| OS OUTROS CONTOS DA ERA DO JAZZ
24 contos de F. Scott Fitzgerald apresenta ao público brasileiro histórias pouco conhecidas do autor ícone da “era do jazz
por
Luiz Rebinski ( jrrebinskia@yahoo.com.br )

ranz Scott Fitzgerald foi o escritor que melhor soube traduzir o glamour e a efervescência da sociedade norte-americana dos anos 1920. Seus romances retratam a mise -e n - scène dos bailes, festas e orgias sexuais – e consumistas – organizadas pela classe mais abastada dos Estados Unidos no começo do século passado. Fitzgerald, ele mesmo um bon vivant , contrariando a tradição humanista da literatura mundial, não pautou sua obra nos dissabores dos humilhados e ofendidos, pelo contrário, escolheu os afortunados como fonte de inspiração. E foi muito feliz na opção. Afinal, o escritor falava do que sabia. Tinha conhecimento de causa. Viveu algumas das situações que mais tarde narrou e foi confundido com seus personagens.
Em 24 contos de F. Scott Fitzgerald , lançado pela Companhia das Letras, assim como nos memoráveis romances do autor, os cenários suntuosos, as histórias de amores impossíveis e os conflitos existenciais marcam presença. Traduzidos pelo jornalista Ruy Castro, um apaixonado pela cultura americana dos tempos de Humphrey Bogart, o livro traz histórias pouco conhecidas dos leitores brasileiros. A maioria delas nunca publicadas por estas bandas – estima-se que o escritor tenha deixado em seu espólio cerca de 160 contos. A narrativa curta foi o bote salva-vidas do escritor durante muitos anos. Entre um romance e outro, sucessos e fracassos, os contos, publicados em revistas como a Saturday Evening Post , garantiam o sustento do autor. Daí a importância do gênero na vida e na obra do marido de Zelda.
Nesta compilação as histórias estão postadas em ordem cronológica, de 1920 a 1940. Justamente o período mais fértil da carreira de Fitzgerald. Além dos cenários consagrados em seus livros de maior sucesso, outros temas caros ao autor, como o alcoolismo e a decadência, física e moral, podem ser encontrados nos contos escolhidos por Castro.
Conhecido por ser o criador de romances célebres, como O grande Gatsby , Fitzgerald parece não ter poupado talento na hora de confeccionar histórias curtas. O texto preciso e elegante de livros como Este Lado do Paraíso , seu primeiro rebento, faz-se presente na coletânea. Em outras palavras, os contos não devem nada aos romances. São tão bons quanto. Alias, cada história tem um quê de romance. As tramas são bem amarradas e prendem a atenção. O leitor experimenta sentimentos distintos com relação aos personagens em um espaço de tempo muito pequeno. Detalhe mais do que louvável quando se trata de histórias curtas.
Ícone da chamada “era do jazz” – que agrupou nomes como o de Ernest Hemingway –, Fitzgerald foi um dos muitos escritores que cruzou o Atlântico para fazer de Paris a capital da cultura mundial nos anos que antecedem a falência da Bolsa de Valores de Nova Iorque – período emblemático e de ruptura para os sobrinhos de Tio Sam.
Conhecido por ser um exímio cronista, o autor mistura fatos históricos a relatos biográficos em seus contos. Alcoólatras e escritores talentosos cooptados pelos estúdios de Hollywood são personagens recorrentes em suas histórias. Lindas donzelas e investidores de Wall Street – falidos ou não – também aparecem com freqüência. Uma fauna rica de tipos bem dotados que Fitzgerald conhecia como a palma da mão.
Em muitos casos, as semelhanças entre criador e criatura são tantas, que é difícil acreditar que o relato não se baseia na vida do próprio autor e nas suas peripécias pelas ruas de Los Angeles. No conto “Uma página virada”, o personagem Dick Ragland assume o papel de dândi desregrado. Ragland, apesar de ser um outsider , desperta interesse nas garotas devido sua beleza descomunal. Outro bebum memorável é Charlie Walles, um empresário que perde a guarda da filha por causa de seu fascínio pela birita. Entre Paris e Nova Iorque, Walles tenta resgatar o carinho da filha, tendo que travar uma luta constante contra o álcool.
Fitzgerald foi roteirista – e bebum – de Hollywood e dessa experiência colheu muitas informações. Freqüentou festas e participou das rodas de artistas e novos-ricos. Não é à toa que os personagens-escritores são tão presentes em suas narrativas quanto os bêbados. Em alguns casos, os dois tipos – o alcoólatra e o intelectual – podem estar em um só personagem. É o caso de Joel Coles, de “Domingo louco”, que, para conseguir trabalho nos estúdios comandados pelo produtor Miles Calman, tenta disfarçar seu apetite pela bebida. Outro conto protagonizado por um escritor é “Financiando Finnegan”. Aqui o autor usa o bom humor para falar de um escritor enciumado com o sucesso de um colega de editora. Finnegan é dono de best-sellers e, portanto, o quadro de maior destaque na casa. As regalias e extravagâncias concedidas pelos editores ao romancista geram indignação em um autor menos talentoso. A impossibilidade de construir obras tão boas quanto àquelas criadas por Finnegan, atormenta o narrador da história, gerando um sentimento que se divide entre a admiração e o ciúme.
Outro bom momento da compilação é “Bernice corta o cabelo”, conto que abre o livro. Entre o cômico e o trágico, o autor narra a saga de uma adolescente que vai passar as férias na casa de uma tia e é desdenhada e ridicularizada pela própria prima, que sente vergonha dos modos caretas da parenta. Bernice é talvez uma das primeiras nerds da literatura mundial – Fitzgerald provavelmente nem conhecesse a expressão, própria dos nossos tempos, que se refere a uma pessoa pouco articulada e em geral centrada nos estudos, mas deu vida a uma personagem que segue à risca os estereótipos que hoje conhecemos. A protagonista usa roupas antiquadas, é excessivamente comedida e fala sobre assuntos que ninguém entende. Para conquistar a amizade da prima e seus amigos, Bernice muda de estilo e segue os preceitos da “galera antenada” com as últimas tendências da moda. Quando parecia que estava entrosada com a turma, é envolta em uma cilada armada pela própria prima. Para mostrar bravura e rebeldia, Bernice se vê obrigada a cortar as longas madeixas. Um verdadeiro escândalo para a sociedade de então. Assustada com a aparência que adquiriu, Bernice, desiludida e triste, resolve voltar para a casa dos pais antes do prazo. Mas não sem antes entrar no quarto de sua algoz e dar o troco, passando a tesoura nas belas tranças da prima enquanto esta dormia. O final memorável do conto serve como cartão de visita do autor. Esta primeira história soa como um alerta. Parece querer dizer: isto é F. Scott Fitzgerald, um escritor que sabe como falar de amor e ódio com a mesma elegância e requinte.
As histórias do autor de Suave é a noite são bem construídas. Seus personagens têm uma carga de realismo muito grande. Os homens e mulheres criados pelo dândi desregrado são demasiadamente humanos. Em geral erram muito mais do acertam, tornando-se verossímeis aos olhos dos leitores.
Mas Bernice é apenas uma das muitas mulheres, pouco ortodoxas, criadas pela mente do autor. Muito antes de Vladmir Nabokov lançar o seu Lolita , em 1955, Fitzgerald dava vida a garotinhas tão rebeldes e sensuais quanto a ninfeta do escritor nascido na Rússia. É o caso de Fifi, de “A menina do hotel”, uma adolescente exibicionista que adora se meter em confusão e conquistar homens mais velhos apenas para se divertir. Além das deliciosas travessuras de Fifi, o conto traz elementos da ficção policial.
A história da Literatura Universal mostra que o tempo é o maior editor que pode existir no mundo das letras. Depois de passar por um período de reconhecimento e, já no final da carreira, ser esquecido, Franz Scott Fitzgerald é novamente alçado ao primeiro escalão dos grandes escritores. Tem seus principais livros relançados e é autor de um dos maiores romances de todos os tempos – o já citado O grande Gatsby . Seu espólio ainda reserva gratas surpresas como Os belos e os malditos e Seis contos da era do jazz , até então único registro de narrativas curtas (leia-se pequenas novelas) de Scott. Alias, Seis contos... é tão bom quanto a compilação em questão. Histórias como “O curioso caso de Benjamin Button” poderiam facilmente estar na seleção de Ruy Castro, que, ao que tudo indica, usou o ineditismo como critério maior.
24 Contos de F. Scott Fitzgerald é daqueles livros que mostram o “lado B” dos escritores. Que vão além do óbvio. No caso do autor norte-americano, a compilação serve também para dar a devida visibilidade a um escritor que estava meio sumido, que só aparecia quando alguém se lembrava de um certo Jay Gatsby. Bem, justiça feita, agora todos sabe que além do contrabandista de bebidas mais famoso da literatura, Fitzgerald é pai de outras criaturas empolgantes. |