| O SORRISO DE KIRSTEN DUNST
Tudo Acontece em Elizabethtown, novo filme de Cameron Crowe, tem dona
por
Fábio Freire ( fabio_fcosta@hotmail.com )

epois do sucesso de Quase Famosos , em 2000, que ganhou, inclusive, o Oscar de melhor roteiro original, Cameron Crowe ficou de bola cheia e foi dirigir o remake do espanhol Abra los Ojos . O resultado ficou bem aquém do esperado e foi um fracasso de público e crítica. Quase quatro anos separam, então, Vanilla Sky de Tudo Acontece em Elizabethtown , novo trabalho do diretor. A mal sucedida mistura de drama, suspense e ficção protagonizada pelo sorriso de Tom Cruise deu lugar a uma comédia romântica sem grandes pretensões estrelada por Orlando Bloom e Kirsten Dusnt.
Bastante aguardado pela crítica e pelo público cativo do diretor e roteirista, Tudo Acontece em Elizabethtown surpreendentemente também não foi bem recebido. Só que o filme não é tão ruim quanto pintam. Muito pelo contrário, é um belo trabalho, bonitinho sem ser ordinário. Talvez um pouco parecido demais com o recém exibido Hora de Voltar, que trata de tema semelhante: a volta ao lar depois da morte de um ente querido. Elizabethtown também pega emprestado um assunto já tratado por Cameron Crowe no superestimado Jerry Maguire. A Grande Virada , o fracasso, que, aqui, funciona apenas como ponto de partida para o desenrolar da trama sobre amadurecimento e novas descobertas.
Um dos pontos mais criticados de Elizabethtown é a falta de carisma do protagonista, o insosso Orlando Bloom (da trilogia O Senhor do Anéis ). Mas o ator segura as pontas (ajudado pela atuação contagiante de Kristen Dunst) e é tão bonito que a gente até esquece que ele não sabe atuar. Bloom interpreta Drew, um designer de tênis que descobre da pior maneira o fracasso, o grande medo do americano médio. Depois de perder o emprego, a namorada e ter o carimbo loser estampado na testa, o jovem tenta se matar. Mas antes de fazê-lo, de modo estapafúrdio e constrangedor, descobre que seu pai morreu. Drew parte, então, rumo a Elizabethtown, a cidadezinha que dá nome ao filme, para rever a família (cheia de gente esquisita, como qualquer outra famíla normal) e cremar o corpo do pai.
Mas essa subtrama é apenas uma desculpa do roteiro para o que realmente interessa, o inusitado encontro de Drew com a aeromoça Claire (Dunst), que entra sem pedir licença na vida do designer . Daí em diante o carisma de Kirsten Dunst toma conta da tela e a química entre ela e Bloom funciona que é uma beleza, demonstrando o talento da atriz, já que é ela quem salva da apatia a atuação do companheiro de tela. Elizabethtown deixa, assim, de ser um estudo de personagem e se assume apenas como uma comédia romântica agridoce e simpática, ora melancólica, ora ingênua. E não há nenhum mal nisso.
A trilha sonora de Elizabethtown também é um achado, marca mais do que pessoal do próprio diretor, sempre pronto a entregar produções repletas de belas canções encaixadas como pérolas na narrativa dos filmes. Elton John, Ryan Adams, Tom Petty e The Hollies servem de fundo, então, para algumas cenas e diálogos inspirados, como a longa conversa que Drew tem com Claire ao telefone. Talvez seja pouco para compensar as expectativas advindas da longa ausência de Crowe atrás das câmeras. O excesso de personagens coadjuvantes - alguns interessantes (como o interpretado por Susan Sarandon), a maioria nem tanto (o primo nerd , a criança gritalhona e os desperdiçados Alec Baldwin e Jessica Biel) -, e a falta de um roteiro e personagens mais consistentes atrapalham um pouco. O uso abudante da música também pode incomodar alguns, já que, na maior parte da produção, a melancolia surge através da utilização da trilha sonora mais do que pela honestidade das situações. Mas basta não exigir demais do filme. O resto fica por conta do sorriso de Kirsten Dunst. |