| MOSAICO DO DESTINO
O injustiçado “Best Of You”, do Foo Fighters, reúne carmas dentro e fora da tela
por
Nara Jardim
(
nara_baiana@hotmail.com )

oda produção tem suas histórias de bastidores. Engraçadas e inesquecíveis, ficam as lembranças para quem participou das gravações quando assiste o trabalho finalizado na tela. No caso de “Best Of You”, do Foo Fighters, as peculiaridades do backstage se refletem no videoclipe, de forma quase cármica. Contribuindo para que esse fosse mais uma obra-prima entre tantas na videografia do Foo Fighters. Quiçá a maior.
“Best Of You” é uma música forte, densa e latente, que passa uma lição de vida. Muito além de otimismo e “carpe diem” puro e simples, a letra remete à auto-análise. Musicalmente, acompanha o rock característico da banda, encontrado no CD mais pesado do duplo “In Your Honor”, lançado no primeiro semestre de 2005. Nessa linha de raciocínio, o videoclipe de “Best Of You” é uma montagem de várias passagens da vida, exemplificadas na letra através de sentimentos e atitudes. Contudo, nem todas as imagens correspondem à letra, assim atingindo o telespectador de forma individual.
Para dirigir um audiovisual tão complexo, a banda chamou Mark Pellington, já conceiturado diretor de videoclipes. O Foo Fighters acompanhava seu trabalho há um tempo, em videoclipes de bandas como No Doubt, Green Day e Audioslave. Famoso por seus clipes de narrativas elaboradas, Pellington sempre desejou dirigir um clipe do Foo Fighters. Contudo, essa empatia, contada no programa Making The Vídeo, da MTV americana, não parou por aí; Pellington havia perdido a esposa apenas oito meses antes das gravações. E se identificava com “Best Of You”, a música o ajudava a superar a dor. Tanto que daí surgiu a idéia das colagens de imagens soltas.
Esse mosaico de imagens aleatórias é a identidade de “Best Of You”, com uma peculiaridade: a maioria fora produzida para o clipe, imagens de arquivo são raras. Pellington resgata um pouco das técnicas de Sergei Eisenstein; o cineasta russo fora o precursor na produção de filmes onde as imagens eram ligadas de forma a construir vários significados. Por mais que essa medida tenha encarecido a produção, reflete uma delicadeza ainda maior de Pellington na direção. O diretor escolheu pessoalmente cada ator e cada passagem a ser registrada, sempre seguindo as sensações provocadas pela música, e não a letra em si. Para a tomada do Foo Fighters tocando, fora usada a luz natural, criando uma fotografia espetacular. Com um detalhe: no primeiro e único dia de gravação dessas cenas, o céu estava com um pôr-do-sol especialmente moldado para as filmagens . Como um milagre, uma ajudinha de São Pedro. Coincidência?
Para as cenas internas, a locação fora de um porão de hospital abandonado. As paredes foram pintadas com várias mensagens diferentes (incluindo brincadeiras com a patricinha Paris Hilton), enquanto a banda era filmada com luz incisiva, direta e forte nos integrantes da banda. Com isso, fora criada uma sensação de abandono, mesmo com as cores quentes utilizadas. Predominavam o vermelho e o laranja, para acentuar a separação entre a luz quase inquisidora e o vazio da escuridão em volta. Sentimentos facilmente encontrados num porão abandonado...Ainda mais de um hospital! Pellington também utilizou figurantes vestidos de preto com pequenas luzes coladas, correndo pelos corredores, “para demarcar a passagem de tempo e representar o futuro”, segundo o próprio diretor. Acabou também resultando numa pegadinha: você só observa que são pessoas correndo debaixo da roupa de luzes na sua milésima assistida.
O videoclipe é uma combinação única de imagens com as emoções da letra, há muito não vista nos videoclipes atuais. Talvez um dos últimos clipes que se aproveita de tal recurso, seja “Losing My Religion”, do REM - e é um videoclipe do início dos anos 90! E mesmo com todo sua delicadeza e refinamento, “Best Of You” foi totalmente esquecido no Vídeo Music Awards deste ano, perdendo vários prêmios principalmente para “Boulevard Of Broken Dreams”, do Green Day - os atuais “meninos dos olhos” da MTV americana. Resta saber se esta injustiça fora por conta de uma massificação da mídia sobre outros videoclipes, ou se é uma obra-prima que está tão acima do entendimento do público americano... Assista e tire suas próprias conclusões. |