado na Mostra foi a de estréia do novo filme do diretor Beto Brant em São Paulo. Ele e boa parte da equipe entraram no cinema. Em breves palavras o diretor agradeceu a equipe e patrocinadores, falou para platéia aproveitar o filme e convidou para comemorar a estréia no Clube da Mostra. Pelo título muitos podem pensar que se trata de mais um filme com câmera na mão e com a violência por trás do ser humano como pano de fundo para se contar mais uma história.

Mas estamos em terreno novo. Beto Brant troca a câmera na mão pelos planos fixos para contar a vida de Antônio Martins (Marco Ricca), um crítico de teatro obcecado com a perfeição, em três atos. No primeiro ato, Antônio conhece em um bar uma mulher que irá mudar sua vida. Inês (Lílian Taublib), que tem uma característica especial a qual o espectador irá descobrir, vive com o pintor José Torres Campana (o artista mexicano Felipe Ehrenberg). No segundo ato, acompanhamos Antônio pelos bares vendo o teatro da vida, nos melhores momentos do filme. Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga , nos brinda com uma excelente improvisação de um marido ciumento. Um crime de estupro acontece aos olhos do espectador que acaba por não ter certeza se este realmente ocorreu.

No terceiro ato temos a concepção das pinturas sensuais de José Torres Campana e um interrogatório com o crítico acusado do crime. Uma crítica ao desejo, a obsessão e a arte como polêmica. Uma nova e corajosa empreitada para um diretor que representa o cinema brasileiro instigante e pungente.

No feriado de finados estava ansioso para assistir a 2046 , mais uma história de amor de Wong-Kar-Wai, porém os ingressos já estavam esgotados. Sem mais nenhuma opção em mente resolvi optar por alguma sessão que fosse no mesmo horário. E eis que escolho por acaso, um dos mais filmes mais bonitos da Mostra. Cinema, Aspirinas e Urubus , road-movie ambientado no sertão nordestino.

Antes da sessão, Marcelo Gomes entrou no Cine Bombril (o melhor dos cinemas da Mostra) para comentar sobre o filme e nos revelou dois detalhes. O roteiro (escrito pelo próprio Marcelo Gomes em parceria com Paulo Caldas e Karim Ainouz) foi construído através de um relato contado por um de seus parentes e que apesar de o filme se passar em Pernambuco foi inteiramente gravado na Paraíba.

O plano branco revelando que inicia o filme aos poucos vai revelando a paisagem do sertão nordestino. O diretor quer nos passar a sensação de calor causticante que irá permear todo o caminho de Johann (Peter Ketnath), alemão que fugiu de seu país com o surgimento da Segunda Guerra Mundial para percorrer o Brasil com um caminhão vendendo aspirinas. Estamos em 1942, e o rádio no caminhão de Johann é o meio de comunicação que nos leva ao mundo que está ocorrendo fora dali e traz a música que define a vida daqueles personagens.

No decorrer do caminho o alemão vai dando carona aos andarilhos das estradas de terra e parando em casas para abastecer o caminhão ou conseguir mais água. Numa das caronas acabar por conhecer Ranulpho (em interpretação espetacular de João Miguel) e lhe oferece um trabalho como seu ajudante.

Os dois irão percorrer o sertão para vender as aspirinas, utilizando o cinema para prender a atenção dos compradores. A amizade entre eles aliados a seus sonhos e angústias (assim como o dos passageiros a quem eles dão carona), são dois olhares diferentes sobre um mesmo mundo. O sertanejo amargo que não vê nada de interessante na fome e na miséria e o alemão, cansado de ver bombas caindo do céu, maravilhado com o simples fato de cercar os animais. Uma simples história sobre duas vidas afetadas por um mundo externo as suas pretensões.

O cinema surge como a magia da imagem em movimento, as aspirinas como a forma de comprar o sonho de uma vida melhor, e os urubus como o fim dos sonhos e da amizade. Comovente e espetacular.