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12 de novembro a
3 de dezembro de 2005

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A PROFECIA
O clássico do terror terá um remake, e profetiza o fim das idéias originais para os filmes do gênero
por Ricardo Stabolito Junior ( ricardostabolito@bol.com.br )

situação do cinema de terror americano é terrível. Não lembra, nem de longe, os anos 80, quando o público lotava as salas de cinema para ver Freddy Kruger, Jason Vorhees e Michael Myers dilacerarem suas vítimas apoiados por roteiros sem nexo e repetitivos.

O problema passa pela dúvida do cinema americano em definir e modernizar a idéia do que vem a ser um filme de terror. Será um suspense psicológico? Será a história de um açougueiro perturbado? Será um filme com mortes e humor negro? Será o conto do ser estranho que usa o corpo humano como hospedeiro? Será uma profanação ao catolicismo? São tantas opções e o pior: todas parecem equivocadas.

A verdade é que as saídas para esse mercado são poucas. Você pode “pintar” seu filme de terror de um radicalismo inovador – deu certo em A Bruxa de Blair (2000), premiado pelo tom experimental; deu errado em Olhos famintos (2001), que no fim não tinha nada de inovador e muito de radical. A febre é buscar os roteiros bem sucedidos dos japoneses – deu certo em O Chamado (2002) e já começa a dar errado em Água Negra (2005). Há a possibilidade de fazer repetidas seqüências de um filme um pouco mais bem sucedido, essa sempre dá errado. E, a mais utilizada no momento, é refilmar um antigo sucesso, do tempo em que o filme de terror dava medo por seu mérito, não pela mediocridade.

Mais um filme clássico do gênero comporá o grupo dos remakes no ano que vem, trata-se do ótimo A profecia . Apesar de não ser tão comentado como O exorcista (1973) e Poltergeist (1982), ele é tão bom ou melhor do que ambos. E, se tivesse de escolher um clássico para refilmar, A profecia seria minha última escolha.

O filme original foi feito em 1976 pela Fox. Conta a estória do diplomata americano Robert Thorne que troca o bebê matimorto da esposa por um órfão desconhecido, acolhendo-o como filho. Quando cresce, várias mortes misteriosas fazem Robert e sua mulher desconfiarem que o bebê adotado é a encarnação do mal, o anticristo. O clichê do número da besta – 666 – está no filme, como marca de nascença do garoto.

O interessante é que A Profecia quase não saiu do papel, pelo fato da Warner estar preparando O exorcista 2 . A Fox bancou o filme, apesar do baixo orçamento, e ele foi um grande sucesso, ao contrário da seqüência de O exorcista que é considerada uma das piores continuações da história do cinema.

A profecia tem um grande elenco, encabeçado por Gregory Peck e Lee Ramick. Peck, apesar de velho para o papel, está formidável na pele do atormentado diplomata Thorne, conseguindo passar ao público todo o medo e conflito que o personagem carrega. Ramick, no papel da esposa de Thorne – Katherine -, tem uma atuação muito boa, destacando-se o momento em que começa a ficar paranóica com a idéia de que o filho é o demônio. Além disso, a coadjuvante Billy Whitelaw, que faz o papel da babá e “segurança” do garoto demoníaco, tem uma presença marcante no filme, roubando a cena.

Mas os grandes diferenciais do filme são a direção de Richard Donner e a música de Jerry Goldsmith. Donner apresenta um trabalho extraordinário e um controle supremo sobre a atmosfera da obra, abusando dos closes em olhares – nesse filme, os olhares mostram muito da personalidade do personagem e da tendência ao bem ou mal. Já Goldsmith é brilhante na trilha sonora: ele utilizou cânticos religiosos com um coral entoando uma “missa negra” em latim. O resultado é macabro, assustador e tenso – uma obra-prima na sua área. O mais engraçado é que no Oscar de 1976, Goldsmith foi indicado pela décima-oitava vez a um prêmio e nunca havia ganhado, já estava desanimado com o daquele ano pois filmes de terror não ganhavam Oscars, mas teve a surpresa de ganhar exatamente pelo seu único trabalho no gênero. Até sua morte, em 2001, ele foi indicado mais de 20 vezes ao Oscar e só ganhou por A profecia.

No remake , o papel que foi de Gregory Peck fica com Liev Schreiber (de Sob o domínio do mal ) – uma escolha muito interessante – e o papel de Lee Ramick fica para Julia Stiles (de A supremacia Bourne ). O grande problema é para o papel do garoto demoníaco, que na versão original foi interpretado por Harvey Stephens. O diretor será John Moore (dirigiu Atrás das linhas inimigas ), conhecido por trabalhos em filmes de ação.

O único empecilho na produção do remake seria, segundo a Fox, o roteiro que está “ultrapassado”. Cresceu nos últimos meses o boato de que Dan McDermott (sem experiência na área cinematográfica) teria sido contratado para a função de atualizar o roteiro – um trabalho que, geralmente, acaba descaracterizando a obra. Retirando esse obstáculo, a estréia do filme deve ser no dia 6/6/6 (6 de junho de 2006) – puro jogo de marketing – e faria parte da celebração de 30 anos do filme original.

A profecia (2006) tem escolhas no elenco bastante interessantes, mas deve ser exatamente na direção e principalmente na trilha sonora que o remake ficará aquém do original. Vale lembrar que o orçamento do filme (incluindo viagens, pagamento das estrelas e de Goldsmith) foi de 2,5 milhões de dólares. Conclusão: um trabalho primoroso e barato.

Voltando a crise do terror americano, saídas como o remake de A profecia são melhores do que conceber obras como O filho de Chucky e Olhos famintos 2 , mas não quer dizer que não exista mais nenhuma obra válida nesse cenário. Prova disso foi o retorno de George Romero aos mortos-vivos em Terra dos mortos (2005), que mostrou, mesmo depois de 37 anos do sucesso A Noite dos mortos-vivos , saber atualizar sua concepção sem mexer no roteiro, apenas na ambientação da história.