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12 de novembro a
3 de dezembro de 2005

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TABU "FICCIONÁVEL"
Plano de Vôo parece representar o ponto final da estética do Onze de Setembro
por Igor Matheus ( imathpm@yahoo.com.br )

lano de Vôo não é um bom filme. Mas antes mesmo de taxá-lo como ruim, seria sensato alcunhá-lo, com um leve amargor, de ´importante´, pois há algo que o eleva: o pioneirismo de ser a primeira ficção de massa desde o onze de setembro a abordar a paranóia - já infiltrada na genética yankee - a milhares de pés acima.

O que significa que a película de Robert Schwentke ou fará os estetas onzedesetembristas salivarem, ou, na melhor das hipóteses, os exterminará para sempre - pois a análise fílmica passará de achado sociológico a simples repetição de alusões (a hecatombe das torres é citada, assim como é sugerido o preconceito com os árabes). Em suma, Plano de Vôo revela-se ser o primeiro esforço da produção cinematográfica americana de esgotar o luto constrangedor; e, assim, transpor a tragédia intocável em matéria-prima artística.

Ainda bem, pois, a crítica já estava sofrendo convulsões pela insistência de querer associar qualquer manifestação às dores insuperáveis da queda das torres, como se as nuvens que cruzam os céus fossem feitas da poeira do tal cataclismo. Mas quando a tragédia - ou elementos a ela relacionados - é vista com olhos ficcionais, a aura de continência que a rodeia dissipa-se. Plano de Vôo não é sobre o onze de setembro. Mas ao tratar o ambiente aéreo como cenário de uma situação tensa, resvala na feição intocável do episódio - algo que esfriou seriamente o rentável cinema-catástrofe.

O problema é que a relevância da obra é mesmo mais política que estética. Concluída a projeção, a sensação que assoma é inevitável: Plano de Vôo é um filminho-sessão-da-tarde sobre seqüestro; precipitado, forçado e pragmático. Isolado assepticamente das circunstâncias que o particularizam. É um grande clichê.

A mãe-coragem que esbraveja contra o mundo e o fundo em busca da filha. Que não passava de imaginação da mãe. Interessante. E Jodie Foster não atrapalha. Mas o que poderia ser um crescente estado de tensão e claustrofobia torna-se, lá pelo meio, irritação. À priori, a história trata de uma passageira em colapso nervoso e bem disposta a importunar a tripulação. A pouca empatia que o roteiro sugere à personagem de Foster faz com que o expectador compartilhe da má-vontade dos passageiros frente à estranha chorona e reclamona. Depois disso, um lapso de êxito: Schwentke revira a história quando ela já parece ter esfriado.

Mas a busca apressada por informações que justifiquem a situação concebem uma atmosfera bisonha e típica das cansadas fórmulas hollywoodianas. E não é só isso: mesmo se esforçando para basear-se na lógica, o filme a negligencia ou até mesmo a ignora, alimentando contradições que não encaixam com a verossimilhança sugerida.

Pelo menos é razoável crer que essa fita representa o início de um processo de cicatrização simbólica: os americanos já parecem mais à vontade para tratar de tragédias e seqüestros aéreos. Pois é na representação artística, por mais medíocre que pareça - como no caso aqui analisado - que os tabus principiam a se deteriorar.